- Os puritanos estavam comprometidos com a autoridade funcional das Escrituras. Para eles, a Bíblia era o manual abrangente para lidar com todos os problemas do coração.
- Os puritanos desenvolveram um sistema sofisticado e sensível de diagnóstico para problemas pessoais, distinguindo uma variedade de causas físicas, espirituais, temperamentais e demoníacas.
- Os puritanos alcançaram um equilíbrio notável em seu tratamento porque não estavam comprometidos com nenhuma teoria de personalidade em particular, além do ensino bíblico sobre o coração.
- Os puritanos eram realistas quanto às dificuldades da vida cristã, especialmente no que diz respeito aos conflitos com o pecado remanescente e interior.
- Os puritanos não se limitavam ao comportamento externo, mas consideravam os motivos e desejos subjacentes. O homem é um adorador; todos os problemas brotam da “imaginação pecaminosa” ou da fabricação de ídolos.
- Os puritanos consideravam que o remédio espiritual essencial era a fé no evangelho, aplicada tanto no arrependimento quanto no desenvolvimento de uma adequada compreensão de si mesmo.
Importância dos puritanos
Por que aqueles que buscam desenvolver uma abordagem verdadeiramente bíblica de aconselhamento deveriam dar atenção especial aos puritanos? Porque eles foram a primeira escola protestante de Aconselhamento Bíblico.
J. I. Packer, um dos estudiosos mais familiarizados com os escritos desses homens, expressa isso da seguinte forma:
“…os puritanos… eram mais fortes justamente onde os cristãos evangélicos de hoje são mais fracos… Eram homens de notável vigor intelectual, em quem os hábitos mentais cultivados por uma erudição sóbria estavam unidos a um zelo ardente por Deus e a um conhecimento minucioso do coração humano”.1
Os estudiosos bíblicos de hoje não compreendem o coração humano, diz Packer, enquanto nossos conselheiros não conhecem as Escrituras. Mas os puritanos foram uma geração inteira de homens que combinaram essas duas forças. Ele continua:
“A vazio do nosso tão celebrado biblicismo torna-se evidente quando, repetidamente, separamos aquilo que Deus uniu… pregamos o evangelho sem a lei, e a fé sem o arrependimento… ao tratar da experiência cristã, falamos constantemente sobre alegria, paz, felicidade, satisfação e descanso da alma, sem nenhuma referência equilibrada ao descontentamento santo de Romanos 7, à luta da fé do Salmo 73, ou a qualquer um dos fardos de responsabilidade e dos castigos providenciais que recaem sobre o filho de Deus… eles procuram o pastor, e este, talvez, não tenha outro remédio senão encaminhá-los a um psiquiatra! De fato, precisamos de ajuda, e a tradição puritana pode nos oferecê-la”.2
Lições para conselheiros
1. Os Puritanos estavam comprometidos com a “autoridade funcional” das Escrituras no aconselhamento
A Bíblia era a principal autoridade para os puritanos na tarefa de ajudar almas em angústia. Pouco tempo é necessário para estabelecer esse ponto. Eles consideravam as Escrituras mais do que suficientemente abrangentes para lidar com toda condição ou problema humano essencial. John Owen valorizava a experiência pastoral e a variedade de “livros de casos” daquela época, mas acrescentava uma advertência: nada substitui o estudo diligente das Escrituras, a meditação sobre elas, a oração fervorosa, a experiência das realidades espirituais e das tentações na própria alma, bem como a observação prudente da obra da graça de Deus nelas. Sem essas coisas, toda pretensão a essa capacidade e dever do ofício pastoral é vã.3
É evidente que os puritanos fundamentavam sua abordagem de aconselhamento nas Escrituras.
Em muitos aspectos, os puritanos constituem um excelente “laboratório” para o estudo do aconselhamento bíblico, pois não eram influenciados por nenhum modelo secular de psicologia. Muitos que hoje afirmam adotar uma abordagem estritamente bíblica no aconselhamento ainda demonstram forte influência de Maslow, Rogers, Skinner ou Ellis. Mas os puritanos dominavam praticamente sozinhos o campo da “cura das almas”; não enfrentavam concorrência secular na área do aconselhamento. Por isso, precisamos considerar com muita seriedade os modelos de aconselhamento por eles desenvolvidos.
2. Os puritanos tinham um sistema altamente desenvolvido de diagnóstico de problemas
Os puritanos possuíam sofisticados livros de casos diagnósticos contendo dezenas e até centenas de diferentes problemas pessoais e condições espirituais. John Owen foi representativo ao ensinar que todo pastor deve compreender todos os diversos casos de depressão, medo, desânimo e conflito encontrados nas almas humanas. Isso é necessário para aplicar “medicamentos e remédios adequados a cada enfermidade”.4 Os puritanos eram verdadeiros médicos da alma. Seu estudo das Escrituras e do coração os levou a fazer distinções precisas entre condições e a classificar muitos tipos e subtipos de problemas que exigiam tratamentos diferenciados.
Identificando condições
Precious Remedies Against Satan’s Devices de Thomas Brooks e A Christian Directory de Richard Baxter são dois manuais clássicos puritanos de casos.
Brooks discute doze tipos de tentação, oito variedades de desânimo, oito tipos de depressão e quatro classes de orgulho espiritual!
As seções sobre “tentação” de Brooks são dirigidas a qualquer pessoa que luta com padrões persistentes de pecado, especialmente àqueles que enfrentam vícios. Como pastor, muitas vezes recorri a esse manual para ajudar pessoas confusas que caíram em uma antiga tentação após anos de liberdade. Invariavelmente, descobria que, embora tivessem se fortalecido contra algumas formas de tentação, continuavam indefesas contra outras mencionadas no manual.
A seção sobre “desânimo” aplica-se a pessoas que sofrem de ‘esgotamento’, bem como de ansiedade, tristeza e decepção. Brooks distingue o desânimo causado por cobiça,5 por falsas expectativas,6 por um espírito de agradar ao homem,7 por autojustificação,8 por distorção doutrinária,9 ou por simples falta de autodisciplina.10
A seção sobre “depressão” lida principalmente com pessoas cujo desespero surge da culpa e de uma “autoimagem negativa”. Os puritanos chamavam essa condição de “acusação”, na qual a consciência e o diabo atacam a pessoa por suas falhas e pecados. Brooks reconhece vários tipos de patologias da consciência: consciência insensível,11 consciência ferida,12 consciência cauterizada,13 e consciência excessivamente escrupulosa.14
Finalmente, a seção sobre “orgulho” trata de várias formas desse grande pecado. Apresenta casos de materialismo, desejo de poder, arrogância intelectual, amor à ignorância e à rudeza, amargura e ciúme.15
O Directory de Richard Baxter impressiona por seu escopo e abrangência. Ocupa 900 páginas em fonte pequena, com duas colunas. A seguir, um esboço geral de seu conteúdo.
Ética Cristã
Para os não convertidos
- 20 orientações para os não convertidos
- 30 obstáculos que impedem os homens de chegar a Cristo
- 10 maneiras pelas quais os não convertidos são enganados a acreditar que estão convertidos
Para cristãos fracos
- 20 orientações sobre como crescer em graça
Instruções gerais para andar com Deus
Para lidar com “os grandes pecados mais diretamente contrários à piedade”
[Estes são os impulsos motivados ‘na raiz’, que sustentam pecados comportamentais mais evidentes.]
- Incredulidade
- Dureza de coração
- Hipocrisia
- Agradar ao homem; a idolatria da aprovação
- Orgulho; a idolatria do poder/influência
- Materialismo e preocupação; a idolatria das posses
- Sensualidade; a idolatria do prazer físico
Lidando com as consequências dos pecados ‘raiz’ (pecados comportamentais mais evidentes)
- Controle do tempo (o pecado do desperdício do tempo)
- Controle dos pensamentos
- Pensamentos ociosos
- Meditação vs. introspecção
- Pensamentos depressivos
Controle das paixões
- Apego excessivo (“amor pecaminoso”) a coisas ou pessoas
- Descontentamento
- Humor pecaminoso
- Ira e amargura
- Medo
- Tristeza e aflição
- Desespero e dúvida
Controle dos sentidos
- Gula
- Vício em bebidas alcoólicas
- Prostituição e imoralidade sexual
- Luxúria
- Regulação do sono
Controle da língua
- Juramentos/profanidade
- Mentira e engano
- Falar demais/tagarelice
- Escárnio/zombaria
- Outros 30 pecados da língua
Controle do corpo
- Trabalho e ociosidade
- Esporte e recreação
- Moda e vestuário
Esta era apenas a primeira seção do Directory; mais três se seguiram! “Economia Cristã” tratava dos relacionamentos cristãos: entre marido e mulher, empregador e empregado, pais e filhos. Além disso, Baxter aborda o relacionamento do cristão com Deus, estudo bíblico, oração, comunhão, os sacramentos, e problemas de certeza da salvação e queda espiritual. Nas terceira e quarta seções, ele trata dos cristãos na vida da igreja e, finalmente, da “Política Cristã”, na qual delineia as responsabilidades sociais do cristão. Neste ponto, Baxter demonstra mais maturidade de pensamento do que a maioria dos puritanos (e da maioria dos conselheiros bíblicos atuais!), que eram individualistas e frequentemente pietistas em sua abordagem ao discipulado. Pelo contrário, Baxter detalha os deveres públicos de discipulado dos cristãos pobres e ricos, governantes, advogados, médicos, professores e militares.
Discernindo causas
Além disso, os puritanos eram capazes de fazer distinções precisas ao diagnosticar as causas raízes dos problemas. O sermão de Baxter, “Quais são os melhores preservativos contra a melancolia e o excesso de tristeza?”, identifica quatro causas da depressão (pecado, fisiologia, temperamento e atividade demoníaca) que podem existir em variadas inter-relações.
Baxter lista diversos pecados que alimentam a depressão. Ele primeiro aponta as inclinações pecaminosas subjacentes que fundamentam a depressão: impaciência, descontentamento, amor excessivo ao mundo material, egoísmo, desconfiança em Deus e falta de submissão genuína à vontade soberana de Deus.16 Conclui que qualquer culpa decorrente de pecado voluntário (isto é, uma consciência culpada) é causa de depressão.17 Contudo, Baxter faz uma distinção cuidadosa entre as causas físicas e espirituais de um problema:
Em muitos casos, grande parte da causa está na indisposição, fraqueza e enfermidade do corpo; e isso incapacita grandemente a alma de qualquer sensação confortável. Contudo, quanto mais a causa surgir dessa necessidade natural, menos pecaminosa e menos perigosa será para a alma; mas nunca menos penosa, e sim mais.18
Baxter então aponta algumas causas físicas específicas do “excesso de tristeza” ou depressão. Ele inclui “dor violenta que a força natural não consegue suportar”, um enfraquecimento das capacidades racionais (como a deterioração mental em pessoas muito idosas), e “quando o cérebro e a imaginação ficam perturbados” por outras causas fisiológicas.19
Isso revela um equilíbrio notável. Baxter reconhece que parte da depressão não é causada pelo pecado ou por falha em lidar com a vida segundo o modo de Deus. (Ao final do seu sermão sobre depressão, ele fornece instruções sobre dieta adequada e cuidados com a saúde!). Por outro lado, ele reconhece uma relação muito complexa entre o físico e o espiritual. Note que ele afirma que, quanto mais a tristeza surgir de causas físicas, “menos pecaminosa e perigosa será para a alma”. Existem graus variados de pecaminosidade e responsabilidade. Em alguns casos, a dor da pessoa é leve, e sua tristeza se deve parcialmente a uma recusa em confiar em Deus. Mas se a dor for violenta e insuportável, a histeria da pessoa pode envolver muito pouco pecado.
