As palavras devem sempre ser ensinadas e aprendidas junto com as coisas, assim como o vinho é comprado e vendido com o barril que o contém, a espada com a sua bainha, a árvore com a sua casca e o fruto com a sua pele. Pois o que são as palavras senão as bainhas e as capas protetoras das coisas?1
Quando se trata de educação, por onde devemos começar? Ensinando regras abstratas ou exemplos concretos? Procedendo dedutivamente a partir de princípios universais ou construindo indutivamente a partir de fenômenos particulares? Ministrando aulas teóricas a uma sala de estudantes passivos ou convidando-os a imitar ativamente o material por si mesmos? E quanto ao ensino do latim? Devemos apresentar uma série de preceitos gramaticais a serem memorizados mecanicamente por meio de quadros e cânticos concisos, ou devemos primeiro introduzir o vocabulário básico e, então, de forma mais gradual, a gramática?
João Amós Comênio, teólogo reformado tcheco do século XVII, pedagogo e teórico da educação, oferece-nos percepções singulares ao abordar essas questões cruciais. Embora largamente desconhecido ou pouco apreciado em nossos dias, Comênio gozou de renome internacional em sua época, sendo autor de literalmente centenas de obras em tcheco e em latim, incluindo o mais inovador livro didático ilustrado para crianças de seu tempo, Orbis Sensualium Pictus (O Mundo das Coisas Sensíveis em Imagens). (Infelizmente, muitas das obras de Comênio não chegaram até nós, e apenas uma fração delas está facilmente acessível em tradução para o inglês). Comênio tem sido lembrado como um defensor da importância do jogo na aprendizagem infantil (incluindo a recitação de pequenas dramatizações), assim como da educação universal para ambos os sexos.2 De particular interesse aqui, contudo, são suas percepções sobre a pedagogia do latim e a reforma educacional.
O estado do ensino do latim na época de Comênio era, de fato, deplorável. Por uma má aplicação do ideal humanista renascentista de ad fontes, os novos alunos de latim eram expostos quase imediatamente aos autores romanos originais — em particular, às cartas de Cícero e às Églogas de Virgílio — “após receberem um trivial prelúdio de preceitos gramaticais”.3 Além disso, o pouco que os alunos aprendiam de latim era adquirido principalmente por meio de memorização descontextualizada e de ditos banais na língua vernácula, e não pelo uso ativo do material destinado a aprofundar a compreensão do latim enquanto idioma próprio.4 Comênio condena veementemente esse método, sustentando que tais professores “estão pedindo a pintinhos sem penas que voem pelas alturas; ordenando a cachorrinhos que ainda aprendem a correr que ataquem feras adultas; exigindo de potrinhos recém-nascidos, cujas pernas ainda não são firmes, que puxem carroças carregadas com pesos — isto é, exigindo algo impossível ou, no mínimo, risível”.5 Ao introduzir prematuramente os antigos em suas próprias palavras, os professores submetiam os alunos — meros iniciantes tanto em latim quanto na vida real — a material muito além de suas capacidades naturais. Apesar de todas as boas intenções, estavam, na prática, rebaixando os estudantes ao status de meras estátuas—incapazes de articular compreensão do conteúdo e paralisados pelo medo e pela indecisão — ou de papagaios — imitando as palavras dos professores sem verdadeira compreensão.
Tal era o mal-estar educacional na época de Comênio. Mas qual era a cura que ele propunha? Sem de forma alguma negar ou trivializar a importância de ler os antigos no latim original ou de ensinar regras e preceitos gramaticais, Comênio insiste que a verdadeira educação deve proceder do conhecido para o desconhecido; do mais familiar para o menos familiar; de imagens, objetos e exemplos concretos para princípios e paradigmas abstratos. No que diz respeito à pedagogia do latim, isso significa começar pelo vocabulário básico (especialmente substantivos e verbos tangíveis) e frases simples, antes de introduzir sistemas gramaticais aprofundados e materiais mais complexos. A verdadeira educação, portanto, relaciona-se tanto com as coisas ou realidades (res) que estão sendo ensinadas quanto com as palavras ou sistemas linguísticos (verba) que exprimem essas coisas. Como disse Comênio, “o que são as palavras senão as bainhas e capas protetoras das coisas?” O erro fundamental dos opositores de Comênio estava, então, em separar as palavras dos antigos (e da gramática latina) das coisas que essas palavras deveriam representar. Ao fazê-lo, os professores privaram os alunos do verdadeiro conhecimento tanto das palavras quanto das coisas: venderam-lhes bainhas sem espadas, casca sem árvores, peles sem frutos.
