O nome próprio de Deus, que lhe é exclusivo (Sl 83.18 [v. 19 no texto hebraico]), seu nome ordinário e eterno, é יהוה (Yehová; Êx 3.15; Sl 135.13). Trata-se de um nome não apenas mais antigo do que Ehyeh (“Eu sou”), que o precede no texto, mas também, por sua formação enquanto substantivo distinto do verbo, mais adequado como expressão permanente da identidade divina. Esse nome deriva-se possivelmente do verbo היה (hayá), com a substituição da letra yod (י) pela vav (ו), conforme sugere Ibn Ezra em seu comentário a Êxodo 15.2;2 ou, alternativamente, do verbo הוה (havá), com sentido semelhante. Esse é o nome que Deus confiou a Israel, não para ser ocultado, mas para ser lembrado e invocado de maneira santa — razão pela qual ele o chama de “memorial” (Êx 3.15; Os 12.5), o utiliza para abençoar o povo por meio da fórmula tripla (Nm 6.24–26) e ordena que o povo jure por ele de modo reverente (Dt 6.13; 10.20; Js 9.19).
Quanto à pronúncia correta deste nome, visto que os eruditos divergem, ainda há controvérsia a esse respeito. Alguns afirmam que Jeová é a pronúncia genuína; outros, porém, negam isso, sustentando que foram inseridas vogais que não pertencem ao nome. Ambas as posições são defendidas com seus respectivos argumentos. Não temos receio em considerar que, assim como a segunda opinião merece tolerância, a primeira, contudo, deve ser preferida.
- A primeira razão é que as vogais do nome Jeová (יְהוָה), escritas juntamente com as consoantes, são capazes de se harmonizar com elas, assim como ocorre com as vogais do nome Jehudá (יְהוּדָה). Não há, portanto, motivo necessário ou subjacente para que se conclua que essas vogais não pertençam ao nome. Esse fato torna-se evidente ao se examinar a opinião contrária.3
- A outra razão é que a primeira metade do nome Jeová, isto é, יהו, aparece com exatamente os mesmos sinais vocálicos nas palavras formadas a partir dele, e é lida, sem controvérsia, por todos da mesma maneira. Por essa razão, esse tipo de nomes é chamado por Drusius — o mais renomado estudioso — de ἰαωφόρα e τετραγραμματοφόρα (portadores de Yah e do Tetragrama). São desse tipo nomes como Jehonatã (יְהוֹנָתָן) e, por contração, Jonathan (יוֹנָתָן), que significa “dado por Deus” (equivalente a θεόδωρος), entre muitos outros nomes semelhantes.
- A terceira razão provém do testemunho dos tradutores da Septuaginta, que a partir das palavras de Jeremias 23:6, “Jeová, nossa justiça” (יהוה צדקנו), construíram o nome Ἰωσεδὲκ (Iosedec), a partir de Jeová e tsedek (justiça), utilizando ιω para Jeho por contração, conforme o uso das Escrituras e o espírito da língua grega.
- A quarta razão vem do antigo costume dos judeus, que evitavam pronunciar o nome completo Jeová, guiados por alguma antiga prática religiosa. Contudo, eles pronunciavam as partes do nome que estavam presentes nas palavras formadas a partir dele, e essas partes eram livremente usadas em substituição ao nome inteiro Jeová. Trata-se, por exemplo, de Iaho e, em grego, ἰαὼ (Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica, livro 1; Teodoro, questão 15 em Êxodo; e os Terapeutas, livro 2). O sheva era modificado, não para um “e”, como é frequentemente feito, mas para um som mais suave “à”. Assim como a Septuaginta propôs Nabo (נבו, Nm 32.38), saba (שבא) e dadan (דדן), respectivamente σαβὰ e δαδάν (Gn 10.7), e Samuel (שמואל) traduzido como σαμουῆλ (1 Sm 1.20).
- Finalmente, o quinto argumento em favor da primeira opinião surge como resposta à objeção apresentada na primeira razão. Pois, se Jeová (יְהוָה) tivesse os sinais vocálicos do nome Adonai (אֲדֹנָי), então, analogamente, o primeiro sinal vocálico não seria um sheva simples [e], mas um sheva com pataḥ [ă]; assim como, de fato, os primeiros sinais vocálicos do nome Elohim (אלהים) são, com razão, um sheva com segol [ŏ].
Referências:
- Gregório Nazianzeno, Segunda Oração Teológica, também conhecida como Oração 36, “Sobre o Filho”. ↩︎
- Ibn Ezra, comentário sobre Êxodo 15:2, disponível em: https://www.sefaria.org/Ibn_Ezra_on_Exodus.15.2.1?lang=bi ↩︎
- A Fórmula Consensus Helvetica (1675) afirma no cânon I que, por causa da “graça e bondade singular de Deus”, a Igreja “tem, e terá até o fim do mundo (2 Pe 1.19), a ‘palavra segura da profecia’ e as ‘Sagradas Escrituras’ (2 Tm 3.15), das quais, ainda que o céu e a terra passem, ‘nem uma letra, nem um risco de tinta desaparecerá de forma alguma’ (Mt 5.18)”. Em seguida, a Fórmula aplica isso especificamente ao texto hebraico existente (i.e., o Texto Massorético) no cânon II: “Mas, em particular, o original hebraico do Antigo Testamento, que recebemos e até hoje conservamos como legado da Igreja Hebraica, ‘a quem foram confiados os oráculos de Deus’ (Rm 3.2), é inspirado por Deus não apenas em suas consoantes, mas também em suas vogais — seja nos pontos vocálicos propriamente ditos, ou ao menos no seu efeito, não apenas em seu conteúdo, mas em suas palavras. Ele constitui, juntamente com o original do Novo Testamento, a única e completa regra da nossa fé e prática; e a seu padrão, como a pedra de toque lídia, todas as versões existentes, orientais ou ocidentais, devem ser submetidas e, quando divergirem, ajustadas”. ↩︎
Centro Cultural João Calvino