sábado , 7 março 2026

O Evangelho foi pregado para Israel no deserto

É entendido e aceito que o evangelho foi proclamado ao povo no deserto. O apóstolo não está afirmando isso diretamente; não é sua intenção provar isso; esse não era o assunto principal ou o tema que ele tinha em mente; nem a confirmação disso seria útil para o seu objetivo atual. O apóstolo está analisando nosso privilégio e dever, e não os deles. No entanto, o foco de que o evangelho lhes foi pregado é uma suposição crucial para o seu propósito. Como isso aconteceu é o que precisamos investigar; e sobre isso, observamos o seguinte:

  1. Que a promessa feita à Abraão já trazia em si a essência do evangelho. Ela continha a aliança de Deus em Cristo, e a confirmava (Gl 3:16-17). Ele afirma que a promessa feita para Abraão e sua descendência se referia principalmente à Cristo, a semente prometida, e que a aliança foi selada por Deus em Cristo. Por isso essa promessa veio acompanhada de bênção e justificação através do perdão dos pecados (Rm 4; Gl 3:14-15). Assim, ela já continha o que é fundamental no evangelho, como foi provado em outros textos.
  2. Essa aliança, ou promessa feita à Abraão, foi confirmada e estabelecida para sua descendência, seus herdeiros, como as Escrituras afirmam em diversas passagens. Foi assim que a essência do evangelho foi comunicada a eles; nela eles foram “evangelizados”.
  3. Todas as instituições simbólicas da lei que foram introduzidas depois, não tinham outro propósito além de ensinar o povo a natureza, o significado e a forma de como a promessa se cumpriria. Para esse propósito, elas serviram até o tempo da reforma. É verdade que, por causa da incredulidade de alguns, elas foram usadas de forma contrária ao seu fim; pois as pessoas, ao se apegarem a elas como se fossem em si mesmas os meios de justificação, vida e salvação, acabaram desviando suas mentes da promessa e do evangelho nela contido (Rm 9.31-32; Rm 13.3). Mas isso foi apenas um uso indevido acidental delas; de forma direta elas não tiveram outro propósito além do que por elas foi expresso. Nem mesmo a lei, em sua administração mosaica, teve outro propósito a não ser instruir o povo sobre a natureza, o significado e a forma de cumprimento da promessa, e conduzindo-os a desfrutá-la (Rm 10.4), e estimulando-os a se voltar para ela em busca de vida e descanso (Gl 3.18-20).
  4. Junto da parte espiritual da promessa feita à Abraão, havia uma promessa misturada ou anexada a ela: a promessa de herdar a terra de Canaã (Gn 12.3; Gn 12.7), e isso para:
    1. Instruir a ele e sua descendência sobre a natureza da fé e a viver na expectativa daquilo que ainda não possuíam (Hb 11.8-9).
    1. Para que servisse como uma garantia visível do amor, poder e fidelidade de Deus em cumprir e realizar a parte espiritual e invisível da promessa, ou seja, do evangelho. Isso aconteceu ao enviar a bênção e a semente abençoada para salvar e libertar do pecado e da morte, e para conceder descanso às almas dos que creem (Lc 1.72-75).
    1. Para que fosse um lugar de descanso para a igreja, onde ela pudesse se dedicar solenemente em observar todas as instituições de adoração que lhe foram concedidas ou impostas, para direcioná-la às promessas. Sendo assim,
  5. A declaração da promessa de entrar em Canaã, e no descanso de Deus naquela terra, tornou-se uma maneira especial de pregar o evangelho para eles, ou seja:
    1. Foi designada para ser a grande garantia visível do cumprimento de toda a promessa ou aliança feita com Abraão. A própria terra e a posse dela tinham um valor sacramental, pois
    1. A terra em si também representava aquele bendito descanso espiritual que, com a concretização da promessa, seria alcançado.
    1. Porque a terra de Canaã, e descanso de Deus ali, não eram tanto sobre o lugar, país ou solo em si, mas sim sobre a adoração a Deus por meio das suas leis e ordenanças que deveriam ser solenemente observadas. E é por meio dessas ordenanças, ou pela fé no uso delas, que o povo era levado a participar dos benefícios da promessa do evangelho.

Pelo que foi dito, fica claro como o evangelho foi anunciado aos pais no deserto, ou como eles foram evangelizados. O apóstolo não se refere a um evangelho típico, como alguns dizem, nem uma mera instituição de símbolos; mas sim ao evangelho de Jesus Cristo, conforme ele foi, em sua essência, proposto a eles na promessa; a entrada na terra de Canaã foi o exemplo específico onde a fé deles seria testada.