Isso é extremamente instrutivo para os conselheiros modernos. Pesquisas atuais vêm identificando bases fisiológicas para praticamente tudo, desde vícios até esquizofrenia e egoísmo. Por um lado, há o perigo de que conselheiros bíblicos ignorem essas informações e ainda insistam que praticamente todos os problemas são causados unicamente pelo pecado deliberado. Por outro lado, devemos resistir à tendência crescente no mundo de rotular quase todo problema como uma “doença” sobre a qual o paciente não tem controle nem responsabilidade.
Mas Baxter não termina aí; ele também aponta duas outras raízes da depressão, “essa doença complicada das almas”. O “temperamento” é um fator. Algumas pessoas têm um “temperamento natural” que é “medroso e passional”20 e que, embora não seja a causa primária da depressão, pode ser uma inclinação que leva algumas pessoas a se sentirem mais abatidas pelas provações do que outras. Isso agrava o “excesso de tristeza” e torna certas pessoas muito mais propensas a ela ao longo da vida.
Além do temperamento, Baxter dedica atenção à atividade satânica como causa da depressão. “Devo dizer à pessoa melancólica que é sincera que o conhecimento da ação do diabo em seu caso pode ser mais para seu conforto do que para seu desespero”.21 Embora afirme que Satanás “possui somente as almas dos ímpios”, ele, no entanto, “faz movimentos frequentes contra os fiéis”.22 Esses “movimentos” podem incluir doenças corporais (ele cita o livro de Jó como exemplo), mas Satanás também provoca tentações e pode injetar fluxos de pensamentos pecaminosos, blasfemos e dúvidas na mente.23 Baxter afirma cuidadosamente que Satanás “não pode fazer o que quer conosco, mas apenas o que lhe damos oportunidade para fazer. Ele não pode arrombar nossas portas, mas pode entrar se as deixarmos abertas. Ele pode facilmente tentar um corpo fleumático à preguiça… uma pessoa colérica à ira… um homem sanguíneo à luxúria…”.24
É importante notar que Baxter não procura atuar pastoralmente diretamente sobre Satanás, dirigindo-se a ele com autoridade e ordenando-o, como alguns fazem hoje. Em vez disso, ele busca nos levar a “fechar as portas” que deixamos abertas para Satanás. “A maioria dos maus movimentos na alma tem Satanás como pai, e nossos próprios corações como mães”.25 Baxter lida com a atividade satânica instruindo a pessoa aflita a não sentir culpa pelas imaginações e pensamentos blasfemos (que vêm de Satanás), desde que não aja conforme eles.
Mas acrescento: Deus não imputará a você as meras tentações [de Satanás], por mais ruins que sejam, desde que você não as aceite pela vontade, mas as odeie; ao contrário, ele as imputará a [Satanás]. Nem o condenará por esses efeitos nocivos que são inevitáveis devido ao poder da doença corporal, assim como não condenaria um homem por pensamentos ou palavras delirantes durante uma febre, frenesi ou loucura completa. Contudo, na medida em que a razão ainda tem poder e a vontade pode governar as paixões, é sua culpa se não usar esse poder, embora a dificuldade torne a culpa menor.26
O equilíbrio de Baxter aqui é intrigante. Ele não acredita que a atividade satânica deva ser ignorada no diagnóstico ou tratamento. Ele consola a pessoa aflita ao mostrar a mão de Satanás em suas dificuldades. Enfrenta a atividade demoníaca por meio de oração ousada e encoraja o crente a usar a autoridade que possui no conflito espiritual. Ele ensina o crente a eliminar os “pontos de apoio” que deu a Satanás (como a amargura, Efésios 4:27; 2 Coríntios 2:10,11). Contudo, Baxter não vê a “possessão demoníaca” como a principal causa dos problemas de qualquer cristão. Lovelace baseia-se na abordagem puritana ao afirmar que “o remédio comum pode não ser o exorcismo, mas o aconselhamento para a plenitude de Cristo, incluindo o entendimento da nossa autoridade contra agentes demoníacos e uma postura de resistência contra eles em áreas contestadas da personalidade”.27
A compreensão equilibrada dos puritanos acerca das raízes dos problemas pessoais não se reflete na prática pastoral dos evangélicos modernos. A maioria dos conselheiros tende a “especializar-se” em um dos fatores mencionados por Baxter. Alguns veem o pecado pessoal como a causa da quase totalidade dos problemas. Outros basearam sua metodologia de aconselhamento principalmente na análise de “temperamentos transformados”. Ainda há os que desenvolveram ministérios de “libertação” que interpretam os problemas pessoais, em grande parte, como atividade demoníaca. E, naturalmente, alguns evangélicos adotaram o modelo médico completo da doença mental, retirando toda “culpa moral” do paciente, que não precisa de arrependimento, mas do tratamento de um médico.
Porém, Baxter não apenas demonstra uma abertura objetiva para descobrir qualquer um desses fatores no diagnóstico, como também espera, na maioria das vezes, encontrar todos eles presentes. Qualquer um desses fatores pode ser o principal, que deve ser tratado primeiro para que os demais sejam enfrentados.
Assim, constatamos a sofisticação dos puritanos como médicos da alma. Se há algo a ser criticado, é que por vezes os puritanos faziam distinções desnecessárias. (Quem lê um sermão puritano com quatorze pontos pode perceber como ele poderia ser reduzido a três ou quatro tópicos!) Contudo, conselheiros bíblicos atuais, que às vezes são justamente acusados de simplistas, poderiam aprender muito com o cuidadoso método diagnóstico desses pais da fé.
3. Os puritanos ofereceram soluções equilibradas, não baseadas em uma ‘teoria da personalidade’ específica
Acabamos de ver o quão equilibrados os puritanos eram no diagnóstico das causas dos problemas pessoais. Não deve surpreender-nos descobrir que eram igualmente equilibrados em suas prescrições e tratamentos. Muitos conselheiros cristãos tendem a espelhar abordagens seculares que concentram seu tratamento principalmente nos sentimentos (como a abordagem centrada no cliente de Rogers), nas ações (como a abordagem comportamentalista de Skinner e seus seguidores) ou no “pensamento” (como as terapias racional-emotivas de Ellis e Beck). Porém, os puritanos não se encaixam em nenhuma dessas categorias modernas.
Considere a clássica discussão de Thomas Brooks sobre a tentação em Precious Remedies. Ele escreve que algumas tentações têm raízes doutrinárias diretas. Brooks identifica raízes da tentação em visões falsas sobre o arrependimento, um entendimento inadequado da santidade de Deus e uma compreensão superficial do pecado habitual.28 Muitas outras tentações têm raízes sociais, como a má companhia, a idolatria de agradar ao homem ou o desencanto causado por líderes cristãos inconsistentes.29 E muitas tentações surgem do pensamento distorcido sobre o que realmente satisfaz. Racionalizamos o pecado como virtude.30
Para cada caso, Brooks atribui de três a quatro “remédios” ou abordagens de aconselhamento. Alguns dos remédios são tarefas comportamentais, como evitar a má companhia.31 Muitos outros remédios são puro conforto, especialmente para a pessoa que repetidamente recai no mesmo pecado. Em vez de simplesmente ordenar que a pessoa se arrependa, Brooks a encoraja com ternura. Ele destaca “que os santos mais renomados e agora glorificados, em seus dias na terra, recaíram no mesmo pecado. Uma ovelha pode escorregar numa lamaçal, assim como um porco”.32 Também lembra suavemente ao crente desanimado que nenhuma experiência de convicção de pecado ou mesmo do amor de Deus pode “para sempre cercar e proteger a alma de recair no mesmo pecado”.33 Mesmo pessoas como Pedro, que viu Jesus em sua glória no monte, posteriormente o negaram. Esse tipo de aconselhamento visa de fato consolar, trazendo paz à pessoa que sofre emocionalmente.
No entanto, muitos dos remédios de Brooks são muito semelhantes à terapia “cognitiva”. Brooks vê os problemas como decorrentes, em grande parte, de distorções doutrinárias, da incredulidade e das mentiras que acreditamos sobre Deus e sobre nós mesmos. Portanto, muitos dos remédios de Brooks consistem em argumentos bíblicos apaixonados a serem lançados com força e constância na consciência contra as mentiras que dominam o coração. Ele constantemente exorta o leitor a “meditar mais” em certas verdades específicas. Por exemplo, Brooks reconhece que muitas pessoas são tentadas a presumir da graça. A pessoa passa a acreditar que “a obra do arrependimento é uma obra fácil, e, portanto, a alma não precisa dar tanta importância ao pecado”. “‘Ora! Suponha que você peque’, diz Satanás, ‘não é tão difícil assim voltar, confessar, se entristecer e pedir perdão’”.34 Brooks aconselha a pessoa tentada, sob o poder dessa distorção, a lembrar continuamente que Satanás é um mentiroso. Antes de pecar, ele dirá que o arrependimento é fácil; mas, depois de pecar, dirá que o arrependimento é difícil demais! Ambas são mentiras. “Ah, almas! Aquele que agora vos tenta ao pecado, sugerindo-vos a facilidade do arrependimento, no fim vos levará ao desespero e apresentará o arrependimento como a obra mais difícil do mundo, uma obra tão acima do homem quanto o céu está acima do inferno, como a luz está acima das trevas. Oh, se fôsseis sábios para romper com os vossos pecados pelo arrependimento oportuno! O arrependimento é uma obra que deve ser feita a tempo, ou será para sempre não feita”.35
Em outro exemplo, Brooks explora o problema da prosperidade dos ímpios. Muitos cristãos são levados à autocomiseração e, assim, ao pecado, porque veem que os ímpios frequentemente levam vidas confortáveis. Brooks ajuda a pessoa tentada a “meditar naquela severa prestação de contas que os homens vãos terão que fazer por todo o bem que desfrutam”.36 Ele cita Filipe III da Espanha em seu leito de morte, que clamou: “de que me serve toda a minha glória, senão para que tenha muito mais tormento na minha morte?”. Brooks instrui a pessoa tentada a meditar e ver a vida a partir da perspectiva do juízo de Deus. Portanto, também diz à pessoa, tentada pela autocomiseração, que lhe diga a si mesma “que não há maior miséria nesta vida do que não estar na miséria — nem maior aflição do que não ser afligido. Ai, ai daquela alma sobre a qual Deus não gastará o castigo!… Oséias 4:7: ‘Efraim está unido aos ídolos; deixai-o’”.37 Esses são argumentos poderosos que o crente é chamado a “considerar solenemente”.
