Contudo, as pesquisas paleográficas sobre o manuscrito — ou seja, aquelas baseadas na maneira como as letras são desenhadas nos manuscritos — concluíram que sua datação é bem mais tardia.
Já em 1952, Otto Stegmüller, padre católico e professor de história das religiões, declarava:
Até hoje, é impossível determinar se a escrita do manuscrito data do século IV, V ou VI.2
Foi somente em 1995 que o primeiro estudo sério sobre o manuscrito (cujo belo nome é P.Ryl. III, 470) foi realizado pelo papirologista austríaco Hans Förster, que concluiu:
Em resumo, pode-se dizer que uma datação para os séculos III ou IV é muito improvável. Com base nos textos comparativos citados, o P.Ryl. III, 470 situa-se entre os séculos VI e VII. O século V é pouco provável como data de origem, mas não pode ser totalmente excluído. A utilização de tinta marrom, da qual não há registro antes do século IV, também corrobora essa conclusão. […] Após um novo estudo paleográfico do P. Ryl. III, 470, a datação antiga desse fragmento — do século III —, que até então era geralmente aceita pelos teólogos, não pode mais ser mantida. A datação para o século VI ou mesmo VII significa que o valor como fonte de testemunho histórico que lhe foi frequentemente atribuído desmorona.3
Em 2005, o mesmo papirologista voltou a estudar a questão, com base em novos elementos extraídos do estudo dos papiros coptas; nessa nova pesquisa, ele conclui:
Considerando a impressão geral do texto, uma datação posterior não parece injustificada; os paralelos com os manuscritos coptas sugerem, de fato, uma datação estimada entre os séculos VIII e IX como mais provável do que a dos séculos II-III, ou mesmo do século IV. Em consequência dessas considerações, deve-se afirmar que não apenas provas circunstanciais, mas também paralelos muito claros podem ser invocados contra a classificação frequentemente excessivamente entusiasta do papiro de Manchester como o testemunho mais antigo da antífona Sub tuum praesidium. A esse respeito, a cópia vienense dessa antífona, que data dos séculos VI-VII, deve ser considerada a cópia mais antiga.
Em 2015, Arne Effenburger escreveu que “o papiro — em sua forma material atual, provavelmente uma amuleto protetor — só poderia ter sido produzido entre os séculos VI e VII” devido à paleografia e ao uso de tinta marrom, o que explica por que “uma datação nos séculos III ou IV é muito improvável”.4
Em 2021, um estudo de Piotr Towarek afirma:
No debate sobre sua datação, muitos estudiosos, como Giamberardini e Starowieyski, mencionaram o século III. Contudo, à luz das pesquisas paleográficas mais recentes, essa época deve ser deslocada para os séculos VI/VII, ou mesmo VIII/IX.5
O portal de pesquisa papirológica Trismegistos, em sua página dedicada ao manuscrito, indica o intervalo temporal “700 a 900 d.C.” para este documento.
Em 2019, Mihalyko também concluiu que a datação desse manuscrito situa-se entre os séculos VIII e IX.6
Do ponto de vista acadêmico, portanto, é injustificável apresentar esta oração como um testemunho de uma oração mariana do século III.
Referências:
- A reprodução fac-similar do catálogo pode ser consultada aqui. ↩︎
- Otto Stegmüller, “Sub tuum praesidium. Observações sobre a mais antiga tradição,” em Zeitschrift für Katholische Theologie, vol. 74, 1952, pp. 76-82. ↩︎
- Hans Förster, “Zur ältesten Überlieferung der marianischen Antiphon Sub tuum praesidium,” em Biblos: Österreichische Zeitschrift für Buch- und Bibliothekswesen, vol. 44, 1995, pp. 183-192. ↩︎
- Arne Effenburger, “Maria como Mediadora e Intercessora”, em L. Peltoma et al., Presbeia Theothokou: The Intercessory Role of Mary across Times and Places in Byzantium (4th–9th Century), Viena, 2015, pp. 49-108; p. 50. ↩︎
- Piotr Towarek, “Prayer ‘Sub Tuum praesidium’: Time of Origin, Place in Liturgy and Reception in Musical Culture. Outline of the Issues”, Vox Patrum, vol. 80, pp. 239–268. ↩︎
- A. T. Mihálykó, The Christian Liturgical Papyri, Studien zur Antike und Christentum 114, Tübingen, 2019, p. 353, n.º 267. Consultável aqui. ↩︎
Centro Cultural João Calvino