Eles foram preparados para uma disputa pública realizada em 29 de janeiro de 1523, na cidade de Zurique, onde Zuínglio exercia o ofício de pastor principal desde 1519, e foram defendidos vitoriosamente por ele, na presença do magistrado civil e de cerca de seiscentas pessoas. […] Esses Artigos se assemelham às Noventa e Cinco Teses de Lutero, que deram início ao drama da Reforma na Alemanha, […] mas representam um avanço considerável na convicção protestante. Estão repletos de Cristo, como único Salvador e Mediador, e reconhecem claramente a Palavra de Deus como a única regra de fé. […] São breves e, nesse aspecto, assemelham-se aos Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, sendo mais adequados para uma confissão de fé do que as extensas confissões daquela época. Contudo, nunca tiveram autoridade além do âmbito local.1
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Os artigos e opiniões abaixo, eu, Ulrico Zuínglio, confesso ter pregado na digna cidade de Zurique, com fundamento nas Escrituras, que são chamadas inspiradas por Deus. Comprometo-me a defender e sustentar os referidos artigos e, onde não tiver compreendido corretamente as ditas Escrituras, permitirei que me ensinem melhor, mas somente com base nas referidas Escrituras.
1. Todos os que afirmam que o Evangelho não tem validade sem a confirmação da Igreja erram e blasfemam contra Deus.
2. A essência e a substância do Evangelho consistem nisto: nosso Senhor Jesus Cristo, o verdadeiro Filho de Deus, revelou-nos a vontade de seu Pai celestial e, por sua inocência, livrou-nos da morte e reconciliou-nos com Deus.
3. Portanto, Cristo é o único caminho para a salvação de todos os que existiram, existem e existirão.
4. Quem procura ou aponta outra porta está errado; sim, é assassino de almas e ladrão.
5. Portanto, todos os que consideram outros ensinamentos iguais ou superiores ao Evangelho estão errados e não sabem o que é o Evangelho.
6. Pois Jesus Cristo é o guia e líder prometido por Deus a todos os seres humanos, promessa essa que foi cumprida.
7. Ele é a salvação eterna e a cabeça de todos os crentes, que são o seu corpo, o qual está morto e nada pode fazer sem ele.
8. Disso decorre, em primeiro lugar, que todos os que permanecem na cabeça são membros e filhos de Deus. Essa é a Igreja ou comunhão dos santos, a noiva de Cristo, Ecclesia catholica.
9. Além disso, assim como os membros do corpo nada podem fazer sem o comando da cabeça, também ninguém no corpo de Cristo pode fazer o mínimo que seja sem sua cabeça, Cristo.
10. Assim como é louco o homem cujos membros tentam fazer algo sem a cabeça, dilacerando-se, ferindo-se e causando dano a si mesmos, também são loucos os membros de Cristo que empreendem algo sem sua cabeça, Cristo, pois prejudicam a si mesmos e se sobrecarregam com ordenanças insensatas.
11. Portanto, vemos nas ordenanças clericais, assim chamadas, concernentes à sua pompa, riquezas, categorias, títulos e leis, a causa de toda insensatez, pois elas não estão em conformidade com a cabeça.
12. Assim, eles ainda se enfurecem, não por causa da cabeça (pois, nestes tempos, alguém se empenha em apresentá-la pela graça de Deus), mas porque não se permite que continuem enfurecidos e se procura obrigá-los a ouvir a cabeça.
13. Quando se dá ouvidos a ela (a cabeça), aprende-se clara e abertamente a vontade de Deus, e o homem é atraído a Cristo pelo seu Espírito e transformado nele.
14. Portanto, todos os cristãos devem empenhar-se ao máximo para que o Evangelho de Cristo seja pregado igualmente em toda parte.
15. Pois é na fé que reside a nossa salvação, e na incredulidade, a nossa condenação, porque nele toda a verdade é clara.
16. No Evangelho, aprende-se que as doutrinas e os decretos humanos não contribuem para a salvação.
Sobre o papa
17. Cristo é o único sumo sacerdote eterno. Disso decorre que aqueles que se intitularam sumos sacerdotes se opuseram à honra e ao poder de Cristo; mais ainda, usurparam-nos.
Sobre a missa
18. Cristo, tendo oferecido a si mesmo em sacrifício uma única vez, é, por toda a eternidade, um sacrifício seguro e válido pelos pecados de todos os fiéis. Disso decorre que a missa não é um sacrifício, mas uma recordação do sacrifício e uma garantia da salvação que Cristo nos concedeu.