Ao longo do livro, Brooks constantemente exorta o crente a dialogar com sua alma, “a meditar até que o coração seja tocado”, a “receber a verdade afetuosamente e deixá-la habitar abundantemente em suas almas”.38 Pelos padrões modernos, isso é notavelmente equilibrado! Vemos que muitos dos remédios de Brooks parecem semelhantes à terapia “cognitiva”, buscando mudar o pensamento para aliviar a ansiedade, o medo e a depressão. Contudo, ele também pode parecer um “comportamentalista” em certos momentos, chamando as pessoas a mudarem imediatamente seus padrões de vida. Brooks não teme explorar profundamente os motivos e desejos subjacentes. Ele consola e leva os estados emocionais muito a sério.
Então, Brooks seria um comportamentalista, um terapeuta cognitivo ou um conselheiro rogeriano? Claro que a resposta é: “nenhum dos anteriores”. Seu equilíbrio provém do fato de que ele não é controlado nem por um modelo de personalidade ‘cognitivo’ nem por um modelo ‘comportamentalista’. Ele não considera nem o “pensamento”, nem o “comportamento”, nem a “emoção” como a parte mais básica da personalidade. Tampouco parece ter uma teoria própria da personalidade em que relacione esses componentes em um padrão organizado de causa e efeito. Em vez disso, ele concentra-se no coração (palavra que Brooks usa de forma intercambiável com alma). As “movimentações” do coração são pensamentos, sentimentos e ações. Os problemas se desenvolvem quando o coração opera em incredulidade. Os problemas são resolvidos quando a verdade da Palavra é “apresentada” (terminologia de Brooks) ao coração, o que significa aos pensamentos, à vontade e às emoções. Brooks aconselha que se obedeça a uma verdade imediatamente e, ao mesmo tempo, que se reflita e medite sobre ela até que o princípio transforme também o pensamento e os sentimentos.
4. Os puritanos foram realistas sobre o pecado habitando, conflitos e problemas que os cristãos rotineiramente enfrentam em sua jornada
A visão puritana sobre o pecado
Os puritanos, com poucas exceções, eram firmemente reformados em sua teologia. Eles acreditavam, portanto, na depravação radical do coração do homem e na contínua presença do pecado habitual no crente.
De modo geral, os evangélicos modernos não refletem esse realismo devido a uma compreensão superficial do pecado. A tendência em alguns círculos é ver todo comportamento compulsivo profundamente enraizado como possessão demoníaca ou, alternativamente, negar que crentes verdadeiros tenham tais problemas. Outros evangélicos estão prontos para adotar o “modelo da doença” para qualquer tipo de dependência.39 Essa visão absolve o paciente da responsabilidade; ele é vítima de condições biológicas ou de traumas emocionais profundos desde a infância.
Todas essas abordagens presumem uma visão não agostiniana do pecado como ações voluntárias e intencionais. Com base nessa perspectiva teológica, qualquer pecado que não ceda imediatamente ao arrependimento e aos esforços de autodisciplina é considerado demoníaco ou físico (ou até impossível!). Porém, os puritanos, devido à sua compreensão do pecado remanescente e habitual (a carne), reconheciam que os problemas profundos são causados pelo pecado e que a mudança pode ser apenas gradual — resultado da “penetração da verdade”.
Para observar a compreensão evangélica moderna, demasiadamente otimista, sobre a vida cristã, basta consultar os títulos dos nossos materiais de discipulado mais populares. O Design for Discipleship (Projeto para o Discipulado), dos Navigators, é um exemplo. Trata-se de um curso composto por seis livros e 29 tópicos sobre a caminhada cristã. É utilizado como parte de um programa de dois anos chamado “2:7 Series”. No entanto, nesse programa de dois anos, apenas três capítulos abordam as provações e o conflito com o pecado.40
Contrastemos isso com o “projeto para o discipulado” puritano, o Directory (Diretório) de Baxter. Baxter dedica bastante tempo à apostasia e à perda da certeza da salvação (a sensação de estar “distante de Deus”). Ele fornece um inventário específico dos “grandes pecados” (incluindo materialismo e orgulho, não apenas sensualidade), ajuda com a tentação, os “benefícios da aflição” e orientações maravilhosas sobre o enfrentamento da morte. Enquanto o Design for Discipleship pressupõe uma existência segura e de classe média, Baxter trata das dificuldades particulares dos pobres, dos ricos, dos oprimidos, bem como dos profissionais.
De modo algum Baxter está sozinho nesse “realismo”. Dois outros textos clássicos puritanos sobre depressão são A Child of Light Walking in Darkness (Um Filho da Luz Andando nas Trevas), de Thomas Goodwin, e A Lifting Up for the Downcast (Um Levantar para os Desanimados), de William Bridge. Ambos os autores assumem que cristãos genuínos com “verdadeira paz” passarão por períodos de “deserção” — tempos em que a luz da face de Deus está oculta. Bridge lista as causas da perda da paz:
- “grandes pecados” [comportamentos grosseiros e pecaminosos];
- “graça fraca” [o crescimento do orgulho e desejos idólatras subjacentes];
- “falha no cumprimento dos deveres” [negligência das disciplinas básicas dos meios de graça];
- “falta de certeza” [acusação demoníaca da consciência];
- “tentação”;
- “deserção” [a retirada deliberada da proximidade de Deus com propósito de disciplina];
- “aflição”;
- “inutilidade” [falha em usar dons no ministério];
- “desânimos derivados da própria condição” [estar deprimido por estar deprimido!].41
O domínio do pecado
Como foi mencionado acima, a verdadeira causa do realismo dos puritanos era sua plena compreensão da natureza do pecado habitante ou remanescente. Procura-se em vão na literatura moderna de aconselhamento algo semelhante ao tratamento dado por John Owen, o mestre nessa área. Suas quatro obras sobre o assunto são incomparáveis: Da Mortificação do Pecado nos Crentes, Da Tentação: Sua Natureza e Poder, A Natureza, Poder, Engano e Prevalência dos Resquícios do Pecado Habitando nos Crentes e Um Tratado sobre o Domínio do Pecado e da Graça. As três primeiras encontram-se no volume 6 das Obras de Owen, e a última está no volume 7.
Para Owen, a principal diferença entre o crente e o não crente é que o domínio do pecado foi quebrado (Romanos 6). Contudo, a influência do pecado permanece no crente com suas tendências básicas iguais, embora bastante enfraquecidas. Há, portanto, dois problemas pastorais fundamentais: convencer aqueles que estão sob o domínio do pecado de que realmente o estão, e convencer aqueles que não estão sob esse domínio de que realmente não o estão.42 Os conselheiros bíblicos devem estar preparados para realizar habilidosamente ambas as tarefas.
Quais são os sinais do domínio do pecado?
Para Owen, o domínio às vezes pode ser “absoluta e facilmente discernível… há aqueles que visivelmente ‘entregam seus membros como instrumentos de injustiça ao pecado’”.43 Uma vida abertamente licenciosa demonstra que a pessoa está sob o domínio do pecado, independentemente do que ela possa alegar. Contudo, Owen é rápido em apontar que o domínio não precisa se manifestar em atos exteriores. Uma vida de moralidade externa, interesse pelo estudo da Bíblia, prazer nos deveres religiosos e arrependimento por pecados externos (tudo isso pode estar presente e, ainda assim, o pecado estar ‘reinando’). O pecado reina quando a ‘imaginação’ (isto é, os motivos) do coração está controlada pelo pecado. Segundo Owen, os padrões básicos das imaginações pecaminosas são três: 1) “orgulho, autoexaltação, desejo de poder e grandeza”, 2) “sensualidade e imundície de vida” e 3) “incredulidade, desconfiança e pensamentos duros sobre Deus”; egocentrismo, auto-satisfação e auto-vontade.44
Embora os crentes não estejam sob o domínio do pecado, ainda estão sob sua influência. Ele tem um poder real; permanece nos crentes, embora destronado. A ‘carne’ é essa corrupção remanescente que deseja ser Deus ao invés de estar sob Deus. É um princípio de ódio a Deus.45 O egocentrismo, a auto-satisfação e a auto-vontade ainda estão poderosamente presentes em nós.46 Assim, os cristãos devem aprender a detectar a carne e suas operações que, como velhas raízes de árvore, podem penetrar e entrelaçar a vida por baixo da superfície. A menos que essas raízes sejam discernidas, elas controlarão e distorcerão nossas vidas, levando-nos a cumprir até deveres religiosos por motivos falsos. Auto-vontade, auto-satisfação e egocentrismo devem ser discernidos onde quer que estejam ocultos e influenciando comportamentos, relacionamentos, atitudes e posturas. Os puritanos não se chocariam com revelações de líderes cristãos (aparentemente) eficazes caindo em pecado sexual. Eles sabiam o quão fácil é para cristãos verdadeiros realizar ministério e boas obras sob o controle da carne. Lovelace fala como um bom puritano ao dizer:
Portanto, não é surpreendente que muitas congregações, cheias de pessoas regeneradas, ainda assim não sejam muito vivas espiritualmente, visto que a vida espiritual exige metanoia, uma nova mente de arrependimento, e isso requer mais do que um ajuste inicial do coração contra as expressões superficiais do pecado das quais o crente está consciente no momento da conversão… A maioria das congregações de cristãos professos hoje está saturada de uma espécie de bondade morta… justiça superficial que não provém da fé e da ação renovadora do Espírito, mas do orgulho religioso e da conformidade condicionada à tradição…47
Como, então, podemos distinguir entre o domínio do pecado e o pecado remanescente no crente? Owen acreditava ser crucial que os conselheiros pudessem diferenciar isso! Esta questão é especialmente importante porque o pecado pode tornar-se mais violento e aparentemente mais forte justamente porque foi derrubado e está morrendo.48
Owen ensina primeiramente que o domínio do pecado é visível na “dureza do coração”. Os crentes são influenciados pelo poder do pecado, mas se entristecem por seus motivos pecaminosos.49 A própria tristeza e preocupação com o pecado são um sinal saudável de que a pessoa não está sob o reinado do pecado. Owen também aponta que os verdadeiros crentes praticam a “mortificação”: reconhecem e trabalham com motivações pecaminosos, em vez de apenas notarem o comportamento externo.50 “Quando as únicas restrições ao pecado são as consequências da ação, o pecado tem domínio na vontade”.51
Os puritanos (e Owen não era exceção) se preocupavam muito em classificar tudo. Mas mesmo Owen admite que existe uma espécie de “condição intermediária” em que uma pessoa pode estar, na qual é impossível saber se ela está sob o domínio do pecado ou se ela apenas caiu em tal letargia espiritual que não pode ser recuperada pelos meios ordinários da graça.52 Um exemplo disso é Davi nos meses após seu adultério com Bate-Seba. Em tais casos, o pastor deve tratar a pessoa como Natã fez, advertindo-a nos termos mais severos quanto ao seu perigo.
