Quem era Pelágio?
Natural da Britânia Romana, provavelmente um monge; certamente ele floresceu em Roma como um mestre cristão no período entre 383-409. Perturbado com os baixos padrões morais entre os cristãos romanos, ele os encorajou a viver de acordo com sua profissão de fé cristã, enfatizando o nobre poder da vontade humana de obedecer aos mandamentos divinos. Sua crença na liberdade natural e na autonomia da vontade era robusta, pois, de acordo com seu pensamento, sem a capacidade de obedecer, os mandamentos divinos não teriam sentido. Aqui está um exemplo da retórica de Pelágio:
“Longe de vermos os preceitos de nosso rei majestoso como um privilégio, nós protestamos contra Deus. Numa escarnecedora letargia do coração, como servos inúteis e presunçosos dizemos, ‘Esse mandamento é muito pesado, muito exigente. É impossível obedecê-lo. Somos apenas humanos. Somos prejudicados pela natureza fraca de nossa carne’. Que loucura sem sentido! Que blasfêmia arrogante! Atribuímos ao Deus onisciente uma dupla ignorância — ele é ignorante a respeito de sua própria criação, e ignorante a respeito de seus próprios mandamentos. Como se Deus tivesse esquecido a fragilidade humana feita por suas mãos e impusesse sobre nós preceitos que não pudéssemos seguir! Ao mesmo tempo (quão vergonhoso!), nós creditamos injustiça ao Supremo Justo, crueldade ao Santo: injustiça, ao dizer que ele exige o impossível; crueldade ao afirmar que seremos condenados pelo que não podemos praticar. O resultado (que blasfêmia!) é que Deus parece estar buscando nossa punição, não nossa salvação. Mas ninguém conhece o grau de nossa força melhor que o Deus que nos criou. A sua justiça o impede de ordenar alguma coisa impossível. Sua bondade o impede de condenar pessoas pelo que elas não podem fazer”. (Carta a Demetrias 16)
A posição de Pelágio conduzia inevitavelmente à crença de que era possível alcançar a perfeição sem pecado, contanto que a vontade humana se empenhasse intensamente em exercer sua liberdade. Alguém poderia até imaginar Pelágio dizendo nos seus piores momentos: “Deus amou o mundo de tal maneira que ele nos deu o livre arbítrio, para que todo aquele que se esforce o suficiente possa tornar-se virtuoso e chegar ao céu”.
A resposta de Agostinho: a graça é libertadora
Agostinho (354-430), bispo de Hipona Régia, no norte da África romana, um dos maiores teólogos e escritores devocionais da Igreja Ocidental, entrou em contato com Pelágio e seus ensinamentos após o saque de Roma pelos visigodos em 410. A fuga de refugiados trouxe Pelágio e seu principal discípulo Celestino até Cartago, capital do domínio romano na África do Norte. Ali, Celestino buscou a ordenação ministerial, mas a explicação de suas crenças pelagianas resultou em sua excomunhão. Com a teologia pelagiana agora presente na África, Agostinho começou a escrever tratados criticando a concepção pelagiana de livre-arbítrio e expondo a absoluta necessidade da graça de Deus por meio de Jesus Cristo para libertar nossa vontade da prisão do pecado e uní-la a Cristo através do dom da fé.
Entre os tratados mais influentes e duradouros escritos por Agostinho nesse contexto, destacam-se A Natureza e a Graça, A Graça de Cristo e o Pecado Original, O Espírito e a Letra, A Correção e a Graça, O Dom da Perseverança e A Predestinação dos Santos. Essas obras estão disponíveis em tradução inglesa, reunidas em um único volume (Os escritos anti-pelagianos de Agostinho), com uma notável introdução de B. B. Warfield. A vitória de Agostinho nessa controvérsia foi selada no Concílio de Éfeso, em 431, o terceiro concílio ecumênico da Igreja. Embora seja mais conhecido por condenar o Nestorianismo — a visão de que há uma Pessoa humana em Jesus distinta da Pessoa do Filho de Deus — esse concílio também declarou o pelagianismo como heresia.