Portanto, a utilidade do latim (e de toda verdadeira educação) está em nos colocar em contato com o mundo das coisas. Mas quais são as coisas que o latim nos capacita a ver e compreender particularmente no mundo? Primeiro, há, obviamente, as res Romanae (coisas romanas ou antigas). Não é surpresa que o mundo romano fosse, em muitos aspectos, muito diferente do nosso. Agricultura, navegação, astronomia, tecidos, ferraria, caça, mitologia grega: os romanos tinham contato diário com tais coisas, enquanto nós, modernos, raramente (ou nunca) as experimentamos diretamente. O latim, assim, nos coloca em diálogo com um povo antigo, com experiências e costumes próprios, cujo modo de ver o mundo frequentemente desafia e refina a nossa própria compreensão.
Mais importante, contudo, o latim nos expõe ao mundo das res humanae (coisas humanas ou universais). Não há nada de novo debaixo do sol, e embora muitos dos elementos da vida cotidiana tenham mudado dramaticamente ao longo de dois milênios, o que significa ser humano, em sua essência, não mudou. Por exemplo, ao apresentar estudantes de graduação aos autores romanos originais, tenho frequentemente o prazer de testemunhar o brilho nos olhos deles, exclamando: “Eles também viam as coisas assim? Também notavam isso nas pessoas? Também acharam essa piada engraçada?” Assim, enquanto o latim desafia algumas de nossas suposições modernas sobre a realidade, ele igualmente confirma e reforça muitas outras.
Agora, alguém poderá objetar: “Mas não é verdade que toda língua revela algo de nossa humanidade compartilhada? Por que não aprender grego ou hebraico, ou mesmo mandarim, italiano ou alemão?” Embora seja verdade que todas as línguas possam abrir alguma dimensão das res humanae, mais do que qualquer uma dessas línguas, o latim é distintamente nosso. Como Tim Griffith, chefe do Departamento de Línguas da NSA, demonstrou recentemente em um manifesto sobre línguas clássicas, o latim fez mais para moldar a cultura, a civilização, a imaginação e a literatura ocidentais do que qualquer outra língua na história. De fato, até bem avançado o século XIX, o latim era a língua universal da academia, assim como da teologia — e não apenas entre os católicos romanos.
E isso nos leva à maior utilidade do latim: abrir o mundo das res Christianae (coisas cristãs ou sagradas). Seja por meio da Vulgata de Jerônimo, do Novo Testamento de Beza ou do Antigo Testamento de Junius/Tremellius, o latim nos concede acesso às Escrituras na língua histórica da igreja ocidental, e de uma perspectiva mais próxima da de seus autores e leitores originais. Comentando sobre as palavras de Cristo em João 3:12 (“Se vos falei de coisas terrenas e não acreditais, como crereis se vos falar das celestiais?”), Comênio explica: “Deus, nas Escrituras, fala de coisas distantes, invisíveis, eternas, mas o faz em palavras relativas a coisas próximas, visíveis e temporais.” Pedra, ovelha, cabra, pastor, esposo, mestre, raposa, pão, sal, luz: as Escrituras estão repletas de tais imagens tangíveis, todas destinadas a nos conduzir ao conhecimento das realidades celestiais mais profundas que representam. Comênio conclui, portanto: “É, na prática, o único objetivo dos teólogos e comentadores—sua única e verdadeira função—desdobrar as palavras [das Escrituras] e as coisas que essas palavras significam.” E aqui também, o latim nos dá acesso ao mais amplo e extenso corpus de exegese e reflexão sobre as Escrituras dos nossos pais na fé — grande parte do qual permanece sem tradução para o inglês.
Então, por onde deve começar o ensino do latim (e de toda educação)? No mesmo lugar onde ele deve terminar: no mundo das coisas — coisas antigas, coisas universais (e coisas ocidentais) e coisas sagradas.
Referências:
- John Amos Comenius, Didactica Magna (The Great Didactic), in Opera Didactica Omnia, 1657 (Prague: Academia Scientiarum Bohemoslovenica, 1957), XIX.45. ↩︎
- Para uma introdução sucinta e acessível a Comenius, veja David I. Smith, John Amos Comenius: A Visionary Reformer of Schools, em David Diener, org., Giants in the History of Education (Camp Hill, PA: Classical Academic Press, 2017). Smith oferece uma visão detalhada do Orbis Pictus de Comenius, pp. 54-61. ↩︎
- Comenius, Novissima Linguarum Methodus (The Latest Method for Learning Languages), in Opera Didactica Omnia, II.15 ↩︎
- Comenius gives a couple examples of such ditties from Latin into German in Methodus, VII.10: “Deus, Gott [God], / Necessitas, Nott [need/distress]”; and “Manus, Hand [hand], / Pignus, Pfand [pledge]”. ↩︎
- Comenius, Methodus, VII.17. ↩︎
Centro Cultural João Calvino