19. Cristo é o único mediador entre Deus e nós.
Sobre a intercessão dos santos
20. Deus deseja conceder-nos todas as coisas em nome de Cristo. Disso decorre que, nesta vida, não necessitamos de outro mediador além dele.
21. Quando oramos uns pelos outros na terra, fazemo-lo de tal modo que cremos que todas as coisas nos são concedidas somente por meio de Cristo.
Sobre as boas obras
22. Cristo é a nossa justiça. Disso decorre que as nossas obras, na medida em que são boas, procedem de Cristo; mas, na medida em que são nossas, não são justas nem boas.
Sobre os bens eclesiásticos
23. Cristo despreza os bens e a pompa deste mundo. Disso decorre que aqueles que acumulam riquezas para si em seu nome o difamam terrivelmente, fazendo dele um pretexto para sua avareza e obstinação.
Sobre a proibição de certos alimentos
24. Nenhum cristão está obrigado a fazer aquilo que Deus não ordenou. Portanto, pode-se comer todo tipo de alimento em qualquer tempo. Disso se conclui que o decreto acerca do queijo e da manteiga é uma fraude romana.
Sobre os dias santos e as peregrinações
25. O tempo e o lugar estão sob a jurisdição do povo cristão, assim como o próprio ser humano. Disso se conclui que aqueles que determinam o tempo e o lugar privam os cristãos de sua liberdade.
Sobre os capuzes, as vestes e as insígnias
26. Nada desagrada tanto a Deus quanto a hipocrisia. Disso se conclui que tudo o que consiste apenas em ostentação diante dos homens é grosseira hipocrisia e devassidão. Sob essa condenação estão os capuzes, as insígnias, os distintivos e coisas semelhantes.
Sobre as ordens e as seitas
27. Todos os cristãos são irmãos de Cristo e irmãos uns dos outros, e não devem constituir para si nenhum pai na terra. Sob essa condenação estão as ordens religiosas, as seitas, as irmandades e outras semelhantes.
Sobre o casamento dos eclesiásticos
28. Tudo o que Deus permitiu ou não proibiu é lícito; portanto, o casamento é permitido a todos os seres humanos.
29. Todos os que são chamados clérigos pecam quando não se resguardam por meio do casamento, depois de reconhecerem que Deus não lhes concedeu a capacidade de permanecer castos.
Sobre o voto de castidade
30. Aqueles que prometem castidade [fora do matrimônio] assumem, de maneira insensata ou infantil, um compromisso excessivo. Disso se conclui que aqueles que fazem tais votos atentam contra a piedade.
Sobre a excomunhão
31. Nenhuma pessoa em particular pode excomungar alguém; somente a Igreja, isto é, a congregação na qual vive aquele que será excomungado, juntamente com seu supervisor, ou seja, o pastor, pode fazê-lo.
32. Somente aquele que causa escândalo público pode ser excomungado.
Sobre os bens adquiridos ilicitamente
33. Os bens adquiridos de maneira injusta não devem ser destinados a templos, mosteiros, catedrais, clérigos ou freiras, mas aos necessitados, caso não possam ser restituídos ao legítimo proprietário.
Sobre o poder civil
34. O chamado poder espiritual não encontra, no ensino de Cristo, nenhuma justificação para sua pompa.
35. O poder civil, porém, encontra autoridade e confirmação nas obras e na doutrina de Cristo.
36. Todo o poder e toda a autoridade que o chamado estado espiritual reivindica para si pertencem ao poder civil, caso seus representantes desejem ser cristãos.
37. Além disso, todos os cristãos devem obediência às autoridades civis, sem exceção,
38. desde que elas não ordenem nada que seja contrário a Deus.
39. Portanto, todas as suas leis devem estar em conformidade com a vontade divina, a fim de protegerem os oprimidos, mesmo que estes não apresentem queixa.
40. Somente as autoridades civis podem aplicar legitimamente a pena de morte, e apenas contra aqueles que causam escândalo público (desde que não se ordene outra coisa quando Deus não tiver sido ofendido).
41. Se as autoridades civis aconselharem e auxiliarem devidamente aqueles pelos quais devem prestar contas a Deus, estes, por sua vez, devem prestar-lhes auxílio material.
42. Se, porém, forem infiéis e transgredirem as leis de Cristo, poderão ser depostas em nome de Deus.
43. Em suma, o governo daquele que governa exclusivamente em nome de Deus é o melhor e mais estável; o pior e mais instável é o daquele que governa segundo a própria vontade.
Sobre a oração
44. Os verdadeiros suplicantes clamam a Deus em espírito e com sinceridade, sem fazer grande alarde diante dos homens.
45. Os hipócritas agem de modo a serem vistos pelos homens e, assim, recebem sua recompensa nesta vida.
46. Portanto, deve-se concluir que o canto e os clamores na igreja, quando desprovidos de devoção e realizados apenas em busca de recompensa, visam à fama diante dos homens ou ao ganho material.