No coração da crítica de Agostinho ao Pelagianismo estava sua crença de que ele diluía, minimizava e, em essência, anulava a realidade da graça de Deus em Jesus Cristo. Isso era feito por meio da magnificação e exaltação da capacidade da vontade humana de obedecer a Deus. Já que o poder da vontade era um dom da criação e não da redenção, o pelagianismo esvaziava a redenção de sua relevância. Como Agostinho disse acerca dos pelagianos: “eles louvam de tal maneira a obra do Criador que eles destroem a misericórdia do Redentor” (Contra as duas cartas dos Pelagianos 1:11). Em outras palavras, a necessidade de um Redentor foi efetivamente substituída pela suficiência criada da natureza humana. No entanto, um cristianismo subtraído da realidade da misericórdia do Redentor era, na visão de Agostinho, indigno de seu nome. O pelagianismo incorria no perigo de transformar a religião redentora do Evangelho em um sistema moralista de aperfeiçoamento humano, no qual Cristo já não era mais um Redentor divino e sobrenatural, mas apenas — na melhor das hipóteses — um mestre e exemplo inspirador.
A percepção de Agostinho acerca da graça de Deus em Jesus Cristo repousava sobre o fundamento da verdade cristã da encarnação. Deus, na Pessoa do Filho eterno, assumiu a natureza humana em união com sua própria Pessoa, e com isso a encheu de energia divina e santificadora. A natureza humana em Cristo, o Deus-homem, foi assim elevada acima dos poderes corruptores do pecado e da tirania degradante de Satanás. Cristo foi, assim, capacitado para vencer o pecado e Satanás (e o instrumento deles, a morte) por meio de sua obediência perfeita, de sua paixão sacrificial e vitoriosa e de sua ressurreição como o Príncipe e Autor da vida (Atos 3.15). Tudo isso, nas palavras do apóstolo Paulo, constituía Cristo como o “Espírito vivificante” (1Co 15.45). Cristo tem poder vivificante e revitalizante; sua energia vital flui sobre as almas humanas para que nos tornemos vivos em sua vida. “Nós seremos feitos genuinamente livres, quando Deus nos moldar — isto é, nos reformar e recriar, não como humanos — pois ele já fez isso — mas como bons humanos. Sua graça está agora realizando isso, para nos tornar uma nova criatura em Cristo Jesus, como a Escritura diz: ‘Cria em mim um coração limpo, ó Deus’” (Enchiridion 31).
A graça de Deus para com a humanidade, nessa visão agostiniana, era de uma natureza muito mais elevada do que um simples ensinamento ou exemplo. Era recriadora, libertadora e santificadora. Isso evidentemente implicava uma compreensão muito mais profunda da corrupção e pecaminosidade da natureza humana afastada de Cristo do que aquela oferecida por Pelágio. Para Pelágio, o pecado era pouco mais do que decisões infelizes tomadas por uma vontade humana que, por si só, permanecia essencialmente íntegra. Mas, se a graça é de fato a realidade soberana e transformadora apresentada pelas Escrituras, então — argumentava Agostinho — a condição da humanidade deve ser infinitamente grave para exigir um remédio tão radical. Toda a nossa natureza deve estar presa a um desesperador cativeiro ao pecado, à morte e ao diabo, tornando-nos incapazes de salvar a nós mesmos e absolutamente necessitados da graça transformadora e vivificadora de Deus em Jesus Cristo.
A corrupção da vontade humana.
Agostinho atribuiu a escravidão da humanidade à desobediência de Adão — uma desobediência que o alienou da presença interior de Deus e estendeu essa alienação a toda a raça humana. Havia uma unidade misteriosa entre Adão e toda a humanidade: seu pecado não era algo privado, mas um pecado da raça — a queda da humanidade em seu representante, seu “cabeça”. “O homem foi corrompido através de sua própria vontade, e justamente condenado; assim, deu origem a uma descendência corrupta e condenada. Porque todos nós estávamos naquele homem (Adão), éramos todos aquele homem” (Cidade de Deus 13:14). Como mentor de Agostinho, Ambrósio de Milão disse: “Em Adão eu caí, em Adão eu fui expulso do paraíso, em Adão eu morri”. Essa corrupção fatal e calamitosa da humanidade no primeiro Adão só pôde — e pode — ser redimida pela graça e vida do Segundo Adão. A teologia de Agostinho, em grau superlativo, concentrava-se na doutrina dos Dois Adões: ruína e derrota para a humanidade no primeiro, redenção e libertação no segundo.
