Mas diga isso a Martinho Lutero, que sentiu tal libertação e alegria em sua redescoberta da justificação somente pela fé que escreveu: “Senti que estava totalmente nascido de novo e que havia entrado no próprio paraíso através de portões abertos”. Diga isso a William Tyndale, que a considerou “novas tão alegres, tão felizes e tão jubilosas” que o fizeram “cantar, dançar e saltar de alegria”. Diga isso a Thomas Bilney, que constatou que isso lhe trouxe “um consolo e uma quietude maravilhosos, de tal modo que meus ossos feridos saltaram de alegria”. Claramente, aqueles primeiros Reformadores não pensavam estar escolhendo uma briga juvenil; conforme a entendiam, haviam descoberto boas-novas de grande alegria.
Boas-novas em 1517
No início do século XVI, a Europa estivera privada, por algo como mil anos, de uma Bíblia que o povo pudesse ler. Thomas Bilney, portanto, jamais havia se deparado com as palavras: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores” (1Tm 1.15). Em vez da Palavra de Deus, as pessoas foram deixadas à noção de que Deus é um Deus que permite aos homens conquistar a própria salvação. Como um dos mestres daquele tempo gostava de formular a questão: “Deus não negará a graça àqueles que fazem o máximo que podem”. Contudo, aquilo que pretendia ser palavras de ânimo deixava um gosto extremamente amargo em todos os que as levavam a sério. Como alguém poderia ter certeza de que realmente havia feito o máximo que podia? Como poderia saber se se tornara o tipo de pessoa justa que merecia a salvação?
Nenhuma da bondade nem da relevância das percepções da Reforma se esvaiu ao longo dos últimos quinhentos anos.
Martinho Lutero certamente tentou. “Eu fui um bom monge”, escreveu ele, “e observei minha ordem de modo tão rigoroso que poderia dizer que, se algum monge pudesse chegar ao céu por meio da disciplina monástica, eu teria entrado”. E, no entanto, ele constatou:
“Minha consciência não me concedia certeza; antes, eu sempre duvidava e dizia: ‘Você não fez isso corretamente. Você não foi suficientemente contrito. Você deixou aquilo fora da sua confissão’. Quanto mais eu tentava remediar uma consciência incerta, fraca e perturbada por meio de tradições humanas, tanto mais, a cada dia, eu a encontrava mais incerta, mais fraca e mais perturbada”.
Segundo o catolicismo romano, Lutero estava inteiramente correto em não ter certeza do céu. A confiança em um lugar no céu era considerada uma presunção errônea e figurava entre as acusações feitas contra Joana d’Arc em seu julgamento, em 1431. Ali, os juízes proclamaram:
“Esta mulher peca ao dizer que está tão certa de ser recebida no Paraíso como se já fosse participante da glória, visto que, nesta peregrinação terrena, nenhum peregrino sabe se é digno de glória ou de punição, algo que somente o juiz soberano pode declarar”.
Esse juízo fazia pleno sentido dentro da lógica do sistema: se só podemos entrar no céu porque nos tornamos pessoalmente dignos dele (pela graça capacitadora de Deus), então, evidentemente, ninguém pode ter certeza. Seguindo essa linha de raciocínio, só posso ter tanta confiança no céu quanto tenho confiança na minha própria ausência de pecado.
Foi exatamente por isso que o jovem Martinho Lutero gritou de terror quando, ainda estudante, quase foi atingido por um raio durante uma tempestade. Ele tinha pavor da morte, pois — sem o conhecimento da salvação suficiente e graciosa de Cristo, sem o conhecimento da justificação somente pela fé — não tinha nenhuma esperança do céu.
E foi por isso que a sua redescoberta, nas Escrituras, da justificação somente pela fé lhe pareceu como entrar no paraíso por portões abertos. Isso significou que, em lugar de toda a sua angústia e terror, ele agora podia escrever:
“Quando o diabo lança diante de nós os nossos pecados e declara que merecemos a morte e o inferno, devemos falar assim: ‘Admito que mereço a morte e o inferno. E daí? Isso significa que serei condenado à danação eterna? De modo nenhum. Pois eu conheço Um que sofreu e fez satisfação em meu favor. Seu nome é Jesus Cristo, o Filho de Deus. Onde ele está, ali estarei eu também’”.
E foi por isso que a Reforma despertou no povo tamanho apetite por sermões e pela leitura da Bíblia. Pois poder ler as palavras de Deus e nelas enxergar tão boas-novas — que Deus salva pecadores, não com base no quão bem se arrependem, mas inteiramente por sua própria graça — foi como uma explosão de sol mediterrâneo a romper o mundo cinzento da culpa religiosa.
Boas-novas em 20262
Nada da bondade ou da relevância das percepções da Reforma se perdeu ao longo dos últimos quinhentos anos. As respostas às mesmas questões centrais continuam fazendo toda a diferença entre o desespero humano e a verdadeira alegria. O que acontecerá comigo quando eu morrer? Como posso saber? A justificação é o dom de um status justo (como argumentavam os Reformadores) ou um processo de tornar-se mais santo (como afirma Roma)? Posso confiar com segurança, para a minha salvação, somente em Cristo, ou a minha salvação também depende dos meus próprios esforços em direção à santidade e do êxito em alcançá-la?
