sábado , 7 março 2026

Não, Zwinglio não era memorialista

O zwinglianismo é a concepção segundo a qual os elementos da Ceia são apenas um memorial, e Cristo não está presente de modo algum — visão esta que alguns descreveram como a da “ausência real”, ou simplesmente visão memorialista. A Eucaristia foi um dos temas mais controversos durante a Reforma, provocando demarcações profundas entre os reformados — especialmente os suíços — e os luteranos. Lutero mal conseguia admitir que Zuínglio fosse um irmão no Senhor, justamente porque o teólogo de Zurique se recusava a crer na presença substancial de Cristo, tal como expressa na doutrina da consubstanciação.

É frequentemente observado que Calvino buscou um caminho intermediário entre as formulações luterana e zwingliana, ao oferecer uma doutrina de “presença espiritual”, na qual o Espírito Santo eleva o crente, pela fé, a uma verdadeira comunhão com Cristo mediante os elementos. A visão denominada memorialista continuou a exercer influência em certos setores da teologia reformada posterior — e ainda mais intensamente no evangelicalismo, em sentido mais amplo. Mas Zuínglio era, de fato, zwingliano?

W. P. Stephens, em sua obra Zwingle: An Introduction to His Thought (Oxford, 2001), oferece uma leitura contextualizada de Zuínglio. A intensidade do debate entre Zuínglio e Lutero concentrava-se nas palavras de Cristo ao referir-se ao pão: “Isto é o meu corpo”. Para Zuínglio, o verbo “é” deveria ser compreendido como “significa”. Para Lutero, isso equivalia a um anátema.

No Colóquio de Marburgo (1529), os dois reformadores não conseguiram chegar a um acordo sobre esse ponto, embora alguns avanços tenham sido feitos nesse sentido. No entanto, isso não significa que Zuínglio negasse toda e qualquer presença de Cristo na Ceia do Senhor. Após o colóquio, Zuínglio passou a expressar sua fé na “presença real” de Cristo. Stephens, ao comentar obras de Zuínglio como Uma Exposição da Fé (1530) e Carta aos Príncipes Alemães (1530), afirma:

“Zuínglio disse claramente que o pão não era apenas pão, e começou a afirmar termos como presença, realidade e sacramentalidade”. (p. 105).

No apêndice à sua Exposição da Fé (1531), Zuínglio declara:

“Cremos que Cristo está verdadeiramente presente na Ceia; na verdade, não cremos que seja a Ceia do Senhor, a menos que Cristo esteja presente.” (p. 105)

Essa mudança de ênfase veio acompanhada de uma valorização maior do pão e do vinho, os quais passaram a ser considerados “divinos e sagrados” (p. 107).

Stephens realiza um excelente trabalho ao reconstituir a teologia eucarística integral de Zuínglio. Depois de demonstrar que Zuínglio não era, de fato, um “zwingliano” no sentido moderno do termo, ele observa também que houve uma consistência teológica na trajetória de Zuínglio, do início ao fim de sua vida. Ainda que suas posições iniciais estivessem em fase de formação, suas formulações posteriores não as contradiziam.

Já em 1523, Zuínglio falava da alma que se alimenta durante a Ceia. De fato, após 1524, passou a enfatizar uma compreensão “simbólica” dos elementos, mas manteve esse ponto de vista inclusive ao tratar da nutrição espiritual com Cristo. Stephens resume a linha geral do pensamento de Zuínglio nestes termos:

“As notas mais positivas no Zuínglio maduro não indicam uma verdadeira mudança de posição, mas sim uma diferença de ênfase.” (p. 109)

A preocupação fundamental de Zuínglio, como a dos demais reformadores de sua época, era com o lugar da fé na recepção da Ceia — negando que a graça fosse conferida ao incrédulo que dela participasse. Nesse aspecto, ele apelava ao Lutero jovem, que igualmente enfatizava a necessidade da fé.

Embora questões de cristologia e de filosofia tenham influenciado suas diferenças, Zuínglio não estava tão distante de Lutero quanto o reformador alemão imaginava. Ainda que não compartilhasse de um pleno acordo, Zuínglio estava muito mais próximo de Calvino, a quem, aliás, Lutero não se opôs de forma tão veemente.

Portanto, em certo sentido, Zuínglio se opunha aos próprios zwinglianos.

Sobre Ian Hugh Clary

Ian Hugh Clary está concluindo seus estudos doutorais sob a orientação de Adriaan Neele, na Universiteit van die Vrystaat (Bloemfontein), onde prepara uma dissertação sobre a historiografia evangélica de Arnold Dallimore. Coautor, com Michael Haykin, de duas histórias de igrejas locais, contribuiu ainda com numerosos artigos publicados em revistas acadêmicas especializadas. Ian serve como pastor da BridgeWay Covenant Church, em Toronto, onde reside com sua esposa e seus dois filhos.

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