Sua gradual substituição, a partir de 1744, pelo catecismo de Ostervald, coincidiu com o avanço do liberalismo teológico entre os pastores reformados franceses — um marco silencioso da perda da integridade doutrinária na tradição huguenote. Drelincourt representa, assim, o último século de uma fé reformada viva, corajosa e profundamente enraizada nas Escrituras.
Além de sua relevância histórica, o catecismo permanece notavelmente prático e acessível. Após uma exposição teológica mais extensa, ele apresenta uma seção breve e direta, especialmente pensada para crianças pequenas e pais inexperientes no ensino catequético. Seu uso familiar é simples: o pai lê a pergunta, a criança responde, e então se explica, de modo calmo e diário, cada parte da fé cristã.
Por ser originalmente escrito em francês do século XVII, o texto foi cuidadosamente transcrito e levemente modernizado — preservando a substância doutrinária, mas removendo barreiras linguísticas desnecessárias. O uso do tratamento por “tu”, mais íntimo e pedagógico, também foi adotado na adaptação, tornando o material ainda mais apropriado para o ambiente doméstico.
Este catecismo não é apenas um documento histórico: é um instrumento vivo de transmissão da fé reformada, útil para famílias que desejam formar seus filhos na verdade, com clareza, reverência e fidelidade. Que o Senhor o use, ainda hoje, como usou outrora — para fortalecer os seus em meio às lutas deste mundo.

Seção 1
P. 1. Por que você se chama cristão?
R. Porque, pela graça de Deus, creio em Jesus Cristo e professo a sua verdade.
P. 2. Quem é Jesus Cristo?
R. É o Filho unigênito de Deus.
P. 3. Ele é Deus ou homem?
R. Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
P. 4. Por que era necessário que ele fosse Deus e homem?
R. Ele teve que ser homem para morrer, e Deus para vencer a morte.
P. 5. Há mais de um Deus?
R. Há um só Deus, que criou os céus e a terra.
P. 6. E quantas pessoas há nessa única essência?
R. Há três: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; e esses três são um.
P. 7. Como esse grande Deus se dá a conhecer?
R. Por suas obras, por sua Palavra e por seu Espírito.
Seção 2
P. 1. O que devemos saber na religião cristã?
R. Três coisas principalmente: o que somos por nossa natureza; o que Deus fez por nós pela sua graça; e o que devemos retribuir a ele por todos os seus benefícios.
P. 2. O que você era por sua natureza?
R. Eu era uma pobre criatura pecadora e filho da ira, como os outros.
P. 3. E o que você merecia?
R. A morte e a condenação eterna.
P. 4. O que Deus fez por você?
R. Ele me resgatou dos meus pecados e me adotou como seu filho.
P. 5. Como ele o resgatou?
R. Pela morte e paixão do seu próprio Filho, nosso Senhor Jesus Cristo.
P. 6. E por qual meio ele o adotou?
R. Pelo seu Espírito, que me faz clamar com confiança: “Abba, Pai”.
P. 7. O que é essa adoção?
R. É a regeneração e a santidade de vida.
Seção 3
P. 1. O que poderia ter movido Deus a te livrar da tua miséria e te colocar na liberdade dos seus filhos?
R. Nada além de sua grande misericórdia e seu amor incomparável.
P. 2. O que ele te promete por amor do seu Filho, na comunhão do seu Espírito?
R. Ele me promete aqui nesta vida a sua graça e proteção, e no céu a glória do seu paraíso e a felicidade eterna.
P. 3. E o que você deve a Deus por tantos benefícios e tanta glória?
R. Devo entregar-me a ele com todas as forças do meu corpo e da minha alma.
P. 4. Mas o que ele exige de você principalmente?
R. Amor e obediência.
P. 5. Como você deve amar a Deus?
R. Acima de todas as coisas.
P. 6. E como você deve amar o seu próximo?
R. Como a mim mesmo.
P. 7. Que obediência Deus exige de você?
R. Uma obediência filial.
Seção 4
P. 1. Em que Deus quer que nos exercitemos principalmente durante nossa vida?
R. Nas boas obras.
P. 2. Quais são as boas obras?
R. Aqueles que Deus ordena.
P. 3. E quais são as más obras?
R. Aqueles que Deus proíbe.
P. 4. É necessário fazer boas obras?
R. Sim, porque Deus exige isso de nós, e é o caminho para o céu.
P. 5. As boas obras que fazemos nesta vida são perfeitas e sem defeito?
R. Não, porque se dissermos que não pecamos, mentimos; por isso oramos a Deus todos os dias para que nos perdoe nossos pecados.