A abordagem de aconselhamento para aqueles sob o domínio do pecado é, claro, o evangelismo. Owen nos diz que essas pessoas sofrem apenas pelas consequências do pecado. Elas não conseguem ver o pecado como pecado. Precisam de uma apresentação clara do evangelho.
Mas e quanto ao crente que está sendo controlado pelo seu pecado habitual? E se um cristão percebe que seu pecado interior está enfraquecendo sua comunhão com Deus, destruindo sua paz e certeza, causando uma consciência ferida e endurecendo seu coração? A resposta de Owen é dupla: ele deve ser aconselhado a praticar a “mortificação” e a “fixar sua mente nas coisas do alto”. Com base em Romanos 8:13 (“se pelo Espírito vocês morrerem para as obras do corpo, viverão”) e Romanos 8:5-6 (“os que vivem segundo o Espírito têm a mente voltada para o que o Espírito deseja”), Owen escreveu seus tratados sobre mortificação e sobre “A Graça e o Dever de Ter uma Mente Espiritual”.53 Abordaremos o ensino desta última obra em outro tópico. Por ora, devemos discutir a ajuda significativa que Owen oferece aos conselheiros em seu ensino sobre mortificação.
Mortificação é afrouxar o pecado no nível motivacional, detectar as raízes e formas dos motivos carnais característicos de uma pessoa e secá-los por meio do arrependimento até que percam seu poder atrativo. Mortificar é “tirar o princípio de toda sua força, vigor e poder, de modo que não possa agir, exercer ou manifestar quaisquer atos próprios”.54 Mortificação não é apenas suprimir a ação externa do pecado, mas refere-se ao enfraquecimento dos motivos raízes, os desejos do pecado.
Como mortificamos o pecado? De Owen podemos discernir estas medidas:
- Devemos deixar claro que a pessoa precisa ser cristã antes de realizar este trabalho; não é para os não regenerados.55 Uma compreensão fundamental do evangelho e da justiça pela fé é absolutamente necessária. Sem o entendimento da sua posição em Cristo, a pessoa não pode se arrepender plenamente nem aceitar toda a dimensão do seu pecado. Isso seria devastador demais. A consciência precisa ser “formada” e sustentada pelo evangelho, caso contrário não suporta um arrependimento profundo.
- É necessário reconhecer a forma que o pecado está tomando. Agrada a homens? Necessidade de poder? Orgulho? Pensamentos de inveja? Olhe para os motivos mais básicos. Devemos reconhecer e “nos opor aos primeiros movimentos”56 do nosso pecado. “É como água num canal — se uma vez romper, seguirá seu curso… Pergunte à inveja o que ela realmente quer — assassinato e destruição é o seu fim”.57
Também deve-se reconhecer os sinais de uma “luxúria perigosamente não mortificada”. Ela tem persistido por bastante tempo? A pessoa praticamente não sente aversão ou repulsa, mas grande deleite no pecado? Então ela precisa perceber que medidas extraordinárias devem ser tomadas.58
- É necessário encher a mente e a consciência com o perigo e a culpa do pecado, levando-os à cruz. Deve-se olhar para o pecado pelo que ele é, desmascará-lo e vê-lo como a coisa feia que ele é em si mesmo, não apenas pelo que fez à pessoa. Essa desmascaramento tem duas partes.
Para ver o ‘perigo’ do pecado, precisa-se considerar todas as suas consequências: endurecimento do coração, perda da paz e da força, perda da certeza de que é realmente cristão, e a possibilidade de correção ou punição temporal por parte de Deus.59
Mas não se deve considerar apenas as consequências do pecado. O pesar baseado apenas nisso pode surgir do amor próprio. Também é necessário carregar a consciência com a ‘culpa’ do pecado. Ele entristece o Espírito, fere o novo homem interior, torna a pessoa inútil para o Deus que tanto fez por ela, ofende a santidade e majestade de Deus e despreza o sangue de Cristo.
É importante que essa convicção de culpa seja evangélica, e não legalista. Isso se alcança levando o pecado não somente à lei (embora deva refletir sobre a majestade e santidade de Deus para convicção), mas também ao evangelho — à cruz de Cristo. Uma convicção saudável do pecado cresce ao ver a paciência de Deus, as riquezas da graça, o sofrimento de Jesus — tudo para que a pessoa não peque.
Leve tua luxúria ao evangelho — não para alívio [ainda], mas para uma convicção mais profunda de sua culpa… Diga à tua alma: “O que eu fiz? Que amor, que misericórdia, que sangue, que graça eu desprezei e pisoteei! Será este o retorno que faço ao Pai por seu amor, ao Filho por seu sangue, ao Espírito Santo por sua graça? Recompenso assim ao Senhor? Tenho eu contaminado o coração que Cristo morreu para lavar, que o Espírito bendito escolheu para habitar? Considero tão pouco valor a comunhão com ele, que por causa desta vil luxúria quase não lhe deixei espaço algum no meu coração? Devo eu esforçar-me para frustrar o propósito da morte de Cristo?”. Enterneça tua consciência diariamente com este tratado. Veja se ela pode resistir a esta agravação de sua culpa. Se isso não a fizer afundar-se em alguma medida e derreter-se, temo que teu caso seja perigoso.60
Esse processo de carregar a consciência diante da cruz de Cristo ajuda o pecador a começar a odiar o pecado em si mesmo. O pecado começa a perder seu atrativo e, assim, seu poder para levar a ações e feitos pecaminosos.
Muitos conselheiros modernos, influenciados pelo atual movimento da ‘autoestima’, acharão isso perigoso. Mas Owen adverte claramente que “aplicar misericórdia a um pecado que não é vigorosamente mortificado é cumprir o propósito da carne sobre o evangelho”.61 É natural que a pessoa expresse brevemente tristeza por um pecado e logo se tranquilize com um versículo sobre perdão (por exemplo, 1 João 1:8-9). Porém, isso pode gerar uma tremenda dureza de coração, especialmente em pessoas que repetidamente caem em pecados persistentes. Frequentemente, o arrependimento é puramente intelectual ou baseado apenas no medo das consequências. Sem uma convicção evangélica do pecado, nenhum arrependimento verdadeiro pode acontecer, e, portanto, nenhum enfraquecimento real do pecado ocorre. Richard Sibbes forneceu uma definição clássica puritana de arrependimento quando escreveu que ele não é “um mero abaixar da cabeça… tristeza que fará o pecado [em si] mais odioso para nós do que a punição, até que façamos uma santa violência contra ele”.62
Quando alguns afirmam que a abordagem de Owen criará uma “falta de autoestima”, um ódio a si mesmo, ignoram a diferença entre arrependimento legal e arrependimento evangélico (veja também os comentários úteis de Stephen Charnock).63 Owen explica que devemos levar nossos pecados à cruz e que qualquer um que pratique a mortificação deve ter uma consciência estruturada pelo evangelho da graça.
- Após carregar a consciência, deve-se recorrer às promessas escriturísticas de misericórdia e graça pelas quais Deus fala paz às nossas consciências. Isso se faz dirigindo a fé à morte, ao sangue e à cruz de Cristo.
“Ponha a fé em ação sobre Cristo… seu sangue é o grande remédio soberano… viva nisso, e morrerá vencedor; sim, pela boa providência de Deus, viverá para ver a tua luxúria morta aos teus pés… Aja com fé especialmente sobre a morte, sangue e cruz de Cristo; isto é, sobre Cristo crucificado e morto”.64
Devemos meditar simplesmente em Cristo crucificado não apenas para obter um senso de perdão, mas também para adquirir confiança de que, por causa do triunfo de Cristo, o pecado não terá e não tem domínio sobre nós. Isso nos concede graça e força para a santidade.65 E agora, por conta do trabalho prévio de carregar a consciência, encontraremos as doutrinas da graça, misericórdia e justiça imputada de Deus excitantes e confortadoras, como nunca seriam se tivéssemos apenas um senso superficial do nosso pecado. Elas nos encontrarão com amor a Deus e uma nova liberdade do pecado.
Owen ressalta que não devemos falar paz a nós mesmos antes que Deus o faça.66 A princípio, isso pode parecer que Owen está dizendo: “Você deve esperar algum tipo de experiência emocional de Deus para ser perdoado”. Isso não é verdade. Durante a mortificação, o crente não precisa duvidar da aceitação de Deus. Agora não há condenação para os que estão em Cristo Jesus (Romanos 8:1). Owen está dizendo que a mortificação é obra do Espírito Santo: ele é o único meio “eficiente” da mortificação.67 Não podemos mortificar o pecado por nós mesmos. Em outras palavras, é o Espírito que “traz a cruz de Cristo ao coração do pecador pela fé”68 com seu “poder de matar o pecado”. Portanto, não devemos apressar o término do processo de mortificação. Se dissermos que o processo terminou, quando ainda há pouca ou nenhuma humilhação, alegria ou liberdade experimentada, somos “auto-curadores”.69
- Devemos continuar vigilantes, descobrindo as “ocasiões de pecado”, as situações e condições que particularmente provocam o nosso pecado.70 Precisamos nos fortalecer contra elas. Isso significa que devemos trazer à tona aquilo que aprendemos por meio da mortificação “no segredo do quarto” e usar isso em nosso coração quando enfrentarmos as ocasiões de pecado no mundo. Devemos ensaiar aquilo que o Espírito nos revelou e nossa nova liberdade para guardar tanto o nosso coração (atitudes, pensamentos) quanto os nossos passos (ações) nessas situações.
- Devemos orar continuamente por um maior desgosto pelo pecado, assim como por um desejo ardente de livramento dele. Em outras palavras, orar por um arrependimento mais profundo: “seu coração se rompe em anseios numa expressão apaixonada de desejo por livramento”.71 Enquanto os quatro primeiros passos da mortificação ocorrem em tempos concentrados de oração, esses dois últimos acontecem constantemente e continuamente ao longo do dia.
Essa teologia puritana do pecado habitual, exposta de forma magistral por John Owen, tem muitas implicações para o aconselhamento. Ela lança luz sobre questões teóricas. Primeiro, vemos que os padrões de pecado arraigado e comportamentos viciantes possuem antecedentes. Existem raízes e causas por trás das ações que a pessoa pode trabalhar. Como nossa carne possui “formas” ou padrões, podemos chegar a nos conhecer e extirpar os motivos malignos aos quais somos mais propensos. Em segundo lugar, somos livres da noção de que o pecado é facilmente resolvido por arrependimento rápido e força de vontade. Ainda assim, também somos preservados da crença de que não somos responsáveis pelo nosso próprio comportamento. Terceiro, temos uma solução para a controvérsia sobre a “autoimagem”: devemos viver pela fé. A compreensão que a pessoa tem de si mesma deve ser reprogramada, mas não por meio de um inventário das suas “boas qualidades”.
