sábado , 7 março 2026

A Forma do Verdadeiro Culto

A atração de muitos protestantes pelo culto do catolicismo romano ou da ortodoxia oriental é um tema que necessita de grande atenção em nossos dias. Há uma série de pressupostos que impulsionam essa atração e que exigem esclarecimento e perspectiva histórica quanto ao culto protestante e às suas origens. Muitos dos que se sentem atraídos pela ortodoxia oriental ou pelo catolicismo romano passaram a crer que os protestantes iniciaram uma nova tradição de culto que apaga toda a história desde o tempo dos apóstolos até 1517. Além disso, certos apelos ao princípio regulador do culto, oriundos da tradição reformada, podem deixar a impressão de que o século XVI foi a primeira vez na história em que o verdadeiro culto começou a existir.

Ademais, a frustração de muitos com a igreja evangélica moderna — sua ruptura com a igreja antiga, sua falta de uniformidade e sua inundação por modismos mundanos e entretenimento consumista — tem gerado tamanho esgotamento que muitos se dispõem a “atravessar o Tibre” em busca de um culto repleto de ritos que faça Deus parecer-lhes tão autenticamente próximo quanto ele teria sido para os apóstolos, assim se supõe. É precisamente essa tática que ambas as tradições utilizam para seduzir muitos a se afastarem do protestantismo. Tanto o catolicismo romano quanto a ortodoxia oriental reivindicam uma sucessão ininterrupta de tradição litúrgica fundada por Jesus. E essa suposição — frequentemente não respondida — tem sido um grande atrativo para ambos os grupos em seu recente aumento de convertidos. Considere a seguinte descrição feita por um convertido à ortodoxia oriental:

Durante meu primeiro ano na faculdade, eu frequentava uma igreja reformada nas manhãs de domingo e uma igreja católica romana nas noites de domingo. Minha teologia ainda era reformada, mas eu ansiava por um culto rico, litúrgico e saturado das Escrituras. Encontrei a ortodoxia oriental e soube imediatamente que era ali que eu pertencia. A insatisfação geral com o evangelicalismo levou-me a buscar a igreja histórica da liturgia e dos sacramentos. E, embora o cristianismo reformado por vezes possua esses elementos, encontrei sua plenitude apenas dentro da igreja ortodoxa.

Podemos, de fato, simpatizar com aqueles que se encontram exaustos diante da abordagem irreverente e superficial do culto no evangelicalismo, muitas vezes desvinculada de quaisquer laços históricos com a igreja antiga. Todavia, profundamente enraizado no culto da ortodoxia oriental e do catolicismo romano — em meio ao fascínio de sinais da cruz, cânticos, genuflexões, veneração de ícones e relíquias e queima de incenso — encontra-se um problema que os próprios apóstolos condenaram diretamente no culto a Deus: a idolatria. Alguns evangélicos podem recorrer a luzes e fumaça, mas substituí-las por cheiros e sinos medievais não é solução alguma. É precisamente aqui que o culto reformado oferece uma resposta sólida à tentação dessas práticas, não como algo que tenha se originado no tempo da Reforma, mas como algo recuperado da tradição apostólica que nos foi transmitida.

Delírios de grandeza

Há grande sobreposição entre o culto do catolicismo romano e o da ortodoxia oriental. A ortodoxia oriental afirma que sua “liturgia divina” é algo praticado diretamente desde a ascensão de Cristo. A liturgia divina possui duas partes: a liturgia dos catecúmenos e a liturgia dos fiéis. Na primeira parte, há leituras das Escrituras, homilias, orações, liturgias cantadas e leituras de salmos e hinos. Na segunda parte, há uma série de ladainhas, orações e cânticos, a recitação do Credo Niceno e a celebração da santa comunhão. De modo semelhante à ortodoxia oriental, o catolicismo romano sustenta que sua liturgia da Missa foi instituída diretamente por Cristo na Última Ceia. Ela consiste em quatro partes: ritos iniciais, a liturgia da Palavra, a liturgia da Eucaristia e os ritos finais. Distribuídos ao longo dessas quatro partes encontram-se leituras das Escrituras, confissão de pecados, uma homilia, a celebração da Eucaristia e, ao final, exortações e bênçãos.

