Se não está familiarizado com esses documentos, você precisa conhecê-los! Eles entregam, de maneira exemplar, uma combinação de teologia precisa, sabedoria pastoral e piedade pessoal que você raramente encontrará em qualquer lugar — e muito mais se encontra entre os documentos confessionais!
Se você conhece as Três Formas (ou se você pensa que conhece), você talvez se surpreenda ao aprender que elas possuem uma missiologia. Afinal, obras de missiologia geralmente afirmam que a Reforma não produziu missionários, mas apenas uma profunda “frieza em relação às missões”. Em vez disso, dizem eles, a era de missões iniciou com fervor apenas depois da publicação do livro Investigação sobre a Obrigação dos Cristãos de Usar Meios para a Conversão dos Gentios (1793), de William Carey, e somente no século XIX a missiologia começou a se desenvolver como uma disciplina separada. Em contraste a isso, as Três Formas nunca sequer mencionaram “missões” ou “missiologia”.
Preciso admitir que eu estava curioso sobre os tipos de argumentos que o autor estaria apto a demonstrar. Mas, quando o livro chegou, tive que segurar o riso. Talvez o tamanho — noventa e três pequenas páginas de texto — poderia sugerir que realmente não havia muito para se dizer a respeito desse assunto. Estou corrigido. Devo agradecer ao Ganhar Nossos Vizinhos para Cristo, pois agora me encontro lendo as Três Formas com maior clareza e, se posso dizer, com uma lente missiológica muito mais acurada. Pois o argumento basilar do livro é fascinante — mesmo que o argumento tenha plantado muito mais perguntas do que respostas em minha mente.
Permita-me recuar um pouco. Bredenhof faz duas coisas nesse livro. Primeiro, ele argumenta que entendemos errado (ou, melhor dizendo, falhamos em perceber) a missiologia contida em As Três Formas, porque a maioria dos leitores modernos tem uma compreensão diferente do que tinham os autores das Três Formas sobre o que missões, de fato, é. Aliás, sugere o autor, a antiga abordagem sobre missões é coerente, robusta e biblicamente fundamentada. Em segundo lugar, e consequentemente, porque seus documentos confessionais possuem uma agenda missiológica abrangente, as igrejas que os subscrevem devem refletir essa “orientação para o exterior” (p. 86). Se o primeiro ponto estiver correto, creio que o segundo, necessariamente, também estará.
Então, como Bredenhof releu as “antimissionais” Três Formas como textos missiológicos? A resposta é: escavando. Ele descobriu as camadas do sentido que estão escondidas em comentários e citações que costumamos ler superficialmente, deixando de perceber seu pleno significado. Ele explica que os autores e o público das Três Formas entendiam-se como vivendo no que hoje podemos chamar de um campo missionário ativo, composto de vizinhos que tinham sua fidelidade religiosa à teologia codificada no Concílio Católico Romano de Trento (1545-63). Por exemplo, o autor mártir da Confissão Belgica entendia “a fé Reformada como o único caminho para a salvação” e que “abandonar essa fé era estar perdido” (p.12). Portanto, confessar a verdade do evangelho junto da igreja era testemunhar o evangelho ao mundo e convidar aqueles que estavam fora para entrar.
Como isso sugere, Bredenhof argumenta que as Três Formas eliminam qualquer distinção significativa entre evangelização e missões (pp. XII-XIII). Com efeito, a razão pela qual não reconhecemos a agenda missiológica das Três Formas é porque tendemos a assumir que missões são ou estão tangencialmente relacionadas ao trabalho de igrejas “locais”, com seus presbíteros e diáconos e a membresia formal da igreja; ou, ainda, que tais estruturas não têm relação com o trabalho de missionários pioneiros solitários. Em contraste, a missiologia das Três Formas exige que a proclamação contínua do evangelho, pela Palavra e ação, tanto aos vizinhos mais próximos quanto a todas as nações do mundo, seja um trabalho da “igreja estabelecida” (p.37).
Infelizmente, o argumento de Bredenhof é muito resumido para demonstrar essa conclusão, e todo esse projeto merece muito mais desenvolvimento e contextualização do que tem. Mas, em defesa do autor, ele publicou um livro mais extenso, apenas sobre a Confissão Belga, no qual escavou esse documento de forma mais completa. Mesmo assim, muitas vezes, resta-nos a dúvida: se as Três Formas realmente motivaram os cristãos da era moderna, cuja teologia, piedade e prática foram moldadas por eles, a realizar atividade missionária para além das fronteiras neerlandesas.
Enquanto Bredenhof oferece diversos exemplos de missionários dos dias atuais usando as Três Formas em seu trabalho e, mesmo resumidamente, faz referência ao esforço holandês para proselitizar o Brasil no século XVII, as evidências apresentadas são pouco convincentes. Perguntamo-nos se as Três Formas realmente motivaram contemporâneos a espalhar o Evangelho até os confins da terra. (A propósito, elas motivaram… mas é uma história complicada, que envolve o papel dos holandeses na primeira grande onda de globalização, que ocorreu de 1450 a 1800.)
Então, o que devemos fazer com tudo isso? Oferecerei dois pontos principais, dignos de serem ponderados.
Primeiro, Bredenhof trouxe à tona questionamentos desafiadores sobre como nós temos conceitualizado missões e a Grande Comissão após a “grande era de missões mundiais”. Há muitas coisas boas a se dizer sobre William Carey, mas um dos infelizes (e não intencionais?) legados de sua investigação chocante é que isso gerou uma visão de missões que divide os esforços em: aqueles que são enviados e os que enviam — os missionários verdadeiros e aqueles que ficam em casa fazendo sua parte ao ofertar dinheiro e orações. Bredenhof, de modo proveitoso, lembra-nos que a igreja como um todo é chamada para confessar a Cristo diante dos nossos vizinhos, a fim de que possamos ganhar alguns (I Cor. 9.22).
Em segundo lugar, muitos de nós, no ocidente, temos recentemente percebido o quão distante nossa própria sociedade está dos fundamentos cristãos. O que parecia ser um lento desvio de rota, repentinamente tomou velocidade de modo inesperado e desconfortável. Fico impressionado com o fato de que, nisso, somos mais parecidos com nossos antepassados do século XVI do que nós poderíamos imaginar. Eles também despertaram ao se encontrarem cercados pela oposição ao evangelho. O sucesso deles, ao navegar naquelas águas traiçoeiras, está intimamente ligado ao fato de que suas igrejas produziram e se uniram em torno de documentos confessionais, como as Três Formas de Unidade. Tais documentos funcionaram como uma regra de fé, uma clara articulação do coração da mensagem apostólica evangélica em seu contexto. Nós faríamos bem ao seguir o exemplo deles. Analisemos, portanto, outra vez, esses documentos da Reforma e vejamos se eles não nos auxiliam a testemunhar coletivamente onde estamos, tanto os que estão em casa quanto os que estão longe.
Tradução: Matheus Rodrigues
Centro Cultural João Calvino