Argumento 1. Doutrinas que se apoiam numa falsidade notória e que, em última instância, dependem dela não podem ser um caminho seguro para a salvação. Ora, tais são as doutrinas que chamamos de papismo. Logo, o papismo não é um caminho seguro para a salvação.
Quanto à premissa menor, os próprios papistas admitem que suas doutrinas se apoiam e dependem da doutrina da infalibilidade do papa, ou, ao menos, da infalibilidade de seus concílios. Que tal doutrina seja uma falsidade notória é algo evidente, tanto pelas suas próprias histórias — que registram papas e concílios que erraram — quanto pela confissão interna deles mesmos. Pois enquanto uma parte admite que o papa pode errar (como os franceses), a outra sustenta que um concílio pode errar (isto é, os italianos e espanhóis). Ademais, o próprio papa Adriano VI — cuja palavra, neste caso, pode ser tomada como testemunho contra si mesmo — expressou por escrito o seu juízo, reconhecendo que um papa pode errar.
Argumento 2. Os papistas não estão de acordo entre si — nem o clero nem os leigos — quanto aos próprios fundamentos da sua fé, isto é, quanto às doutrinas que eles mesmos declaram necessárias para a salvação. Pois afirmam que devemos receber tanto a fé quanto as Escrituras com base na autoridade da Igreja infalível; contudo, não estão de acordo entre si, nem jamais estiveram, sobre o que seja essa Igreja infalível: se reside no papa, ou em um concílio, ou em ambos conjuntamente.
Argumento 3. O papismo é um caminho para o céu recentemente inventado, tal como os apóstolos jamais conheceram, nem a Igreja depois deles por muitos séculos — ao menos em seus elementos principais. Portanto, não pode ser um caminho seguro para a salvação.
Argumento 4. Os papistas são os maiores cismáticos da terra, pois de modo gravíssimo dilaceram a Igreja, separando-se do seu corpo principal e lançando os fundamentos de um cisma permanente ao instituírem uma nova cabeça e um novo centro de unidade da Igreja. Pois, durante muitos séculos após Cristo, a Igreja Católica consistiu naquele corpo de cristãos que estava unido somente em Cristo, o Cabeça, mantendo comunhão nos fundamentos da fé e do culto, e não possuía nenhuma cabeça ou centro moral visível. Foi apenas a grandeza mundana da cidade de Roma que deu ocasião à usurpação do seu bispo, o qual passou a querer fazer de si mesmo o centro da unidade e a cabeça universal. E não é este o mais vil dos cismas de que homens podem ser culpados?
Argumento 5. A doutrina do papismo diminui a autoridade da Palavra escrita de Deus e estabelece os decretos dos homens acima dela, concedendo-lhes poder para contradizer até mesmo as suas mais explícitas ordenanças. Portanto, não pode ser um caminho para a salvação.
Argumento 6. O papismo é idolatria, pois ensina os homens a prestar culto divino à criatura, como à hóstia ou ao pão consagrado na missa. É verdade que eles nos dizem que já não se trata de pão, mas do corpo de Cristo; contudo, isso não passa de uma ficção. Considerem-se as seguintes razões: se o pão fosse realmente o corpo de Cristo, então Cristo possuiria dois corpos reais ao mesmo tempo — um sensível e outro insensível — e, além disso, os apóstolos teriam dilacerado a verdadeira carne de Cristo e derramado o seu sangue, assim como o fizeram os judeus. Disso ainda se seguiria que o corpo glorificado de Cristo seria corruptível, podendo ser digerido pelo estômago humano e tornar-se pecaminoso ao integrar-se como parte natural de um pecador. Pois o pão e o vinho nos alimentam e se transformam em nossa própria substância; daí também decorreria que uma criatura — o padeiro ou o sacerdote — poderia “fazer” Deus. Seguir-se-ia ainda que as Escrituras não seriam verdadeiras, as quais testificam que Cristo permanece no céu até a restauração de todas as coisas (Atos 3:21), além de muitas outras absurdidades abomináveis.
Argumento 7. A doutrina do papismo ensina os homens a converter a maior parte do culto a Deus em meras cerimônias irracionais e formalidades vãs, inventadas pelos homens. E quem pode imaginar que o Deus santo e bendito se deleite em vãs balbúrdias, cânticos infantis, repetições artificiais de palavras e no simples dizer e ouvir daquilo que nem sequer se compreende?