O culto reformado nos provê tudo o que é necessário para a comunhão com o Cristo ressurreto.

Muitos dos elementos básicos do culto protestante estão presentes em ambas essas tradições litúrgicas. As diferenças cruciais, contudo, estão longe de ser difíceis de identificar. Desde o Concílio Vaticano II, na década de 1960, o catolicismo romano passou por uma espécie de reforma litúrgica. Houve maior ênfase no que se conhece como mistagogia, isto é, uma adaptação da Missa com o objetivo de incentivar uma participação mais plena e consciente do fiel nos mistérios da fé. De modo semelhante, aquilo que se denomina apofatismo na ortodoxia oriental promove uma comunhão mais íntima com Deus por meio da contemplação mística, como caminho para a obtenção da união com o Deus triúno. Para fomentar essa comunhão com Deus, ambas as tradições incorporam a veneração de ícones e empregam imagens de Maria, de anjos e de santos a fim de inspirar tal proximidade com Deus. Ambas sustentam que o pão e o vinho são, de algum modo, transformados no próprio corpo e sangue de Cristo. Ambas utilizam a beleza exterior como meio para alcançar uma união mais profunda com Cristo.

O catolicismo romano recriou a estrutura do templo da antiga aliança, com um altar, um espaço separado à maneira do Santo dos Santos e o uso de incenso, tudo com o propósito de reencenar o sacrifício de Cristo como o “Verbo feito carne” diante dos adoradores na Eucaristia. De modo semelhante, a ortodoxia oriental explora a beleza da arte bizantina e a aparência distintiva dos sacerdotes, entre outros elementos, a fim de proporcionar uma experiência sensorial no culto que inspire a consecução da deificação com o divino. Tais práticas não são apostólicas; antes, nos fornecem, em nossos dias, uma aplicação direta da advertência dos escritores bíblicos de que esse retorno, no culto, aos tipos e sombras da antiga aliança nega o sacrifício único e definitivo de Cristo, e de que a tentativa de trazer Cristo até nós por meio da mera beleza, de modo que ele seja adorado através de ícones, constitui precisamente aquele culto inventado que os apóstolos condenaram (Rm 10.5–13; Cl 2.23; Hb 10.29). É por essa razão que o Catecismo de Heidelberg condena a Missa romana como idolatria (P&R 80).

A beleza do culto reformado

Por tempo demais, os protestantes têm travado as chamadas “guerras do culto” tendo em vista apenas os evangélicos que lutam para apreciar as ricas tradições litúrgicas ao longo da história da Igreja. Os desafios atuais, porém, apresentam uma oportunidade singular para que os protestantes recuperem a beleza de sua própria e rica tradição litúrgica. Nós a possuímos, e ela é, de fato, antiga. É de suma importância compreender que os Reformadores jamais se viram como iniciadores de uma nova tradição no que diz respeito à liturgia. Antes de tudo, buscaram recuperar as tradições bíblicas e apostólicas que haviam sido corrompidas nos períodos que antecederam a Reforma. Eram profundamente versados nos pais da Igreja primitiva e entendiam a Reforma como a restauração daquelas práticas bíblicas que promoviam a simplicidade de um ministério da Palavra e dos sacramentos, algo que criam, de modo pleno, estar no cerne do culto da Igreja antiga. O rompimento ocorrido na Reforma não foi em relação àqueles elementos antigos e essenciais do culto que sustentavam a Palavra e o sacramento, mas, sim, em relação à idolatria que se havia entrelaçado a esses elementos. Os Reformadores não rejeitaram a beleza; rejeitaram-na como algo que media diretamente a presença de Cristo. Apreciavam a beleza na simplicidade. Ícones, relíquias, veneração de santos, culto a Maria e aos anjos, e até mesmo a concepção de Cristo transubstanciado na Ceia eram por eles vistos como uma negação do Cristo ressurreto, que deve ser adorado no céu. Ambas as tradições, cada uma à sua maneira, trazem o céu para a terra, minando o chamado a viver pela fé até que ela se torne visão na glória. Os Reformadores, ao contrário, enfatizaram a obra do Espírito, que eleva o povo do Senhor para, pela fé, comungar com o Cristo ressurreto, que está assentado nos céus, à direita de Deus.