P. 6. De onde vem o que há de bom em nossas obras?
R. Da graça de Deus.
P. 7. E de onde vem o que há de mau?
R. Dos restos da nossa corrupção.
Seção 5
P. 1. Nossas boas obras são agradáveis a Deus?
R. Sim.
P. 2. Como pode ser isso, se são imperfeitas?
R. Porque Deus, em sua misericórdia, suporta as fraquezas dos seus filhos.
P. 3. Para que servem as boas obras?
R. Para glorificar a Deus, edificar o próximo e mostrar que somos filhos de Deus.
P. 4. As boas obras merecem algo de Deus?
R. De modo algum; pois mesmo que fizéssemos tudo o que Deus ordena, seria apenas nossa obrigação.
P. 5. Como, então, você espera a vida eterna?
R. Como herança do meu Pai celestial, que me foi adquirida por Jesus Cristo.
P. 6. Mas não está escrito que nada impuro entrará no reino dos céus?
R. É verdade.
P. 7. Por qual meio serás limpo dos teus pecados?
R. Pelo sangue de nosso Senhor Jesus Cristo.
Seção 6
P. 1. Como você aplica a si mesmo o mérito do precioso sangue de nosso Senhor Jesus Cristo?
R. Pela arrependimento e pela fé.
P. 2. Quantos tipos de morte existem?
R. Dois: a morte temporal e a morte eterna.
P. 3. O que é a morte temporal?
R. A separação da alma do corpo.
P. 4. O que acontece às almas dos ímpios no momento dessa separação?
R. São lançadas no inferno.
P. 5. E às almas dos filhos de Deus?
R. Elas vão para o paraíso.
P. 6. O que acontece com os corpos?
R. Morrem, para ressuscitar no último dia.
P. 7. O que é, então, a morte dos fiéis?
R. É a passagem para a vida bem-aventurada.
Seção 7
P. 1. A quem você dirige suas orações?
R. Eu as dirijo a Deus.
P. 2. Em nome de quem você ora?
R. Em nome de Jesus Cristo.
P. 3. Então você não invoca anjos nem santos?
R. Não.
P. 4. Por quê?
R. Porque Deus não ordenou isso e não há exemplo disso em toda a sua Palavra.
P. 5. Deve-se usar imagens no culto a Deus?
R. Não.
P. 6. Por quê?
R. Porque Deus proibiu isso no segundo mandamento: “Não farás para ti imagem alguma”.
P. 7. Como devemos, então, adorar a Deus?
R. Em espírito e em verdade.
Seção 8
P. 1. Qual é a regra do culto a Deus?
R. A santa e divina Palavra.
P. 2. Onde encontramos essa Palavra de Deus?
R. Nas Sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento.
P. 3. É permitido às crianças lerem essa Escritura?
R. Sim, seguindo o exemplo de Timóteo, que aprendeu as sagradas letras ainda na infância.
P. 4. O que nos ensina essa Palavra de Deus?
R. Ela nos torna sábios para a salvação, pela fé em Jesus Cristo.
P. 5. Deus acrescentou algo à sua Palavra para confirmar nossa fé?
R. Acrescentou os sacramentos.
P. 6. O que é um sacramento?
R. É um sinal visível que atesta uma graça invisível.
P. 7. Quantos sacramentos há na Igreja cristã?
R. Dois: o batismo, que é o sacramento da nossa regeneração; e a Santa Ceia, que é o sacramento do nosso alimento espiritual.
Seção 9
P. 1. Em nome de quem você foi batizado?
R. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
P. 2. Por que se batizam os pequenos?
R. Porque o reino dos céus pertence a eles, e no Antigo Testamento os pequeninos eram circuncidados.
P. 3. O que representa a água do batismo?
R. Ela representa o sangue de Jesus Cristo que nos resgata e o Espírito Santo que nos santifica.
P. 4. O pão e o vinho da Santa Ceia são transubstanciados no corpo e no sangue de nosso Senhor Jesus Cristo?
R. Não, porque a Escritura não o diz, e o sentido e a razão o rejeitam.
P. 5. O corpo e o sangue de Jesus Cristo estão com o pão e o cálice?
R. Não, porque nosso Senhor Jesus Cristo não nos ensinou isso, e isso não se harmoniza com sua verdadeira natureza humana.
P. 6. Então, por que o pão é chamado corpo de Jesus Cristo partido por nós, e o vinho é dito ser seu sangue derramado para remissão dos pecados?
R. Porque é o seu memorial.
P. 7. Onde está nosso Senhor Jesus Cristo?
R. Como Deus, ele está em todo lugar; mas como homem, está lá no céu, à direita de Deus.
Seção 10
P. 1. Não temos nenhuma comunhão com Jesus Cristo mesmo?
R. Temos, mas é uma comunhão espiritual.
P. 2. E como ele se comunica conosco?
R. Pelo seu Espírito.
P. 3. Como somos unidos a Jesus?
R. Pela fé.
P. 4. Deve-se oferecer Jesus em sacrifício propiciatório?
R. Não.
P. 5. Por quê?
R. Porque ele se sacrificou a si mesmo; não ordenou que fosse sacrificado, e ninguém pode sacrificá-lo.
P. 6. Por que, com o pão partido na Santa Ceia, também se distribui o vinho?
R. Para nos representar o precioso sangue de Jesus Cristo, derramado por nós na cruz, e para assegurar que nele encontramos alimento completo.