Argumento 8. O papismo é sustentado, na maioria das vezes, por meios profundamente perversos e abomináveis. Pois a própria causa pela qual tanto lutam é o fausto, a grandeza e o domínio — sim, a tirania — neste mundo. Assim, é evidente que o que os move é o orgulho, a vanglória e a cobiça; e, para manter essas coisas, não se importam em lançar mão de qualquer perversidade. Entre tais meios estão a concessão de indulgência aos pecados mais vis, a fabricação de milagres, a invenção de mentiras escandalosas e, quando têm poder, o massacre daqueles que lhes resistem.
Argumento 9. Se toda aquela parte do mundo cristão que esteve fora do alcance do Império Romano jamais se submeteu à soberania do papa, então ele nunca foi, sucessivamente nem em tempo algum, a cabeça real da Igreja universal. Ora, é certo que vastos números de cristãos — entre os indianos, abissínios, poloneses, moscovitas e em outras regiões — jamais se submeteram a tal autoridade. Portanto, o papa nunca foi a cabeça real da Igreja universal.
Argumento 10. A regra ou critério da fé dos papistas jamais teve existência real, nem sucessão desde os apóstolos; e, portanto, ou a sua fé e a sua igreja nunca tiveram existência real, ou então nunca possuíram tal sucessão. Pois eles afirmam que a regra da fé consiste ou nos concílios gerais, ou no papa, ou naquilo que chamam de “igreja essencial”, isto é, o corpo inteiro da Igreja. Se a regra forem os concílios gerais, então estes não tiveram existência desde o tempo dos apóstolos até o Concílio de Niceia; logo, durante todo esse período, a regra da fé papista simplesmente ainda não existia. Além disso, a verdade é que tais concílios jamais tiveram existência real no mundo, pois o Concílio de Niceia esteve longe de ser universal, uma vez que contou apenas com um ou dois bispos que não pertenciam ao Império; e, desde os dias dos apóstolos até hoje, nunca houve nada que se assemelhasse a um concílio geral verdadeiramente livre. Se, por outro lado, o papa for a regra da fé, então essa fé foi interrompida — e até transformada em heresia e incredulidade — sempre que o próprio papa assim se desviou. Por fim, se a regra for a maioria da Igreja universal, é sabido que dois contra um se opõem a eles, ou ao menos a maior parte, se incluirmos, como devemos, a Igreja grega e todos os demais que professam o cristianismo no mundo; portanto, segundo essa própria regra, a crença na soberania papal é falsa. E, além disso, seria algo absurdo exigir que um homem permanecesse sem fé até conseguir submeter o mundo inteiro a uma votação.
Argumento 11. Se os sentidos são falíveis ou infalíveis, então o papa é falível; ora, os sentidos são ou falíveis ou infalíveis; logo, conclui-se que o papa é falível. A consequência prova-se da seguinte maneira: se os sentidos forem falíveis, então o papa não pode ser infalível, nem tampouco toda a sua igreja; pois, nesse caso, os sentidos deles, assim como os dos apóstolos e de todos os seus seguidores, teriam de ser igualmente falíveis. Mas, se os sentidos forem infalíveis, então ainda assim o papa e os seus concílios o são, pois os sentidos comuns de todos os homens em pleno uso da razão reconhecem como pão e vinho aquilo que eles expressamente afirmam — como artigo de fé obrigatório — não ser nem pão nem vinho.
Razões para afastar qualquer homem ponderado do papismo.
Razão 1. A fé ou religião dos papistas, tal como eles próprios a descrevem, está tão distante de qualquer infalibilidade que se mostra inteiramente incerta, ininteligível e marcada por contradição e confusão. Trata-se de algo mutável, de tal modo que nenhum homem sabe com segurança se a possui ou não, nem quando a possui em sua totalidade; e, ainda assim, quem quer que a possua tem, sem dúvida, uma mistura confusa de verdade e falsidade.
Razão 2. O papado, que eles tomam como aquilo que dá essência à sua igreja, é uma usurpação horrenda da prerrogativa própria de Cristo, bem como de um ofício cuja função está incomparavelmente acima do poder e da capacidade de qualquer homem mortal: cuidar de todas as almas existentes sobre a terra e governar até mesmo os antípodas e aquelas regiões do mundo das quais ele não possui qualquer conhecimento.