Mas há também implicações práticas e metodológicas na visão dos puritanos sobre o pecado habitual. Pelos padrões modernos, qualquer pessoa que luta contra padrões profundos de gratificação própria ou vontade própria pode ouvir: “você não é responsável” ou “um cristão verdadeiro não sentiria isso” ou “você deve ter um demônio”. Contudo, Owen tanto encorajaria quanto advertiria a pessoa: “você tem um padrão da carne que só pode ser enfraquecido por meio de oração concentrada, obediência e da penetração da verdade do evangelho. Entretanto, a sua própria tristeza e pesar pelo pecado é um sinal maravilhoso de que o pecado não reina em você, você é um crente e, portanto, a força dessa particular escravidão pode ser vencida em Cristo”.
Qual é a minha evidência clínica de que o aconselhamento pastoral de Owen funciona? Eu o utilizei pessoalmente por muitos anos com grande proveito. E John Owen me aconselhou de maneira altamente eficaz em um período da minha vida em que ninguém mais poderia.
5. Os puritanos compreendiam o homem fundamentalmente como um ser que adora e enxergavam a imaginação idolátrica como a raiz dos problemas
Já vimos que os puritanos acreditavam que o aconselhamento pastoral deveria ajudar o crente (e o descrente) a detectar o pecado habitual, a fim de revelar os motivos e desejos subjacentes por trás do comportamento superficial. Também observamos que eles buscavam ajudar a pessoa a discernir os padrões ou “formas” da carne que a afetavam. Contudo, para entender melhor a abordagem puritana ao aconselhamento, devemos observar que eles consideravam o caráter essencial do pecado como sendo a ‘idolatria’ e a natureza fundamental do homem como um ser criado para adorar.
O coração como fábrica de ídolos
Stephen Charnock, em seus Discourses upon the Existence and Attributes of God (Discursos sobre a Existência e Atributos de Deus), expõe completamente a visão dos puritanos. Primeiro, ele escreve: “todo pecado é encontrado no ateísmo secreto… todo pecado é uma espécie de maldição contra Deus no coração; um intento de destruir a existência de Deus, não de forma atual, mas virtual… O homem, em todo pecado, visa estabelecer sua própria vontade como sua regra, e sua própria glória como o fim de suas ações…”.72 Todo pecado é um esforço para desviar a adoração de Deus para a adoração de si mesmo. Essa é a visão dos puritanos. Na base da natureza do homem não está alguma ‘necessidade’ fundamental por relacionamento, felicidade ou significado, mas sim uma necessidade de adoração. Ele deve adorar. Na raiz, o pecado é a auto-adoração.
Mais adiante, Charnock passa a tratar dos efeitos da autoconfiança ou auto-adoração. “O amor próprio desordenado é a primeira porta de entrada para toda iniqüidade. Assim como a graça é uma elevação de si mesmo para centrar-se em Deus, assim o pecado é um retraimento de Deus para o lodo de um egoísmo carnal… portanto, todos os pecados são bem chamados de ramos ou modificações desta paixão fundamental”.73 Em seguida, ele fundamenta essa afirmação. Demonstra que a ira descontrolada não é senão uma autodefesa orgulhosa, que a inveja é apenas um desejo egoísta de obter alegria às custas do outro, que a impaciência é uma exigência orgulhosa de soberania sobre a própria agenda, que a embriaguez é meramente autoindulgência, que o desejo por ‘autoestima’ é simplesmente um desejo orgulhoso de ter a si mesmo em posição mais elevada que os outros. “Pecado e eu são tudo um só. O que é chamado de pecado vivo em um lugar (Romanos 6) é chamado de viver para si mesmo em outro (I Coríntios 5:15)”.74
Devemos reconhecer que Charnock chama o pecado de amor próprio “desordenado”. Ele discute três tipos de “amor próprio”. Há um amor próprio “natural” que os humanos compartilham com todos os seres vivos. É uma preocupação não autoconsciente pela saúde e integridade, um afeto pela própria existência. Paulo refere-se a isso quando diz: “Nenhum homem jamais odiou o seu próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida” (Efésios 5:29). Isso não tem relação com ‘autoimagem’. Em segundo lugar, há um amor próprio “carnal”. Charnock diz que é “quando o homem se ama acima de Deus… quando nossos pensamentos, afeições, planos, se centram apenas em nosso próprio… interesse”. Este é o amor próprio natural que se torna “criminoso no excesso” sob a influência do pecado. Passamos a “esperar uma bem-aventurança de nós mesmos”, uma expectativa que está sempre destinada a ser frustrada.75
Por fim, existe o “amor próprio gracioso” que pode ser gerado pelo Espírito Santo. É “quando amamos a nós mesmos por fins mais elevados do que a natureza de uma criatura… [isto é] em submissão à glória de Deus”. Charnock afirma que o cristão foi criado para boas obras (Efésios 2:10) e, à medida que ele passa a ver isso como seu verdadeiro ‘fim’ ou propósito, torna-se satisfeito consigo mesmo.76 De modo algum isso parece ser o que muitos modernos chamam de ‘amor próprio’. É um estado de paz e satisfação que provém de um entendimento adequado de si mesmo, que se ajusta à nossa verdadeira natureza como servos.
Em seguida, Charnock discute o resultado dessa autoidolatria: “O homem faria de qualquer coisa seu fim e felicidade, antes de Deus”.77 Porque adoramos a nós mesmos, faremos de outros objetos além de Deus deuses, criando nossa própria ‘religião’ como modo de manter o controle de nossas próprias vidas.
Ele age como se algo inferior a Deus não pudesse fazê-lo feliz sem Deus, ou como se Deus não pudesse fazê-lo feliz sem a adição de algo mais. Assim, o glutão faz de suas iguarias um deus; o ambicioso, da sua honra; o incontínuo, da sua luxúria; e o avarento, da sua riqueza; e, consequentemente, os considera como seu maior bem e o mais nobre fim, ao qual dirige seus pensamentos. Desse modo, ele vilipendia e diminui o verdadeiro Deus, que pode fazê-lo feliz, trocando-o por uma multidão de falsos deuses, que só podem torná-lo miserável.78
Eis então a razão fundamental pela qual o nosso pecado que habita em nós apresenta diferentes formas: todos nós fabricamos ‘ídolos’ ou falsos deuses a quem nos prostramos. Temos a certeza de que eles nos trarão bem-aventurança, mas não podem. Charnock prossegue listando alguns dos ídolos comuns: riqueza mundana (materialismo), reputação mundana (idolatria do poder), prazer sensual (idolatria da gratificação física) e respeito humano (idolatria do amor e aprovação).
As implicações para o aconselhamento são óbvias. O próprio Charnock utiliza este modelo em seu trabalho pessoal. Em um sermão, Charnock adverte os ouvintes a extirpar o ‘pecado íntimo’:
Todos os homens adoram algum bezerro de ouro, erguido pela educação, costume, inclinação natural e coisas semelhantes… Quando um general é capturado, o exército foge. Este [o principal “ídolo”] é o grande rio, os outros [pecados] são apenas riachos que o alimentam… esta é a corrente mais forte na qual o diabo mantém o homem preso, a fortaleza principal… O Espírito convence dos pecados espirituais, e este é o grande trabalho… ele pressiona mais sobre os pecados espirituais, os primeiros movimentos, a autoestima exagerada de nosso próprio valor, o orgulho contra Deus, a incredulidade e semelhantes.79
Charnock reconhece que, por um lado, o(s) ídolo(s) central(is) de nossas vidas decorre(m) diretamente do nosso problema fundamental, a auto-adoração. Por outro lado, ele percebe que as formas particulares de nossos ídolos são moldadas por um complexo de fatores: educação, costumes e inclinações naturais. Em outras palavras, nossas inclinações genéticas, nossas experiências, nossa vida familiar, e assim por diante, têm um papel importante na formação de nossos problemas. Contudo, a servidão continua sendo o pecado; somos responsáveis por lidar com ele como pecado. Os puritanos demonstram, novamente, um equilíbrio e discernimento notáveis.
Então, quais são os motivos e desejos subjacentes por trás do nosso comportamento? Por que escolhemos os objetivos que escolhemos? Por que lutamos contra os problemas que enfrentamos? O que está “abaixo da linha d’água” (para usar a terminologia de Crabb)? Os puritanos responderiam: o homem é homo religiosus e cada pessoa está fabricando sua própria religião-idolatria particular. Estes devem ser identificados e erradicados por meio de um processo de mortificação.
Charnock não foi o único a dividir os ‘ídolos’ que estão por trás das motivações pecaminosas da vida e do comportamento pecaminoso externo. Vimos que Baxter delineou os “grandes pecados” ou idolatrias como orgulho, sensualidade, materialismo, hipocrisia, dureza de coração e agradar aos homens. Owen nomeia autoexaltação (idolatria do poder), sensualidade (idolatria do conforto) e incredulidade (autonomia da vontade). Embora as listas diferam em extensão, a mesma análise básica é compartilhada pela maioria dos divinos puritanos.
O poder da imaginação
Como os ídolos exercem seu poder eficiente sobre nossas vidas? Os puritanos novamente responderiam: “através da imaginação”. No incrédulo (como Owen nos ensina), a imaginação está completamente dominada pelo pecado que habita nele e por seus ídolos particulares.80 Contudo, no crente, a imaginação pode tornar-se controlada por ídolos e, assim, os pensamentos, afetos e ações são afetados.
Um dos primeiros puritanos a definir a “imaginação” foi Richard Sibbes (1577-1635). Ele escreveu que a imaginação é um “poder da alma” que se encontra “entre os nossos sentidos [de um lado] e o nosso entendimento [do outro]”. A função da imaginação “é ministrar matéria ao nosso entendimento para que ele trabalhe sobre ela”. Contudo, a imaginação pecaminosa “usurpa” e engana o entendimento.81 Charnock é mais específico, pois em um sermão ele afirma que a imaginação é o lugar da “primeira motivação ou formação” dos pensamentos. A imaginação…
… não foi um poder designado para o pensar em si, mas apenas para receber as imagens impressas nos sentidos e elaborá-las, para que pudessem ser matéria adequada para os pensamentos; e assim é o “tesouro” onde se depositam todas as aquisições dos sentidos, e de onde são recebidas pela faculdade intelectiva. De modo que os pensamentos têm início na imaginação, são consumados no entendimento e terminam em todas as demais faculdades; o pensamento gera opinião na mente; o pensamento incita a vontade a consentir ou discordar; é também o pensamento que anima os afetos.82
Façamos uma breve pausa para resumir o que está sendo afirmado. Os terapeutas cognitivos modernos veem o “pensar” como fundamental para o comportamento e os sentimentos. Se mudarmos o pensamento, podemos mudar os sentimentos e, assim, o comportamento — esse é o princípio dessa abordagem. Porém, os puritanos consideravam a imaginação, ainda mais fundamental que o pensamento, como o verdadeiro controle do comportamento. Imagine dois pensamentos assentados no intelecto: “Este pecado me fará sentir bem se eu o cometer” e “este pecado desagradará a Deus se eu o cometer”. Ambos são fatos na mente. Você crê em ambos como verdadeiros. Mas qual deles controlará o seu coração? Ou seja, qual deles capturará seu pensamento, suas emoções e sua vontade?
