sábado , 7 março 2026

A Soberania de Deus e os Meios de Graça

A soberania de Deus se manifesta de várias maneiras nos meios de graça. Ele diz a essas águas do santuário, assim como disse às ondas do mar: “Até aqui você virá, e não além” (Jó 38.11). Às vezes, esses meios lavam apenas a sujeira do corpo e do exterior do homem, mas não a do espírito. O evangelho transforma interiormente alguns, mas em outros produz apenas uma mudança moral. Alguns são levados à convicção de pecado, mas não chegam à conversão. Uns experimentam apenas lampejos em suas consciências, enquanto outros sentem algo mais forte. Alguns continuam em profunda escuridão, mesmo ouvindo o evangelho todos os dias, mas depois de muito tempo de insensibilidade, acabam sendo despertados por sua luz e calor. Em certos momentos, ele sopra com tanta força que derruba o orgulho das pessoas e as coloca de joelhos, mesmo aquelas que antes o desprezavam no coração.

A razão disso não está no evangelho em si, que é sempre o mesmo, nem nas ordenanças, que são canais tão eficazes em um momento quanto em outro, mas na soberania divina, que as vivifica como quer e “sopra onde quer” (João 3.8). Às vezes, o evangelho conquista milhares de uma só vez (Atos 2.41), em outras ocasiões, mal atinge dezenas. Em certos momentos, a colheita é abundante mesmo com poucos trabalhadores; em outros, é escassa, ainda que haja muitos obreiros. Às vezes, os feixes são numerosos; em outras, mal se encontram espigas caídas. A rede do evangelho, por vezes, se enche com um único lançamento, e se enche a cada vez que é lançada; em outras ocasiões, muitos trabalham noite e dia e nada apanham. “E o Senhor acrescentava à igreja, dia após dia” (Atos 2.47).

A carruagem do evangelho nem sempre retorna com cativos presos aos seus lados. Às vezes, volta manchada e desprezada, trazendo em si as marcas do ódio do inferno, em vez de imprimir as marcas de sua própria beleza. Em Corinto, triunfou sobre muitos (Atos 18.10). Em Atenas, foi motivo de zombaria e colheu apenas alguns poucos frutos (Atos 17.32-34). Deus guarda para si a chave do coração, assim como a do ventre. Os apóstolos tinham autoridade para anunciar o evangelho e realizar milagres, mas sempre sob a condução divina. Era uma instrumentalidade válida enquanto assim lhe agradava, e segundo sua sabedoria. Nem sempre lhes era permitido operar milagres, nem lhes era garantido sucesso em cada pregação. Deus por vezes lhes confiava a chave, mas não para retirar mais tesouros do que os que ele havia determinado.

Há variedade no tempo da operação do evangelho: alguns se levantam de seus túmulos de pecado e leitos de letargia ao primeiro brilho deste sol, enquanto outros permanecem dormindo por mais tempo. Por que Deus não o inspira igualmente em todas as épocas, estabelecendo períodos distintos? É para mostrar sua liberdade absoluta.

E às vezes não experimentamos que, mesmo após as mais solenes preparações do coração, somos frustrados nas bênçãos que esperávamos? Talvez isso aconteça porque pensamos que as respostas divinas dependem de nossas preparações, mas Deus fecha o canal, e voltamos mais secos do que chegamos, para refutar nossa falsa opinião e preservar a honra da sua soberania. Às vezes, saltamos no ventre como João Batista ao ver a Cristo; outras vezes, permanecemos deitados preguiçosamente quando ele bate do céu. Às vezes a lã está seca e outras vezes molhada, e Deus retém o orvalho da manhã sobre ela. Os favos da sua palavra, assim como as gotas das nuvens, pertencem à sua realeza. A luz não brilhará no coração, mesmo que brilhe ao nosso redor, sem a ordem soberana daquele Deus “que ordenou que a luz resplandecesse das trevas” do caos (2 Coríntios 4.6).

Não se vê também essa variedade nas influências refrescantes da palavra? Às vezes, os argumentos mais fortes e as promessas mais claras não têm efeito algum para vencer as imaginações negras e desesperadas, enquanto depois uma palavra inesperada, que parecia ter menos poder do que todas as que passaram em vão, as afugenta. Os raciocínios da sabedoria caíram como flechas contra um muro de bronze, enquanto o discurso de alguém mais fraco teve eficácia. É Deus, pela sua soberania, que vivifica uma palavra e não outra. Às vezes, uma palavra secreta surge, que antes não se cogitava, como se caísse do céu, trazendo refrigério onde tudo o mais havia se mostrado vazio. Uma palavra de um príncipe soberano é um remédio maior do que todos os discursos de seus súditos sem ela. Qual é a razão dessa variedade, senão que Deus quer aumentar as provas da sua própria soberania; que, assim como faz parte do seu domínio criar a beleza do mundo, é igualmente seu criar a paz e a graça do coração? “Eu crio o fruto dos lábios, paz” (Isaías 57.19).

Aprendamos a partir disso a ter pensamentos de adoração, e não murmurações contra a soberania de Deus; a reconhecê-la com gratidão pelo que temos e a suplicá-la com santa submissão pelo que nos falta. Reconhecer Deus como soberano de modo dependente é o caminho para ser reconhecido por ele como seus súditos, de modo favorável.

Fonte: The Existence & Attributes of God, Discourse 13, pp. 1453-1455.

Sobre Stephen Charnock

Stephen Charnock (1628–1680) foi um teólogo puritano inglês, amplamente reconhecido por sua combinação de erudição doutrinária e fervor pastoral. Estudou em Cambridge e Oxford, atuou como capelão em Dublin e depois como co-pastor em Londres. Sua obra mais conhecida, A Existência e os Atributos de Deus, permanece como uma das mais profundas exposições teológicas sobre a natureza divina dentro da tradição reformada.

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