Quase certamente, o que leva as pessoas a pensar que a Reforma é apenas um episódio histórico que já podemos deixar para trás é a ideia de que ela foi somente uma reação a algum problema circunstancial de sua época. Contudo, quanto mais atentamente se examina a questão, mais claro se torna o seguinte: a Reforma não foi, em princípio, um movimento negativo de afastamento de Roma e de sua corrupção; foi um movimento positivo, de aproximação do evangelho. E é precisamente isso que preserva a validade da Reforma para os nossos dias. Se a Reforma tivesse sido uma mera reação a uma situação histórica de quinhentos anos atrás, seria de se esperar que já tivesse chegado ao fim. Mas, enquanto programa de constante aproximação do evangelho, ela não pode estar encerrada.
Outra objeção é a de que a cultura contemporânea do pensamento positivo e da autoestima teria eliminado qualquer percepção de necessidade de o pecador ser justificado. Poucos hoje se veem vestindo cilícios e suportando vigílias de oração durante toda a noite, no frio intenso, para conquistar o favor de Deus. Em suma, o problema de Lutero — ser atormentado pela culpa diante do Juiz divino — é descartado como um problema próprio do século XVI, e, por conseguinte, sua solução, a justificação somente pela fé, é igualmente descartada como desnecessária para nós hoje.
Mas é, de fato, precisamente nesse contexto que a solução de Lutero ressoa como notícia tão feliz e tão pertinente. Pois, ao descartar a ideia de que possamos alguma vez ser culpados diante de Deus e, portanto, necessitados de sua justificação, a nossa cultura acabou por sucumbir ao velho problema da culpa de modos mais sutis e sem qualquer meio de resposta. Hoje, somos todos bombardeados pela mensagem de que seremos mais amados à medida que nos tornarmos mais atraentes. Talvez isso não seja explicitamente relacionado a Deus, e, ainda assim, continua sendo uma religião de obras, profundamente enraizada. Para isso, a Reforma oferece as mais cintilantes boas-novas. Lutero profere palavras que cortam a penumbra como um raio de sol glorioso e absolutamente inesperado:
O amor de Deus não encontra, mas cria aquilo que lhe é agradável. […] Em vez de buscar o seu próprio bem, o amor de Deus transborda e concede o bem. Portanto, os pecadores são atraentes porque são amados; não são amados porque sejam atraentes.
A Reforma não foi, em essência, um movimento negativo de afastamento de Roma e de sua corrupção; foi um movimento positivo, de aproximação do evangelho.
Mais uma vez, o tempo é oportuno
Quinhentos anos depois, a Igreja Católica Romana ainda não foi reformada. Apesar de toda a linguagem ecumênica cordial empregada por tantos protestantes e católicos romanos, Roma continua a repudiar a justificação somente pela fé. Ela se sente autorizada a fazê-lo porque a Escritura não é considerada a autoridade suprema à qual papas, concílios e a doutrina devem se conformar. E, uma vez que a Escritura é assim relegada, a alfabetização bíblica não é incentivada e, desse modo, milhões de pobres católicos romanos continuam sendo mantidos afastados da luz da Palavra de Deus.
Fora do catolicismo romano, a doutrina da justificação somente pela fé é com frequência evitada como algo insignificante, equivocado ou desconcertante. Algumas novas perspectivas sobre o que o apóstolo Paulo teria querido dizer com justificação, especialmente quando tendem a deslocar a ênfase para longe de qualquer necessidade de conversão pessoal, têm, mais do que qualquer outra coisa, confundido as pessoas, deixando o artigo que Lutero dizia não poder ser abandonado nem comprometido exatamente assim — abandonado ou comprometido.
Este não é um tempo para timidez quanto à justificação ou quanto à autoridade suprema das Escrituras que a proclamam. A justificação somente pela fé não é uma relíquia dos livros de história; ela permanece hoje como a única mensagem de libertação definitiva, a mensagem com o poder mais profundo de fazer os seres humanos se abrirem e florescerem. Ela concede certeza diante do nosso Deus santo e transforma pecadores que tentam comprar o favor de Deus em santos que o amam e o temem.
E oh, quantas oportunidades temos hoje para difundir essas boas-novas! Há quinhentos anos, a recente invenção da imprensa por Gutenberg significou que a luz do evangelho podia se espalhar a uma velocidade jamais antes vista. As Bíblias de Tyndale e os tratados de Lutero podiam circular aos milhares. Hoje, a tecnologia digital nos concedeu outro momento à maneira de Gutenberg, e a mesma mensagem pode agora ser difundida a velocidades que Lutero jamais poderia ter imaginado.
Tanto as necessidades quanto as oportunidades são tão grandes quanto eram há quinhentos anos — na verdade, são ainda maiores. Tomemos, pois, coragem da fidelidade dos Reformadores e mantenhamos erguido o mesmo maravilhoso evangelho, pois ele não perdeu nada de sua glória nem de seu poder de dissipar as nossas trevas.
- Nota: Este artigo foi escrito em 2017 e disponibilizado originalmente pela Tabletalk Magazine, podendo ser consultado em: https://tabletalkmagazine.com/article/2017/10/reformation-still-matters/ ↩︎
- Nota do editor: O ano mencionado ao longo do texto foi adaptado pelo editor para fins de contextualização. ↩︎
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