Sobre o escândalo
47. Antes de ofender ou escandalizar um cristão, o homem deve estar disposto a sofrer a morte corporal.
48. Aquele que, por insensatez ou ignorância, se escandaliza sem motivo não deve ser deixado enfermo ou debilitado, mas deve ser fortalecido, para que não considere pecado aquilo que não é pecado.
49. Não conheço escândalo maior do que não permitir que os sacerdotes tenham esposas, mas permitir que mantenham prostitutas. Vergonha!
Sobre a remissão dos pecados
50. Somente Deus perdoa os pecados por meio de Jesus Cristo, seu Filho e nosso único Senhor.
51. Quem atribui essa prerrogativa às criaturas subtrai a honra de Deus e a concede àquele que não é Deus. Isso é verdadeira idolatria.
52. Portanto, a confissão feita ao sacerdote ou ao próximo não deve ser considerada remissão dos pecados, mas apenas uma busca por aconselhamento.
53. As obras de penitência prescritas segundo o conselho dos homens, excetuada a excomunhão, não cancelam o pecado; são impostas como ameaça aos outros.
54. Cristo suportou todas as nossas dores e fadigas.
Portanto, quem atribui às obras de penitência aquilo que pertence a Cristo erra e blasfema contra Deus.
55. Quem pretende perdoar qualquer pecado a uma pessoa arrependida não seria vigário de Deus nem de São Pedro, mas do diabo.
56. Quem perdoa qualquer pecado apenas por dinheiro é companheiro de Simão e Balaão, e verdadeiro mensageiro do próprio diabo.
Sobre o purgatório
57. As verdadeiras Escrituras divinas nada dizem acerca do purgatório após esta vida.
58. Somente Deus conhece a sentença dos mortos.
59. E quanto menos Deus nos permitiu conhecer a esse respeito, menos devemos pretender conhecê-lo.
60. Não condeno aquele que sinceramente suplica a Deus que tenha misericórdia dos mortos. Contudo, determinar um período de tempo para isso (sete anos por um pecado mortal) e mentir em busca de lucro não é algo humano, mas diabólico.
Sobre o sacerdócio
61. As Escrituras nada dizem acerca da consagração que os sacerdotes receberam em tempos recentes.
62. Além disso, elas não reconhecem outros sacerdotes senão aqueles que proclamam a Palavra de Deus.
63. As Escrituras ordenam que lhes seja prestada honra, isto é, que lhes seja provido o sustento material.
Sobre a abolição dos abusos
64. Todos os que reconhecerem seus erros não devem ser submetidos a sofrimento, mas deixados morrer em paz e, depois, dispor de seus legados à Igreja de maneira cristã.
65. Quanto àqueles que não quiserem confessar seus erros, Deus provavelmente cuidará deles.
Portanto, não se deve usar de força contra seus corpos, a menos que se comportem de maneira tão criminosa que isso se torne indispensável.
66. Todos os superiores eclesiásticos devem, imediatamente, estabelecer-se e, em unanimidade, erguer a cruz de Cristo, e não os cofres de dinheiro; caso contrário, perecerão, pois eu lhes digo que o machado já está posto contra a árvore.
67. Se alguém desejar conversar comigo a respeito dos juros, dos dízimos, das crianças não batizadas ou da confirmação, estou disposto a responder.
Que ninguém procure argumentar aqui com sofismas ou insensatez humana, mas recorra às Escrituras e as aceite como juiz (foras cares!; as Escrituras respiram o Espírito de Deus), para que a verdade seja encontrada ou, uma vez encontrada, como espero, seja preservada. Amém.
Assim, que Deus governe.
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Texto: Os Sessenta e Sete Artigos de Ulrico Zuínglio (1523), traduzidos por Samuel Macauley Jackson em Selected Works of Huldreich Zwingli (Filadélfia: University of Pennsylvania, 1901). Os títulos temáticos de Jackson foram mantidos. Preparado e formatado original para publicação na web por Reformed Dogmatika.
Referências:
- Tradução para o português por Frankle Brunno, baseada na edição inglesa disponibilizada por Reformed Dogmatika, intitulada “The Sixty-Seven Articles of Zwingli”, disponível em: https://reformeddogmatika.com/zwingli-sixty-seven-articles/
- Philip Schaff, The Creeds of Christendom, vol. 1, § 51, “Zwinglian Confessions. The Sixty-Seven Articles”. ↩︎
Centro Cultural João Calvino