O evangelho não é uma nova doutrina, nem uma nova lei; ele é o mesmo que foi pregado desde os tempos antigos.

O grande preconceito contra o evangelho em sua primeira pregação era que, geralmente, ele era tido como καινὴ διδαχή, uma “nova doutrina” (At 17.19) — um assunto nunca antes conhecido no mundo. E, da mesma forma, a pregação de Cristo foi acusada (Mc 1.27). Mas podemos dizer do evangelho o que João diz do mandamento do amor. É um “novo mandamento”, e é “um mandamento antigo que existia desde o princípio” (1Jo 2.7-8). Na pregação do evangelho pelo próprio Senhor Jesus e por seus apóstolos, ele era novo no que diz respeito à maneira de sua administração, com diversas circunstâncias de luz, evidência e poder que o acompanhavam. Assim também é em todas as épocas, no que diz respeito a qualquer nova descoberta da verdade a partir da Palavra, anteriormente oculta ou obscurecida.

Mas quanto à sua essência, o evangelho é “aquilo que era desde o princípio” (1Jo 1.1). Ele é a primeira grande e original transação de Deus com os pecadores, desde de a fundação do mundo. Por isso, o Senhor Cristo é chamado de “o cordeiro morto” — ἀπὸ καταβολῆς κόσμου (Ap 13.8) — “desde antes da fundação do mundo”. As palavras não se referem ao conselho e propósito de Deus a respeito dele, pois isso é dito como πρὸ καταβολῆς κόσμου (Ef 1.4) — “antes da fundação do mundo”; ou seja, desde a eternidade. E, em 1 Pedro 1.20, é dito expressamente que ele foi “preordenado” — πρὸ καταβολῆς κόσμου — “antes da fundação do mundo”; isto é, eternamente no conselho de Deus. Mas este ἀπὸ καταβολῆς κόσμου é o mesmo que “imediatamente depois” ou “desde a fundação do mundo”. Ora, como o Senhor Cristo foi um cordeiro morto imediatamente após a fundação do mundo? Porque esta αταβολὴ κόσμου, a “fundação do mundo”, contém não apenas o começo, mas também a conclusão e o acabamento de toda a estrutura. Assim é expressa toda a criação em Salmos 102.25-26, Hebreus 1.10 e Gênesis 2.2-3. Agora, no dia da conclusão do mundo, ou da finalização de sua estrutura, com a entrada do pecado, a promessa de Cristo foi dada, a saber, “que a descendência da mulher esmagaria a cabeça da serpente” (Gn 3.15). Nesta promessa, o Senhor Cristo foi um “cordeiro morto”, embora não de fato, mas quanto à virtude de sua encarnação pela qual ele se tornou um cordeiro, o “Cordeiro de Deus”, e de sua morte, na qual foi morto para tirar os pecados do mundo. A declaração do Senhor Cristo como o Cordeiro de Deus morto para tirar os pecados do mundo é a soma e a essência do evangelho.

Sendo, então, anunciado e estabelecido desde a fundação do mundo — ἀπὸ καταβολῆς κόσμου — esse foi o surgimento do evangelho, que desde então tem sido o fundamento, a regra e a medida de todas as ações de Deus para com os filhos dos homens. Quaisquer que tenham sido as novas declarações feitas a seu respeito, ou os diversos meios utilizados para instruir os homens nele, o evangelho, contudo, permaneceu o mesmo ao longo de todos os tempos e eras.

Os gentios, portanto, não tinham base legítima para objetar contra a doutrina do evangelho alegando que ela era nova, pois, embora, por causa do pecado e da incredulidade deles mesmos e de seus antepassados (que haviam perdido, desprezado e totalmente rejeitado sua primeira revelação), o evangelho lhes fosse algo novo; e embora Deus, em seus justos e santos juízos, o tivesse ocultado deles, tornando-o por fim um mistério calado por tempos eternos — μυστήριον χρόνοις αἰωνίοις σεσιγημένον (Rm 16.25) — uma realidade cuja proclamação foi silenciada durante as eras passadas do mundo, ou de todos os séculos que transcorreram desde o princípio, nele mesmo, o evangelho não era novo, mas o mesmo que fora revelado desde a fundação do mundo pelo próprio Deus.