A resposta puritana: aquele que possuir a imaginação controlará a mente, a vontade e as emoções (os três serão dominados simultaneamente). A imaginação é aquilo que torna um pensamento “real” ou vívido. É a faculdade da apreciação e do valor. Assim, Sibbes pode afirmar que outro nome para “imaginação” é “opinião”.83 Ela evoca imagens. A partir da imaginação surgem os pensamentos, que iluminam a mente, agitam as emoções e movem a vontade a escolher. Pode-se esquematizar assim:
O engano do pecado
Como de costume, ninguém expressou isso de maneira mais clara e abrangente do que John Owen. Vimos como ele reconheceu que o pecado que habita em nós, com seus ídolos, nos influencia antes mesmo de cometermos qualquer ato pecaminoso. Owen também apresenta um esboço completo do que chama de “engano” do pecado — como ele opera para enganar, produzindo distorções e mentiras que se tornam a base para o comportamento pecaminoso. Trata-se da descrição mais clara de como o pecado utiliza a “imaginação” para conferir poder aos ídolos em nossas vidas.
Em primeiro lugar, Owen afirma que o pecado que habita em nós faz perder a apreciação tanto pela vilania do pecado quanto pela maravilha da graça.84 Em outras palavras, essas verdades perdem o domínio sobre nossa imaginação. Tornam-se abstrações, deixando de ser reais e vívidas. Perdem o que os puritanos chamam de “sabor” e tornam-se meras noções intelectuais. Quando isso ocorre, a oração e a meditação se tornam difíceis, e cessamos os esforços sérios para buscar o rosto de Deus.
Em segundo lugar, quando os pensamentos perdem o foco, os afetos arrefecem em relação a Deus. Já não nos encontramos tomados de amor, zelo, alegria ou humildade. Isso abre espaço na imaginação para que o pecado comece a ser apreciado. No momento em que a pessoa consegue conceber o pecado sem sentir repulsa, o crente “entrou na tentação”.85 E quando o pecado se torna positivamente desejável, então ele capturou a imaginação.86 Owen é extremamente elucidativo ao explicar a operação da imaginação por meio do termo bíblico “concupiscência dos olhos”:
Agora, não se trata do sentido corporal da visão propriamente dito, mas da fixação da imaginação a partir desse sentido sobre tais coisas. E isso é chamado de “olhos” porque, por meio deles, as coisas são constantemente representadas à mente e à alma, assim como os objetos externos são para o sentido interno por meio dos olhos. E, frequentemente, a visão externa dos olhos é a ocasião dessas imaginações. Assim, Acan declara como o pecado prevaleceu nele (Js 7:21). Primeiro, ele viu a barra de ouro e o vestido babilônico, e então os cobiçou. Ele rolou essas coisas — os prazeres, o proveito delas — em sua imaginação, e depois fixou seu coração em obtê-las. Ora, o coração pode ter uma detestação firme e resoluta do pecado; mas, se o homem percebe que a imaginação da mente é frequentemente instigada por ele e exercitada acerca dele, tal pessoa pode saber que seus afetos estão secretamente seduzidos e enredados.87
Essa é uma imagem vívida de como a imaginação opera! Ela “rola” os prazeres e os lucros, assim como a língua rola os alimentos para o paladar.
Agora, em terceiro lugar, uma vez que a imaginação é capturada, todo o coração se vê afetado. Owen, junto com todos os puritanos, ensina que o coração é o assento do homem inteiro — mente, vontade e emoções.88 Como a imaginação afeta todo o coração?
A vontade consente com aquilo que apresenta uma “aparência de bem, de bem presente”.89 Assim, neste estágio, podem ocorrer ‘argumentos mentais’ na mente. O crente começa a desenvolver racionalizações e razões para praticar o comportamento. O pecado “conversa… razões… seduz e atrai…”.90 As afeições são agitadas e inflamadas pela representação vívida do prazer do pecado. Mesmo nesse estágio, a ‘cadeia do engano’ pode ser interceptada se esses pensamentos forem reconhecidos como as mentiras que são, nascidas de uma imaginação pecaminosa. (As “artimanhas” de Thomas Brooks são uma lista das cerca de 60 mentiras mais comuns que ocorrem nessa fase da operação do pecado habitual). Contudo, se essa interceptação não ocorre rapidamente, o pecado irrompe em comportamento pecaminoso.
Mais tarde, após o pecado habitual desenvolver um padrão habitual, o ciclo pode ocorrer tão rapidamente que não há mais consciência das ‘etapas’, do “dialogar e seduzir”. Em vez disso, o comportamento irrompe de forma rápida e com pouca advertência.
A disciplina da mente espiritual
Como, então, a imaginação do cristão pode ser capturada para a justiça? Owen trata desse tema em sua obra sobre a “Mente Espiritual”. Trata-se, em essência, de um manual abrangente e sofisticado para a meditação cristã. A imaginação e os pensamentos devem ser programados com “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama” (Filipenses 4:8).
Owen acredita, contudo, que a reprogramação da imaginação não é meramente um exercício intelectual. Não consiste apenas no aprendizado de novas informações ou na passagem de pensamentos passageiros pela mente.
“Estar espiritualmente inclinado”; isto é, ter a mente transformada e renovada por um princípio de vida e luz espiritual, de modo que seja continuamente atuada e influenciada por ele para pensamentos e meditações sobre coisas espirituais, com as afeições a elas apegadas com deleite e satisfação.91
Tornar-se espiritualmente inclinado consiste, primeiramente, em um “exercício real da mente” sobre assuntos espirituais. Em outras palavras, embora estar espiritualmente inclinado seja mais do que aprender informações, não é menos que isso. Owen observa que alguns tentam ser espiritualmente inclinados sem estudo. Mas eles estão sem “conceitos racionais” e “não têm noções nas quais a fé ou a razão estejam envolvidas”. Nesses casos, “a imaginação deles tem algo que é grande e glorioso, mas o que é eles não sabem… quando suas imaginações oscilaram para cima e para baixo em todas as incertezas por um tempo, são engolidas pelo nada”.92
Porém, devemos ir além do mero estudo. Então, por meio da oração, meditação e aplicação, a operação real do Espírito Santo captura as “afeições” com as verdades da Palavra. Estar espiritualmente inclinado é encontrar aquele “gosto, sabor, aroma” nas verdades espirituais. “Há sal nas coisas espirituais, pelo qual elas são condicionadas e feitas saborosas para uma mente renovada; embora para outros sejam como a clara do ovo, que não tem gosto nem sabor… Noções especulativas sobre coisas espirituais, quando estão sozinhas, são secas, sem seiva e estéreis. Nesse gosto experimentamos que Deus é gracioso, e que o amor de Cristo é melhor que o vinho… Esta é a base própria daquela ‘alegria inefável e cheia de glória’”.93
O que significa ser “espiritualmente inclinado”? É viver em uma consciência santa, sendo profundamente tocado pela compreensão espiritual dos próprios privilégios e da posição em Cristo.
Uma vez que os conselheiros ajudem os aconselhados a identificar seus ídolos e as mentiras decorrentes que distorcem suas vidas, como podem ajudá-los a ‘vestir’ a espiritualidade, isto é, uma imaginação e vida de pensamentos fixados em Cristo? Muitos conselheiros ficam bastante perplexos diante dessa questão. Dizem aos aconselhados: “Você está aceito em Cristo”, para ouvir em resposta: “Mas eu não me sinto aceito!” A tentação é simplesmente advertir a pessoa a não se apoiar em seus sentimentos. Os puritanos também dariam esse conselho, mas não parariam por aí. Eles não buscavam meros ‘sentimentos’, mas reconheciam que a verdade precisa penetrar o coração para que haja crescimento real, e isso exige trabalho. Os conselheiros precisam aprender a comunicar-se de modo ‘imaginativo’ e concreto. É necessário usar ilustrações.
Sobre a importância das ilustrações, Richard Sibbes disse em uma introdução a outro livro: “Mas, porque o caminho para chegar ao coração muitas vezes passa pela fantasia [imaginação], esse homem piedoso se dedicava a usar representações vívidas para ajudar a fé das pessoas por meio da fantasia. Era o modo do nosso Salvador Cristo ensinar, expressando coisas celestiais em termos terrenos…”.94 Um puritano ainda mais antigo, William Ames, em The Marrow of Sacred Divinity, escreveu: “No que tange à forma da exposição, as Escrituras não explicam a vontade de Deus por regras universais e científicas, mas por narração, exemplos, preceitos, exortações, advertências e promessas; porque essa maneira é a que mais afeta a vontade e desperta noções piedosas, que é o principal objetivo da teologia”.
Reconhecendo que esses puritanos falavam sobre como pregar de forma imaginativa, devemos entender que o que eles afirmam é válido para todos os tipos de comunicação, incluindo o aconselhamento. A “arte da ilustração” não era mera ornamentação para os pregadores puritanos, mas central para sua filosofia de comunicação, a qual se baseava em sua compreensão da imaginação. Os melhores oradores puritanos literalmente pontilhavam seus discursos com imagens vívidas e metáforas brilhantes. A imaginação é o pensamento por meio da visão, distinguindo-se do raciocínio. Jonathan Edwards possuía uma teologia que unia esses dois aspectos (raciocínio e visão).
Em Religious Affections, Edwards aponta um sinal da experiência cristã verdadeira: “nossas mentes são tão iluminadas que adquirimos visões adequadas e espirituais das coisas divinas”.95 Edwards distingue dois tipos falsos de conhecimento espiritual. Por outro lado, “mero conhecimento especulativo” não está em vista. O conhecimento espiritual leva a mente “não apenas a especular, mas a sentir e saborear”.96 O conhecimento espiritual não é menos intelectual, mas está também “conectado às afeições”. Por outro lado, a mera imaginação não é conhecimento espiritual:
Por exemplo, quando uma pessoa é afetada por uma ideia vívida que surge subitamente em sua mente, como a imagem de um semblante muito belo, uma luz intensa ou alguma outra aparência extraordinária, algo é concebido na mente, mas não há nada da natureza de instrução. As pessoas não se tornam mais sábias por tais concepções, nem passam a conhecer mais sobre Deus…97
Dito isso, Edwards faz uma ressalva:
Não afirmo, entretanto, que não existam afeições espirituais que sejam acompanhadas por algo imaginário. Quando nossas mentes estão plenamente ocupadas e nossos pensamentos intensamente envolvidos, nossas imaginações frequentemente se tornam mais fortes e nossas ideias mais vívidas… Mas há uma grande diferença entre imaginações vívidas que surgem de afeições fortes e afeições fortes que surgem de imaginações vívidas. Sem dúvida, as primeiras existem frequentemente em muitos casos de verdadeira afeição graciosa. As afeições não surgem da imaginação, nem dependem dela; ao contrário, a imaginação é apenas um efeito acidental, ou consequência da afeição, devido à fraqueza da natureza humana. Porém, quando a afeição surge da imaginação e se fundamenta nela, em vez de se basear na iluminação espiritual, então tal afeição, por mais exaltada que seja, não tem valor.98
O que vemos aqui? Um refinamento muito mais cuidadoso e equilibrado das visões de Sibbes e Ames. Assim como Ames, Edwards entende que o objetivo da comunicação da verdade é afetar a “pessoa inteira”. Contudo, Edwards também é cuidadoso ao explicar que a imaginação deve estar fundamentada em uma visão iluminada da verdade bíblica. É possível fazer uma “volta por cima” da exposição da informação bíblica; podemos fornecer ilustrações extremamente vívidas e fortes que despertam apenas emoções, mas que não tocam o coração, o centro do nosso ser. Em vez disso, Edwards adverte que nossas imaginações devem surgir da compreensão espiritual da verdade.
