Em primeiro lugar, o Credo Niceno orienta o nosso coração para a devida ordenação da teologia. John Webster está certo ao afirmar que “teologia é o estudo de Deus e de todas as coisas em relação a Deus”. Esta é a ordem material irreversível da teologia. Em outras palavras, ao estudarmos teologia no seminário, a primeira coisa à qual devemos dedicar atenção é o que cremos a respeito de Deus, de sua natureza e de sua existência. Somente quando temos uma compreensão firme de quem Deus é, em sua perfeição trinitária, é que todas as demais coisas em relação a ele podem ser corretamente enfocadas. Tudo o que viermos a aprender sobre criação, salvação, história ou escatologia estará de alguma forma distorcido se não compreendermos verdadeiramente quem Deus é. O seminário não é o momento para criar uma doutrina de Deus própria, nem é função do seminário elaborar uma. Tanto o seminário quanto o estudante devem estar comprometidos com o ensino e o aprendizado da Teologia Própria conforme a Palavra de Deus. O Credo Niceno, embora não seja uma dissertação abrangente sobre Teologia Própria, condensa a verdadeira Teologia Própria em forma credal como um teste de fidelidade à Palavra de Deus. Se a fidelidade à Palavra de Deus é importante para os membros da igreja, ela o é em dobro para aqueles que estão no seminário e aspiram a ensinar na igreja.
Além disso, o próprio Credo segue esse paradigma de “Deus e todas as coisas em relação a ele”. O Credo começa com a nossa confissão de um só Deus. Em seguida, ao expor a natureza da Trindade, apresenta afirmações sobre cada pessoa da Divindade. Sobre o Pai, confessamos que ele é “Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Sobre o Filho, confessamos que ele é “o único Filho de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado; consubstancial ao Pai”. Sobre o Espírito Santo, confessamos que ele é “o Senhor, o doador da vida. Ele procede do Pai e do Filho, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”. Somente depois dessas crenças mais fundamentais serem confessadas, é que se confessam as obras de Deus. Por exemplo, quando confessamos que o Filho, “por nós e pela nossa salvação”, se encarnou como homem, foi crucificado, morreu, foi sepultado, ressuscitou, ascendeu à destra do Pai e voltará, fazemos isso porque ele é “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”. Em resumo, o Credo Niceno ensina ao estudante de seminário que a ontologia precede a função.
Em segundo lugar, e em conexão com o primeiro ponto, o Credo Niceno oferece ao estudante de seminário uma gramática teológica necessária. Um aspecto frequentemente negligenciado da formação teológica é o entendimento histórico de que há uma maneira correta de falar sobre Deus e o evangelho. Ao longo da história da igreja, especialmente ao tratar da Trindade e da cristologia, os teólogos desenvolveram uma gramática específica que ajuda a refrear o erro. A linguagem de Niceia não é uma descrição arbitrária das verdades teológicas, fundada nos caprichos ou preferências de teólogos do século IV. Pelo contrário, cada expressão foi intencional, buscando expor as verdades das Escrituras de maneira digna da glória do Deus Triúno e do mistério de suas obras. Isso é especialmente notável na linguagem usada para confessar o Senhor Jesus Cristo. Expressões como “Deus de Deus, Luz da Luz”, “gerado, não criado” e “consubstancial ao Pai” possuem tanto uma função positiva quanto negativa, essenciais para a formação adequada do estudante de seminário. Negativamente, essas expressões rebatem as heresias cristológicas, que tentaram minimizar ou negar a plena divindade ou a plena humanidade de Jesus Cristo. Positivamente, elas também instruem os cristãos sobre como podemos falar corretamente acerca de Cristo em conformidade com a sua Palavra. Se alguém sai do seminário apenas sabendo o que não deve dizer, terá uma teologia deficiente. O pastor ou teólogo que deseja pregar ou ensinar a Palavra de Deus precisa saber o que dizer e como dizê-lo. O Credo Niceno oferece os limites necessários para esse discurso teológico. Ele é o antídoto para uma era em que as palavras podem significar qualquer coisa e em que o apreço pela linguagem teológica precisa está em seu ponto mais baixo.
Em terceiro e último lugar, o Credo Niceno enraíza o estudante de seminário na história da igreja. Já frequentei um seminário presbiteriano e um batista e, embora cada um ensine a partir de suas distinções denominacionais, ambos compartilham uma firme adesão à ortodoxia confessional. Se há um dom inesperado pelo qual sou verdadeiramente grato em minha formação teológica, é o fato de hoje me sentir mais conectado aos santos do passado do que jamais me senti antes. É sintoma de nossa época a tendência de desconectar-se do passado, seja por considerá-lo irrelevante, seja por julgá-lo antiquado. Entre batistas, como também entre outras denominações protestantes, há uma inclinação, inclusive entre estudantes de seminário, a pensar em si mesmos primeiramente como “batistas” e apenas depois como cristãos. É como se aquilo que define a ortodoxia de alguém fosse algo distinto daquilo que, historicamente, sempre foi entendido como ortodoxia cristã. Isso resulta em uma espécie de orgulho sutil que afirma que o mais fundamental na minha identidade cristã é o que me distingue de outros cristãos. Eleva-se, assim, questões secundárias a uma posição de doutrina fundamental. O que hoje define alguém como ortodoxo, então, é a prática do batismo de crentes e o modelo congregacional com liderança de presbíteros. Tais práticas são, de fato, muito importantes, mas protestantes fiéis reconhecem há muito tempo que é possível haver divergências entre irmãos nesses pontos sem que se incorra em heresia. A adesão ao Credo corrige essa noção, sem diminuir a importância da prática sacramental ou da eclesiologia. Em vez disso, ela mantém o estudante de seminário firmemente plantado na família de Deus, a “única, santa, católica e apostólica Igreja”.
Centro Cultural João Calvino