Os cristãos são pessoas das Sagradas Escrituras. Ordenamos nossa vida e nossas crenças de acordo com os ensinamentos das Escrituras. Como corretamente pergunta e responde o Breve Catecismo de Westminster: “Que regra Deus nos deu para nos dirigir na maneira de glorificá-lo e gozá-lo?” “A Palavra de Deus, que se acha contida nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, é a única regra para nos dirigir na maneira de glorificá-lo e gozá-lo”. As Escrituras são a única regra. Essa verdade está no centro da fé protestante. Sem esse princípio, todo o edifício da Reforma desmorona.
É importante observar que os reformadores defendiam o princípio da sola Scriptura, e não o da solo Scriptura. A solo Scriptura defende um individualismo radical que rejeita a igreja, os credos, as confissões de fé e a tradição, negando-lhes qualquer autoridade, ao mesmo tempo que coloca o juízo individual acima de tudo. Essa visão radicaliza a ética protestante e a enfraquece. Tal abordagem não encontra respaldo nos ensinamentos dos reformadores nem na igreja primitiva. Em contrapartida, os reformadores ensinavam o Credo dos Apóstolos e se firmavam nas verdades articuladas nos Concílios de Calcedônia e de Niceia. Martinho Lutero, João Calvino, John Knox, Heinrich Bullinger e Martin Bucer escreveram catecismos e confissões de fé para seus fiéis. Eles consideravam uma teologia contrária aos credos e às confissões de fé anticristã. Nenhum dos proeminentes reformadores protestantes defendeu a solo Scriptura.
Por outro lado, todos eles eram defensores fervorosos da sola Scriptura. A sola Scriptura reconhece a autoridade da igreja e de sua tradição, incluindo os credos e as confissões de fé, mas sempre de maneira subordinada às Escrituras e somente na medida em que estejam de acordo com elas. R. C. Sproul é bastante esclarecedor ao explicar o lugar que a sã tradição eclesiástica ocupa na posição da sola Scriptura, quando afirma:
Embora a tradição não determine nossa interpretação, ela a orienta. Se, ao ler uma determinada passagem, você chegar a uma interpretação que passou despercebida a todos os outros cristãos durante dois mil anos, ou que tenha sido defendida por hereges universalmente reconhecidos como tais, é bastante provável que seja melhor abandonar sua interpretação. (The Agony of Deceit, p. 34–35.)
As confissões de fé e os credos ortodoxos articulam a fé de maneira abrangente e estabelecem limites importantes para identificar o que as Escrituras ensinam.
A história nos ensina que, quando a igreja se esquece de que somente as Escrituras são necessárias e suficientes, ela perde seu alicerce e começa a ruir.
Dessa forma, a tradição, incluindo nossos credos e confissões de fé, desempenha um papel importante na fé cristã. Por exemplo, o Credo dos Apóstolos há muito é reconhecido pela igreja como um resumo dos elementos essenciais da fé cristã. Ele articula as verdades fundamentais da ortodoxia. Credos e confissões de fé mais abrangentes procuram expressar o que a Bíblia inteira ensina sobre determinado assunto ou sobre um conjunto de assuntos. Isso é necessário porque é impossível recorrer a uma única passagem ou a um único livro da Bíblia para definir o batismo, a oração, a expiação ou qualquer outra doutrina. Um credo ou uma confissão de fé, porém, pode detalhar o que a Bíblia inteira ensina, em seu conjunto, sobre um tema teológico específico.
Mas, mesmo recorrendo à tradição, devemos sustentar que as tradições só têm valor na medida em que estão de acordo com a Bíblia. Essa verdade fundamental orienta o modo como as utilizamos. Somente a Bíblia serve como nossa bússola. Ela possui autoridade infalível e exclusiva sobre nossa vida, pois somente ela é a Palavra de Deus. E somente ela é isenta de erros. Portanto, quando nossas tradições, nossos credos e nossas confissões de fé estiverem em desacordo com as Escrituras, deverão ser rejeitados; quando estiverem de acordo com elas, nós os abraçamos e os consideramos úteis para nossa vida cristã. Compreender essa distinção é de importância fundamental.
A igreja de cada geração precisa de uma renovação na doutrina da sola Scriptura. A história nos ensina que, quando a igreja se esquece de que somente as Escrituras são necessárias e suficientes, ela perde seu alicerce e começa a ruir. De muitas maneiras, a tradição da igreja nos lembra dessa verdade. Na verdade, elementos da tradição, como os credos e as confissões de fé, procuram promover a verdade bíblica. Portanto, confessemos e utilizemos esses recursos, mas reconheçamos que eles só serão proveitosos na medida em que promoverem os ensinamentos das Escrituras. As Escrituras julgam nossas tradições — nunca o contrário.
Centro Cultural João Calvino