Conselheiros bíblicos devem aprender a comunicar a verdade cristã de forma vívida! Eles devem ensinar e exortar, assim como ouvir.
6. Os puritanos consideravam a crença no evangelho como o remédio espiritual essencial, usado tanto no arrependimento quanto no desenvolvimento de uma correta compreensão de si mesmo
Este último ponto pode ser apresentado de forma concisa aqui, pois foi abordado ao longo deste artigo. Vimos que as pessoas aflitas precisam de um tratamento duplo: a mortificação e a “mente espiritual”. Mas esses são apenas dois modos de aplicar o evangelho ao coração da pessoa. Na mortificação, observamos que tanto a convicção do pecado quanto o conforto vêm de uma fé que fixa os olhos em Cristo crucificado. De fato, a mortificação é impossível a menos que a consciência seja sustentada pela convicção de que a salvação é estritamente pela graça, não por nossos próprios esforços ou mesmo pelo nosso arrependimento. Assim, Owen escreve: “o exercício diário da fé em Cristo crucificado. Este é o grande meio fundamental para a mortificação do pecado em geral”.99
Por outro lado, a “mente espiritual” nada mais é do que um constante exercício e deleite em nossos privilégios em Cristo: o acesso ao Pai, a filiação, uma herança que não pode ser perdida, nossa completa aceitação, assim como nossa justiça forense perante o Pai. Os crentes recebem poder, ousadia e alegria na medida em que compreendem a realidade de sua posição em Cristo. O poder do Espírito provém de encher a mente, refletir e agir em conformidade com nossa condição: ser filho, templo do Espírito Santo, rei assentado e reinante.
Por exemplo, Baxter observa que a depressão é causada pela “ignorância do teor do evangelho ou da aliança da graça… que nenhum pecado, por mais grave ou numerosos que sejam, está excluído do perdão…”.100 Ele prossegue discutindo o caso de uma pessoa que acredita que “se a sua tristeza não for tão apaixonada a ponto de produzir lágrimas e grande aflição, não é capaz de receber o perdão”. O problema dessas pessoas é que elas não consentem “em ser salvas nos termos da aliança dele”.101 Em outras palavras, é a autojustiça que mantém essas pessoas angustiadas.
Outro exemplo claro do uso do evangelho pelos Puritanos é dado por William Bridge em sua obra sobre depressão:
Quanto mais você for humilhado pelo amor e graça gratuitos de Deus, mais será humilhado e menos desanimado… Se você quiser ser verdadeiramente humilhado e não desanimar [ficar deprimido]… então rastreie todos os seus pecados até a sua incredulidade e deposite o peso e a ênfase de toda a sua tristeza nesse pecado… se alguém puder traçar cada pecado até a fonte, o pecado principal, ele será profundamente humilhado. Agora, qual é o grande pecado, a fonte do pecado, o pecado principal de todos os seus pecados, senão a incredulidade… se você puder apresentar a Deus à sua alma sob a noção de sua bondade geral, como bom em si mesmo, você jamais se desanimará, mas será verdadeiramente humilhado.102
Bridge relaciona todo pecado a uma incredulidade fundamental, uma recusa em aceitar o evangelho. O evangelho não nos torna relaxados; ele nos humilha diante do pecado. Contudo, ele nos protege do desânimo porque percebemos que nossos pecados estão cobertos.
William Gurnall oferece uma explicação detalhada de como o crente deve “dialogar consigo mesmo”:
Essa é a diferença entre um cristão e um pagão honesto. O pagão valoriza-se pela sua paciência, temperança, liberalidade e virtudes morais que possui em maior grau do que outros. Ele espera que essas qualidades o recomendem a Deus e lhe garantam felicidade após a morte; e nelas se gloria… Mas o cristão… tem o conhecimento de Cristo, cuja justiça e santidade, pela fé, tornam-se suas; e valoriza-se mais por estas do que pelo que há inerente nele mesmo…”.103
A justiça pelas obras está na raiz de toda a nossa idolatria. Portanto, é fundamental para lidar com toda idolatria penetrar a imaginação e o coração com o evangelho da justiça pela fé. A consciência humana está profundamente desordenada em sua crença de que devemos possuir nossa própria santidade e boas obras para sermos aceitáveis. A justiça pelas obras origina-se da raiz profunda da auto-adoração, um desejo de ser nosso próprio Deus.
Por exemplo, o ídolo do poder fala ao coração assim: “A vida só terá sentido, você só será uma pessoa valiosa se for popular e amado por essas pessoas”. Por trás de ambos os ídolos está um desejo rebelde básico de ‘ganhar’ nossa glória, significado e autoapreciação por nossos próprios esforços. O impulso para alcançar esses falsos objetivos é terrivelmente forte porque é adoração. Sentimos que devemos ter os ídolos ou morreremos. Somente o evangelho nos liberta da salvação por esforço próprio. Lovelace expressa a posição puritana sucintamente ao dizer: “A fé que… é capaz de se aquecer no fogo do amor de Deus, em vez de ter que roubar amor e autoaceitação de outras fontes, é na verdade a raiz da santidade…”.104
Um Modelo
Talvez agora seja possível reunir os diversos elementos da teologia puritana em um modelo de aconselhamento.
- O homem precisa adorar algo (Charnock).
- O pecado faz com que toda pessoa adore a si mesma, desejando “ser como Deus”, autossubsistente e independente. Os cristãos têm o pecado remanescente, que foi destronado, mas ainda busca capturar o coração para a auto-adoração. Eles também têm um “novo homem” criado pelo Espírito (Charnock).
- Embora cada um de nós busque a autoexistência, escolhemos diferentes caminhos para alcançá-la. Acreditamos que podemos atingir a autossuficiência por meio de um ídolo. Cada homem elabora uma religião idólatra própria, que é essencialmente auto-adoração e alguma forma de justiça pelas obras (Charnock). Três exemplos de formas idólatras da carne (Baxter) são:
- Idolatria do poder: “A vida só tem sentido / só tenho valor se eu tiver poder e influência sobre os outros”.
- Idolatria da aprovação: “A vida só tem sentido / só tenho valor se eu for amado / popular para…”
- Idolatria do conforto: “A vida só tem sentido / só tenho valor se eu tiver este tipo de prazer, esta qualidade de vida”.
- Os ídolos buscam controlar a pessoa capturando sua imaginação (Owen). Nossa carne característica se manifesta na consciência por meio de imagens mentais positivas de certas condições que acreditamos nos tornarão felizes e realizados. Nossos desejos ou “impulsos” em direção a esses objetivos são poderosos porque esses objetivos estão sendo adorados.
- A imaginação controlada pela carne produz distorções e mentiras sobre si mesmo, sobre o mundo, os relacionamentos humanos, Deus e a natureza das coisas (Brooks).
- As mentiras e distorções levam diretamente ao pecado grosseiro, à depressão, ao endurecimento do coração, à amargura e a toda sorte de comportamentos pecaminosos que conduzem a uma miséria ainda maior (Brooks).
- No nível mais profundo, os ídolos devem ser arrancados por meio de um processo de mortificação (Owen).
- No nível dos pensamentos, as mentiras devem ser substituídas pela meditação na verdade (Owen e Brooks). Esse é um procedimento que tanto conforta quanto confronta.
- No nível comportamental, a desobediência não deve ser tolerada. A vida santa é praticada por meio de disciplina e prestação de contas.
Os itens 7, 8 e 9 jamais devem ser separados uns dos outros. A fé na verdade do evangelho é a base de cada um deles. A fé não é simplesmente uma mudança de pensamento, mas uma combinação entre agir com base em uma verdade e incorporá-la à imaginação. Quando essa verdade “pega fogo”, ela resulta em iluminação da mente, convicção e alegria nas emoções, e então a mudança de comportamento ocorre naturalmente. Olhar com fé para Cristo é o único modo de destruir os anseios idólatras, pois então começamos a perceber que esses anseios eram caminhos ilegítimos de tentar nos tornar, por nós mesmos, aquilo que Cristo é por nós.
Algumas implicações para hoje
Os puritanos provavelmente não se sentiriam à vontade na maioria das “escolas” existentes no campo do aconselhamento evangélico. É provável que vissem alguns conselheiros como excessivamente preocupados em “aumentar a autoestima”, quando o principal problema do homem é a auto-adoração. Por outro lado, também não estariam de acordo com aqueles que ignoram completamente — ou até rejeitam — a importância de reprogramar o entendimento de si mesmo por meio da penetração da verdade do evangelho.
Provavelmente considerariam que muitos conselheiros bíblicos tratam os problemas de forma superficial demais, apenas exigindo arrependimento exterior e mudança de comportamento. Mas também se sentiriam bastante desconfortáveis com as abordagens de “cura interior”, que praticamente ignoram o comportamento e a necessidade de mortificação. Na verdade, os puritanos ficariam bastante insatisfeitos com a linguagem de “necessidades não satisfeitas”, pois, em última análise, criam que o homem não possui necessidades abstratas, mas apenas uma necessidade de adoração.
Como já afirmado anteriormente, os puritanos também não poderiam se alinhar com ninguém que enfatizasse os pensamentos, ou as emoções, ou a vontade (comportamento) em detrimento dos demais aspectos da alma, ou que considerasse qualquer uma dessas faculdades como mais fundamental do que as outras. Os puritanos trabalhavam o coração de maneira “holística”, por meio do ensino, da exortação e do consolo.
Não devo concluir sem observar que os puritanos também poderiam aprender conosco. Muitos puritanos temiam chamar não cristãos ao arrependimento imediato; foram culpados do que se chamou de preparacionismo. E muitos deles definiam a verdadeira espiritualidade em termos tão elevados que muitos cristãos mais fracos perdiam, desnecessariamente, sua segurança da salvação. Como disse um professor, a rede dos puritanos “pegava muitas baleias, mas deixava escapar muitos peixinhos”. No entanto, essas patologias não eram verdade de todos os puritanos na mesma medida e não anulam sua enorme contribuição.