E isso contribui para a glória do evangelho, pois há um princípio certo: “Quod antiquissimum, id verissimum”, “O que é mais antigo, é mais verdadeiro”. A falsidade procura, por todos os meios, se sustentar na antiguidade, e com isso acaba prestando testemunho a essa regra: que a verdade é o que há de mais antigo. Isso também revela a perversidade daquela imaginação que afirma haver diversos caminhos, em diferentes, épocas, pelos quais os homens chegaram ao conhecimento e à comunhão com Deus. Alguns, dizem, o fizeram por meio da lei, outros pela luz da natureza, ou pela luz interior, ou ainda pela filosofia, que seria o desenvolvimento dessa luz.

Mas, tendo Deus, desde o princípio da fundação do mundo, declarado o evangelho da forma anteriormente demonstrada, como o meio pelo qual os pecadores poderiam conhecê-lo, viver para Ele e participar d’Ele, deveríamos pensar que, ao ver esse seu caminho ser desprezado e rejeitado pelos homens, Ele mesmo o teria igualmente rejeitado, seguindo-os então em seus próprios caminhos e em suas ilusões as quais escolheram em oposição à sua verdade e santidade? É insensato e blasfemo sequer imaginar tal coisa.

Os judeus, com os quais nosso apóstolo lidava de modo particular, baseavam seus privilégios no fato de terem recebido a lei, e concluíam que, por a lei lhes ter sido dada por Deus, era conforme a lei que deveriam adorá-lo e, pela lei, que seriam salvos. Como, então, o apóstolo os convence de seu erro e engano nessa questão? Ele o faz mostrando a eles que a aliança, ou seja, a promessa do evangelho, lhes havia sido dada muito antes da lei. Assim, qualquer que fosse o propósito e o uso da lei (os quais ele declara aqui), ela não anulava, nem podia anular, a promessa, isto é, não podia remover sua eficácia nem estabelecer um novo caminho de justificação e salvação.

“E digo isto: uma aliança já anteriormente confirmada por Deus não pode ser revogada pela lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, a ponto de anular a promessa” (Gl 3.17). É como se ele dissesse: “Deus fez uma promessa a Abraão, ou firmou com ele uma aliança, por meio da qual ele foi evangelizado, e o caminho da vida e da salvação em Cristo lhe foi revelado. Ora, se o fim da lei fosse justificar pecadores e conceder-lhes vida e salvação, então o caminho estabelecido pela promessa e pela promessa e pela aliança feita por Deus quatrocentos e trinta anos antes teria de ser anulado. Mas a fidelidade e a imutabilidade de Deus não permitem tal coisa”.

O apóstolo se baseia apenas na precedência da promessa em relação à lei mosaica, e não em sua prioridade absoluta, isto é, ele não menciona o fato de o evangelho ter sido anunciado desde a fundação do mundo, pois, tratando-se de uma argumentação dirigida aos judeus, bastava demonstrar que mesmo no contexto da relação especial de Deus com Israel, o evangelho precedeu à lei.

Aquilo que João Batista disse acerca de Cristo e de si mesmo: “Ele vem depois de mim, mas é mais importante do que eu, pois já existia antes de mim. (Jo 1.15)”, embora Cristo tenha vindo depois de João em termos de ministério, era, no entanto, superior a ele em dignidade, por ter uma pré-existência em sua natureza divina, pode-se dizer algo semelhante, em outro sentido, sobre a lei e o evangelho, tal como este foi pregado por Cristo e por seus apóstolos. Embora o evangelho tenha sido proclamado após a lei mosaica, ele é, ainda assim, superior e anterior, pois foi revelado, em sua substância e eficácia, muito antes da promulgação da lei. Por isso, em todas as coisas, deve ser preferido à lei.

Fica evidente, portanto, que do princípio ao fim, o evangelho é, e sempre foi, o único caminho de acesso a Deus; e considerar qualquer outro meio ou via com esse propósito é não apenas altamente fútil, mas também profundamente ofensivo à glória da sabedoria, fidelidade e santidade de Deus.

Sobre John Owen

John Owen (1616–1683) foi um dos mais eminentes teólogos puritanos da tradição reformada inglesa. Pastor congregacional, acadêmico e estadista, Owen formou-se em Oxford, onde mais tarde se tornou vice-chanceler sob Oliver Cromwell. Defensor fervoroso da ortodoxia calvinista, escreveu extensamente sobre temas como a obra do Espírito Santo, a mortificação do pecado, a perseverança dos santos e a glória de Cristo. Suas obras combinam profundidade doutrinária, piedade prática e erudição bíblica, sendo amplamente reconhecido como um dos maiores teólogos protestantes da história.

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