Razão 3. Esse mesmo papado constitui também uma usurpação arrogante do poder legítimo de todos os príncipes cristãos e de todos os pastores, isto é, de uma autoridade sobre eles que jamais foi concedida por Cristo. Ele estabelece um reino dentro de outro reino e retira dos pastores o poder que Cristo lhes conferiu sobre os seus respectivos rebanhos.
Razão 4. A igreja deles é frequentemente, em sua própria essência, impura, herética e perversa, porque o papa — que constitui uma parte essencial dessa igreja — muitas vezes o é. Por isso, ela não pode ser a Santa Igreja Católica. Pois concílios inteiros, após exame formal, julgaram alguns de seus papas como hereges, cismáticos, adúlteros, blasfemos e semelhantes. Ora, não pode ser santa uma igreja cuja parte essencial é tão manifestamente ímpia.
Razão 5. A doutrina deles não é apenas contrária a muitos textos claros e expressos da Sagrada Escritura, mas também contradiz a si mesma, visto que um papa e um concílio decretaram certa coisa, enquanto outro papa e outro concílio estabeleceram precisamente o contrário.
Razão 6. A religião deles tende fortemente a mortificar o cristianismo e a transformá-lo numa imagem morta, ao destruir grande parte de sua vida e de seu poder espiritual; isso se dá ao favorecer a ignorância, ao manter as Escrituras sob restrição, ao promover uma devoção cega e ao reduzir a fé a formalidades externas.
Razão 7. Eles defendem a existência de uma igreja que jamais teve realidade no mundo: a saber, uma igreja composta por todos os cristãos sob a chefia de um único papa. Pois nunca houve tempo algum em que todo o mundo cristão o tenha reconhecido como seu cabeça, nem jamais foi governado por ele, nem o é até hoje.
Razão 8. Eles ferem gravemente as Santas Escrituras, como se Jesus Cristo, bem como os Profetas e os Apóstolos, nesses registros sagrados, não tivessem nem capacidade nem vontade de falar de modo inteligível e claro, nem de transmitir adequadamente as doutrinas necessárias à salvação. Assim, apresentam seus volumosos concílios como mais inteligíveis e suficientes, como se tivessem feito melhor aquilo que Deus já havia feito. E, ao passo que os homens deveriam apenas discernir a lei de Deus e julgar as causas à luz dessa lei, eles se fazem juízes da própria lei, pela qual, no último dia, eles mesmos haverão de ser julgados.
Razão 9. Todo protestante piedoso e sincero pode estar tão certo de que o papismo é falso quanto está de que ele próprio é sincero, ama a Deus e está verdadeiramente disposto a obedecê-lo. Nenhum homem pode tornar-se papista sem entrar em contradição consigo mesmo, se for de fato um verdadeiro cristão e um homem honesto. Pois, ao tornar-se papista, ele confessa implicitamente que antes era um hipócrita de coração falso, visto que é parte essencial do papismo crer que ninguém está em estado de salvação senão os súditos do papa ou os membros da igreja papal; e, por conseguinte, que nenhum outro possui fé verdadeira, arrependimento genuíno ou amor real a Deus. Portanto, todos os que conhecem o próprio coração e sabem que estão verdadeiramente devotados a Deus estão seguros contra o papismo. E, sendo reconhecido por ambas as partes que ninguém deve ou pode tornar-se papista senão homens ímpios e hipócritas, não é de admirar que tais pessoas sejam enganadas pelas mais grosseiras imposturas e acabem abandonando a Deus, depois de já o terem abandonado em seu coração.
Para concluir este escrito, resta ainda um argumento particularmente grave contra o papismo: seus adeptos não defendem sua causa como outras partes, apenas com a palavra, mas instigando príncipes e Estados contra nós, e disputando não com razões, mas com a fogueira ou com o machado nas mãos. Assim, se não tivermos argumentos capazes de enfrentar uma marinha, um exército ou uma conspiração de pólvora, ainda poderemos acabar sendo vencidos por eles. O que rogo ao Senhor, pelo bem da Igreja e pela honra do Evangelho, que ele misericordiosamente impeça.
Centro Cultural João Calvino