A Palavra e os sacramentos, fielmente administrados, suprem tudo o que é necessário para ministrar o perdão dos pecados e atender às necessidades dos verdadeiros adoradores. Cristo, segundo criam os Reformadores, aproximou-se de nós na Palavra e no sacramento. A longa tradição bíblica de idolatria foi, para eles, advertência suficiente de que o uso de outros meios, contrários à instituição divina, promoveria a idolatria no culto. Por isso, os Reformadores deram grande atenção ao segundo mandamento, que condena todo culto que não esteja de acordo com a Palavra de Deus.

O culto reformado sempre foi moldado segundo as liturgias mais antigas da Igreja primitiva. As liturgias produzidas na época da Reforma estão muito mais alinhadas com os pais da Igreja do que aquelas do catolicismo romano e da ortodoxia oriental. Possuímos evidência direta, proveniente dos primeiros pais da Igreja e de concílios, de que o uso de imagens era expressamente proibido na Igreja antiga. Os escritos cristãos mais antigos do período pós–Novo Testamento que tratam do culto, como a Didaquê e a Primeira Apologia de Justino Mártir, falam de elementos como leituras das Escrituras, oração, pregação, cânticos e a Ceia do Senhor, com pouca diferença em relação a uma liturgia reformada comum. Horton Davies apresenta algumas das primeiras liturgias reformadas em sua obra The Worship of the English Puritans. Considere, por exemplo, a La Forme de Calvino, em Genebra, 1542: sentenças das Escrituras, confissão de pecados, salmo métrico, oração por iluminação, leitura das Escrituras (NT), sermão, Pai-Nosso, Credo Apostólico, salmo métrico e a bênção aarônica. Impressiona tanto a simplicidade da liturgia quanto a sua correlação direta com os elementos do culto praticados pela Igreja primitiva.

Aqueles que se sentem atraídos pelo culto do catolicismo romano ou da ortodoxia oriental encontrarão pouco fundamento para a ideia de que essas tradições ofereçam uma autenticidade mais bíblica e mais antiga no culto do que aquilo que a Reforma recuperou. O Salmo 115.8 nos lembra que aqueles que fazem ídolos e neles confiam “tornam-se semelhantes a eles”. O nosso culto molda as nossas crenças acerca de quem Deus é e de quem nós somos. O culto reformado é belo e plenamente satisfatório. Por meio do ministério da Palavra e do sacramento, Cristo está próximo de nós, à medida que somos elevados a ele pela obra do Espírito.

O culto reformado nos provê tudo o que é necessário para a comunhão com o Cristo ressurreto. Talvez o que mais se faça necessário às igrejas reformadas diante desses desafios seja simplesmente apegar-se firmemente aos princípios que nos foram legados e não adaptar a própria tradição litúrgica sob a pressão do evangelicalismo. Isso pode muito bem constituir um dos testemunhos mais eficazes para aqueles que estão em busca de um culto antigo e apostólico.

Sobre Christopher J. Gordon

O Rev. Christopher J. Gordon é pastor sênior da Escondido United Reformed Church, em Escondido, Califórnia, e apresentador do programa Abounding Grace Radio. É autor de The New Reformation Catechism on Human Sexuality.

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