P. 7. O povo fiel deve participar do vinho tanto quanto o pastor?
R. Sim; porque Jesus Cristo não faz distinção. Todos nós fomos resgatados com um mesmo sangue; e ordena que todos nós bebamos do seu cálice e proclamemos a sua morte até que ele venha.
Seção 11
P. 1. O que se deve fazer antes de aproximar-se da mesa do Senhor?
R. Deve-se examinar a si mesmo.
P. 2. O que acontece com aqueles que não se examinam?
R. Eles comungam para sua própria condenação.
P. 3. Que frutos recebem aqueles que se examinaram?
R. Assim como o pão e o vinho nutrem o corpo nesta vida temporal, o corpo e o sangue de Jesus Cristo alimentam a alma na esperança da vida eterna.
P. 4. Em que consiste o exame de quem deseja comungar dignamente?
R. Deve examinar-se para saber se possui fé, arrependimento e amor.
P. 5. O que é a fé?
R. É uma santa confiança de que Deus nos ama, que por amor de Jesus Cristo nos terá misericórdia, e que nos salvará em seu reino celestial.
P. 6. Como se reconhece a verdadeira fé em relação à presunção e à segurança carnal?
R. Reconhece-se pelos seus frutos, pois produz boas obras e dá fruto em amor.
P. 7. De onde podemos obter essa verdadeira fé?
R. Devemos pedir a Deus, que a dá gratuitamente e generosamente.
Seção 12
P. 1. O que é arrependimento?
R. É lamentar pelos pecados passados e viver melhor no futuro.
P. 2. Como sabemos que estamos verdadeiramente arrependidos?
R. Se odiamos o mal e nos deleitamos no bem.
P. 3. Quem é o autor do verdadeiro arrependimento?
R. É o próprio Deus, que nos converte e gera em nossos corações o ódio ao vício e o amor à virtude.
P. 4. Quais são as principais virtudes dos cristãos?
R. A fé, a esperança e o amor.
P. 5. E qual é a maior dessas virtudes?
R. É o amor.
P. 6. Por quê?
R. Porque ele dura para sempre.
P. 7. Meu filho, você deseja viver e morrer em verdadeira piedade?
R. Eu o desejo de todo o meu coração.
Orações finais
O pai: Que o Senhor te confirme em seu amor e em sua graça; que ele te encha com os dons do seu Espírito e te forme segundo a sua imagem; que ele te faça crescer em todas as virtudes e te conceda perseverar para sempre em sua santa Aliança. Amém.
Ao filho: Ore sinceramente a Deus, pedindo que ele te conceda essa graça.
A criança: Meu Deus e Pai do céu, já que te agrada ser louvado pela boca das crianças, tem paciência com as minhas limitações e mostra o teu poder na minha fraqueza. Tu me deste a graça de nascer na tua Igreja e de aprender a piedade desde os primeiros dias. Faz com que eu cresça no conhecimento de ti, e, acima de tudo, no teu temor e no teu amor. Ajuda-me a dar frutos que estejam à altura da nova vida e da instrução que recebi de ti, para que o teu nome seja glorificado e a tua Igreja edificada. Que eu também seja motivo de alegria e consolo para aqueles que tu usaste para me trazer ao mundo e para me ensinar a tua Palavra. Que eu te sirva e te adore junto com o teu povo por toda a minha vida, até o dia em que eu te glorifique no céu com os santos e os anjos que veem a tua face. Ouve a minha oração, Senhor, pois tu és meu Deus e meu Rei, e eu te invoco em nome de Jesus Cristo, meu Salvador, por causa dos méritos infinitos dele, que me ensinou a orar dizendo:
Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu reino. Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu. Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia. Perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofendem. E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
Senhor, meu Deus, foste tu quem plantou no meu coração as sementes da verdadeira fé. Faz com que elas cresçam e se fortaleçam. Concede-me a graça de confessar essa fé todos os dias com sinceridade, dizendo, junto com toda a tua Igreja:
Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor.
Que foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria,
padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
desceu ao Hades; ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos;
subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo, na santa Igreja católica,
na comunhão dos santos, no perdão dos pecados,
na ressurreição do corpo e na vida eterna. Amém.
Meu Deus, dá-me o teu bom Espírito e concede-me a graça de guardar os teus santos e divinos mandamentos, que são estes:
Ouve, ó Israel! Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão.
I. Não terás outros deuses além de mim.
II. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te curvarás diante delas, nem as servirás, porque eu sou o Senhor, teu Deus, Deus zeloso, que visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem, mas uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.
III. Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão. O Senhor não terá por inocente quem tomar o seu nome em vão.
IV. Lembra-te do dia de descanso, para o santificar. Trabalharás seis dias e farás toda a tua obra, mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus. Nesse dia, não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem o estrangeiro que estiver dentro das tuas portas. Porque em seis dias o Senhor fez o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de descanso e o santificou.
V. Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá.
VI. Não matarás.
VII. Não praticarás sexualidade impura.
VIII. Não furtarás.
IX. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
X. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo.
Nota de rodapé:
- Tradução e nota introdutória de Frankle Brunno. ↩︎
Centro Cultural João Calvino