Acima de tudo, o “espírito” dos puritanos se diferenciaria bastante do de muitos conselheiros de hoje. A maioria dos conselheiros evangélicos modernos simplesmente carece da firmeza, franqueza e urgência dos puritanos. A maioria de nós fala menos sobre o pecado do que nossos antepassados. Por outro lado, os puritanos eram, de maneira impressionante, ternos, encorajadores, sempre chamando os aconselhados a aceitarem a graça de Deus, e extremamente cuidadosos para não chamar algo de “pecado” sem uma análise criteriosa. Um de seus textos preferidos era: “A cana trilhada, não a quebrará, nem apagará o pavio que fumega” (Mateus 12:20).
Quando veremos outros como eles?
Referências:
- P. Lewis, O Gênio do Puritanismo (Haywards Heath: Carey Publications, 1975), p. 12. ↩︎
- Ibid. p. 13. ↩︎
- Citado em Daniel Webber, “O Pastor Puritano como Conselheiro”, em The Office and Work of the Minister (Conferência de Westminster, 1986), p. 84. ↩︎
- Citado em Ibid., p. 81 ↩︎
- Alexander B. Grosart, ed., The Works of Thomas Brooks, vol. I (Banner of Truth, 1980). Ver artifício II. I: “apresentando o mundo com tal aparência… para conquistar os afetos da alma”. ↩︎
- Ibid, Ver o dispositivo II.2: “apresentando-lhes os perigos, as perdas e os sofrimentos que não acompanham a realização de tais e tais deveres religiosos”. ↩︎
- Ibid, Ver o dispositivo II.5: “apresentando-lhes a escassez e a pobreza daqueles que andam nos caminhos de Deus”. ↩︎
- Ibid, Ver o dispositivo II.8: “levando-os a descansar em seus atos piedosos”. ↩︎
- Ibid, Ver o dispositivo II.4. Trata daqueles que usam a doutrina da perseverança dos santos como base para a negligência na vida cristã. ↩︎
- Ibid, Ver o dispositivo II.3: “apresentando à alma a dificuldade de praticá-los”. ↩︎
- Ibid, Ver o dispositivo III.7: “sugerindo à alma suas frequentes recaídas no mesmo pecado, que anteriormente ela havia combatido com particular tristeza, pesar, vergonha e lágrimas, contra o qual havia orado e se resolvido”. ↩︎
- Ibid, Ver o dispositivo III.1: “fazendo-os se concentrarem mais e meditarem mais em seus pecados do que em seu Salvador”. ↩︎
- Ibid, Ver o dispositivo I.3: “atenuando e diminuindo o pecado”. ↩︎
- Ibid, Ver o dispositivo III.2: “levando-os a formular definições erradas de suas graças”. ↩︎
- Ibid, p. 117-138. ↩︎
- Richard Baxter, “Quais são os melhores preservativos contra a melancolia e o excesso de tristeza?” em The Morning Exercises At Cripplegate, vol. 3 (Wheaton, IL: Richard Owen Roberts, 1981), p. 264-265. ↩︎
- Ibid, p. 265. ↩︎
- Ibid, p. 258. ↩︎
- Ibid, p. 258-259. Baxter fala sobre “a doença chamada ‘melancolia’”, à qual se referia como uma depressão causada por causas físicas. ↩︎
- Ibid, p. 259. ↩︎
- Ibid, p. 261. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Ibid, p. 262-263. ↩︎
- Ibid, ↩︎
- lbid, p. 262. ↩︎
- Ibid, p. 263. ↩︎
- Richard Lovelace, Dinâmica da Vida Espiritual (Downers Grove, IL: IVP), p. 143. ↩︎
- Brooks, op. cit. Ver o dispositivo I.3, 5, 6 e 11. ↩︎
- Ibid, Ver o dispositivo I.4,8,9,10,12. ↩︎
- Ibid, Ver o dispositivo I.1,2,7. ↩︎
- Ibid, p. 61-62. ↩︎
- Ibid, p. 111. ↩︎
- Ibid, p. 113. ↩︎
- Ibid, p. 31. ↩︎
- Ibid, p. 38. ↩︎
- Ibid, p. 47. ↩︎
- Ibid, p. 43. ↩︎
- Ibid, p. 61, 57. ↩︎
- O programa de 12 passos desenvolvido pelos Alcoólicos Anônimos e adaptado pelos Comedores Compulsivos, Jogadores, Usuários de Narcóticos e outros grupos anônimos chama o vício de doença e enfatiza que o indivíduo é impotente diante dele. Esse conceito remove o estigma dos vícios e facilita para que as pessoas aceitem sua vulnerabilidade. Os grupos anônimos permitem que você admita que é vulnerável e, além disso, oferecem uma base para perdoar a si mesmo e ser perdoado. Você pode se perdoar porque não é responsável (The Philadelphia Inquirer Magazine, 21 de fevereiro de 1988, p. 27). Até mesmo terapeutas seculares questionam a teoria da “doença” do vício. G. Alan Marlatt, professor de psicologia na Universidade de Washington em Seattle, preocupa-se com as implicações da noção de vício como uma doença, isto é, uma condição biológica arraigada. Isso, ele diz, transmite a mensagem de que pouco se pode fazer a respeito. Reforça a ideia de que o indivíduo que sofre recaídas é uma vítima impotente de circunstâncias além de seu controle (ibid., p. 27). ↩︎
- Design for Discipleship (Colorado Springs: Navpress, 1973). Os três capítulos referidos são: Livro 4, capítulo 3, sobre “Pureza de Vida” [Tentação], capítulo 5, sobre “Caráter em Ação” [Sofrimento], e Livro 5, capítulo 4, sobre “Guerra Espiritual”. ↩︎
- William Bridge, A Lifting Up for the Downcast (Edinburgh: Banner of Truth, 1961) ↩︎
- Estou em dívida nestes parágrafos com a análise de Sinclair Ferguson, John Owen on the Christian Life (Edimburgo: Banner of Truth, 1987), capítulo 6. ↩︎
- William Goold, ed., The Works of John Owen, vol. 7 (Edimburgo: Banner of Truth, 1965), p. 520. ↩︎
- Ibid, p. 522-523. ↩︎
- Ibid, vol. 6, p. 176. ↩︎
- Ibid, p. 164. ↩︎
- Lovelace, op. cit., p. 92. ↩︎
- Ibid, p. 30. “Como um homem pregado na cruz; ele primeiro luta, esforça-se e clama com grande força e vigor, mas, à medida que seu sangue e seus ânimos se esgotam, seus esforços tornam-se fracos e raros… quando um homem inicialmente enfrenta uma luxúria ou perturbação para combatê-la, ela luta com grande violência para se libertar; clama com intensidade e impaciência para ser satisfeita e aliviada; mas, quando pela mortificação o sangue e os ânimos são esvaídos, ela se move raramente e de forma débil…” ↩︎
- Ibid., vol. 7, p. 523. ↩︎
- Ibid, p. 526. ↩︎
- Ferguson, op. cit., p. 129. ↩︎
- Ibid., p. 128. ↩︎
- Ibid., p. 267f. ↩︎
- Ibid., vol. 6, p. 8. ↩︎
- Ibid., p. 35. ↩︎
- Ibid., p. 62. ↩︎
- Ibid., ↩︎
- Ibid., p. 43-45. ↩︎
- Ibid., p. 50-56. ↩︎
- Ibid., p. 58. ↩︎
- Ibid., p. 46. ↩︎
- Richard Sibbes, “The Bruised Reed and Smoking Flax,” Works, vol. 1 (Edimburgo: Banner of Truth, 1973), p. 47. ↩︎
- “Uma convicção legal nasce principalmente da consideração da justiça de Deus, e a convicção evangélica, do senso da bondade de Deus. A pessoa convencida legalmente clama: ‘Eu exasperei um poder que é como o rugido de um leão, uma justiça que é como a voz do trovão; provoquei aquele que é o Senhor soberano do céu e da terra, cuja palavra pode destruir os fundamentos do mundo com a mesma facilidade com que os estabeleceu.’ Esta é a convicção legal. Mas a pessoa convencida evangelicamente clama: ‘Eu incendeiei uma bondade que é como o orvalho que cai; ofendi um Deus que se comportava como um amigo…’ ‘Eu incurri na ira de um juiz’, diz o legalista; ‘Eu abusei da ternura de um pai’, diz a pessoa convencida evangelicamente”. Stephen Charnock, “A Discourse of Conviction Of Sin”, Works, vol. 4 (Edimburgo: Banner of Truth, 1985), p. 199. ↩︎
- Owen, vol. 6, p. 81,83. ↩︎
- Ibid, p. 79. ↩︎
- Ibid, p. 70. ↩︎
- Ibid., p. 16. ↩︎
- Ibid., p. 19. ↩︎
- Ibid., p. 71-76. ↩︎
- Ibid., p. 61-62. ↩︎
- Ibid., p. 60. ↩︎
- Stephen Charnock, Discourses upon the Existence and Attributes of God, vol. 1 (Grand Rapids: Baker, 1979), p. 93-94. ↩︎
- Ibid., p. 136. ↩︎
- Ibid., p. 137. ↩︎
- Ibid., p. 136. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Ibid., p. 142. ↩︎
- Ibid., p. 143. ↩︎
- Charnock, “A Discourse of Conviction of Sin”, op. cit. p. 193-195. ↩︎
- Owen, vol. 7, p. 520. ↩︎
- Sibbes, “The Soul’s Conflict with Itself, and Victory over Itself by Faith”, Works, vol. 1, p. 178, 180. ↩︎
- Stephen Charnock, “The Sinfulness and Cure of Thoughts”, em The Morning Exercises at Cripplegate, vol. 2, p. 387-389. ↩︎
- Sibbes, op. cit., p. 178. ↩︎
- Owen, vol. 6, p. 218-223. ↩︎
- Ibid., p. 97-98. ↩︎
- Ibid., p. 245-246. ↩︎
- Ibid., p. 246. ↩︎
- lbid., p. 170. ↩︎
- Ibid., p. 254. ↩︎
- Ibid., p. 97. ↩︎
- Ibid., vol.7, p. 270. ↩︎
- Ibid., p. 335. ↩︎
- Ibid., p. 270-271. ↩︎
- Works, Vol. I, p. 66. ↩︎
- Jonathan Edwards, Tratado sobre os Afetos Religiosos (edição da American Tract, reimpressão da Baker, 1982), p. 192. ↩︎
- Ibid., p. 199. ↩︎
- Ibid., p . 193-194. ↩︎
- Ibid., p. 212. ↩︎
- Owen, vol. 7, p. 527. ↩︎
- Ibid., p. 266. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Bridge, op. cit., p. 85-86. ↩︎
- William Gurnall, O Cristão com Toda a Armadura de Deus, vol. 2 (Edimburgo: Banner of Truth, 1964), p. 54. ↩︎
- Lovelace, op. cit., p. 213. ↩︎
Centro Cultural João Calvino
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