Desde que, para Agostinho, o dom redentivo de uma nova vida fluía inteiramente de Cristo para seres humanos mortos em pecado, seguia-se que até mesmo a fé e o arrependimento eram dádivas divinas, não obras humanas. A graça não é algo meramente oferecido, que os humanos têm o poder de aceitar ou rejeitar; ela é eficaz — despertando ou dirigindo a resposta que exige. Essa era a doutrina monergista de Agostinho (e das Escrituras): a única energia que realiza a regeneração de um pecador é a energia de Deus em Cristo. Essa visão da graça prevaleceu no Ocidente de língua latina, ao contrário do sinergismo preferido no Oriente de língua grega, segundo o qual a vontade divina e a vontade humana cooperam na regeneração.
Agostinho argumentava também que, quando o poder vivificante da nova vida em Cristo resgatava uma alma do pecado, isso era prova de que Deus havia escolhido aquela pessoa — uma escolha feita, não naquele momento, mas na vontade eterna de Deus, “antes da fundação do mundo” (Ef 1.4). Agostinho não pretendia que sua doutrina da eleição se tornasse um sistema filosófico abstrato de causas, mas sim uma conclusão prática derivada da experiência da salvação. Era isso que capacitava o crente a dizer, sem reservas: “Graças sejam dadas a Deus por me salvar.”
O hinógrafo do século XIX, Josiah Conder, expressaria a visão de Agostinho da seguinte maneira:
“Não que eu tenha te escolhido,
Isso, Senhor, não poderia ser;
Este coração te rejeitaria,
Se tu não me tivesses escolhido.
Do pecado que me manchava,
Tu me limpaste e libertaste.
Desde o princípio, ordenaste
Que eu vivesse para ti.”
Somos gratos a nós mesmos pela nossa salvação?
A exposição de Agostinho sobre a doutrina bíblica da graça conserva uma relevância sempre viva. Com razão, poderíamos chamá-la de “doutrina da gratidão”. Afinal, a quem somos verdadeiramente gratos por cada bênção — especialmente pela bênção da salvação? Estaria nossa gratidão dirigida ao pregador? Teria ele nos salvado? Seria apropriado, em nossos cultos, entoarmos hinos de louvor a ele e aos seus poderosos sermões? Tal prática se aproximaria perigosamente de uma idolatria centrada no homem.
Essa reflexão remete à conhecida anedota de um bêbado que, cambaleando pelas ruas e proferindo xingamentos, de repente avista o pastor local. Ele exclama: “O senhor não me reconhece, pastor? Eu sou um dos seus convertidos!”. Ao que o pastor responde: “De fato, você deve ser um dos meus, pois claramente não parece ser um dos de Deus”. A ironia embutida na resposta ressalta o perigo de atribuirmos a salvação a qualquer outro senão ao próprio Deus.
Mas se não devemos nossa salvação ao pregador, será que devemos a nós mesmos? Seríamos nós os heróis da nossa própria redenção? Glorificaríamos, então, a nós mesmos? O arcebispo William Temple, com fina percepção espiritual, certa vez ilustrou esse erro ao imaginar uma oração distorcida: “Graças te dou, ó Pai celeste, por teres enviado Jesus Cristo para morrer por mim. Mas por crer e confiar nele, não te agradeço — por isso, eu me parabenizo”. Como bem observou Temple, essa dificilmente seria a oração de um verdadeiro filho de Deus.
A doutrina da graça — e, com ela, a doutrina da gratidão — nos ensina que devemos agradecer ao Deus triúno por toda a nossa salvação. E como a salvação não se efetiva sem a resposta pessoal de fé e arrependimento, devemos agradecer a Ele também por essas respostas. Graças sejam dadas a Deus por termos crido. Graças sejam dadas a Deus por termos nos arrependido. Graças sejam dadas a Deus por sermos cristãos.
É justamente esse senso profundo de gratidão — nascido do coração daquele que foi alcançado pela graça — que tanto as Escrituras quanto Agostinho buscam comunicar ao exporem a doutrina da graça eficaz e triunfante de Deus em Cristo Jesus. Não é um sistema frio de ideias abstratas, mas a experiência vital de um coração regenerado que reconhece: todo o processo da salvação procede de Deus.
O Pai, em seu amor eterno, nos escolheu para sermos seu povo antes da fundação do mundo. O Filho, em amor, assumiu carne, viveu, morreu e ressuscitou para derramar sobre nós o dom da vida. O Espírito Santo, em amor, operou em nós a fé e o arrependimento, unindo-nos a Cristo para que, nEle, nos tornássemos filhos do Pai. Não há espaço para vanglória humana diante de tão grande obra de redenção.
Por isso, a única resposta verdadeira e apropriada é a do salmista: “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua misericórdia e da tua fidelidade” (Salmo 115.1).
Centro Cultural João Calvino