Minha posição acerca das Igrejas pode ser melhor esclarecida por um exemplo imaginário. Suponha que eu deseje descobrir a interpretação correta do ensino de Platão. Aquilo que aceito com maior confiança é a interpretação que é comum a todos os platônicos ao longo dos séculos: o que Aristóteles, os eruditos do Renascimento e Paul Elmer More concordam, tomo como sendo o verdadeiro platonismo. Quaisquer concepções meramente modernas, que pretendam ter descoberto pela primeira vez o que Platão quis dizer, e que afirmem que todos, desde Aristóteles, o compreenderam mal, rejeito de imediato.
Mas há ainda outra coisa que eu igualmente rejeitaria. Se houvesse uma antiga Sociedade Platônica ainda existente em Atenas, que reivindicasse ser a guardiã exclusiva do sentido de Platão, eu me aproximaria dela com grande respeito. Contudo, se eu constatasse que o seu ensino, em muitos aspectos, fosse estranhamente diverso do texto efetivo de Platão e do que disseram os intérpretes antigos, e que, em alguns casos, não pudesse ser rastreado até dentro de mil anos de sua época, eu rejeitaria tais pretensões exclusivistas — permanecendo, é claro, disposto a considerar cada ponto particular de sua doutrina segundo o seu próprio mérito.
Procedo do mesmo modo com o cristianismo. Aquilo que é mais certo é a vasta massa de doutrina que encontro em concordância entre a Escritura, os Pais da Igreja, a Idade Média, os modernos católicos romanos e os modernos protestantes. Isto é a verdadeira doutrina “católica”. O mero “modernismo”, rejeito prontamente.
A Igreja de Igreja Católica Romana, onde diverge dessa tradição universal e, especialmente, do cristianismo apostólico, eu rejeito. Assim, a sua teologia acerca da Bem-aventurada Virgem Maria eu rejeito, porque me parece totalmente alheia ao Novo Testamento; onde, de fato, as palavras “Bem-aventurado o ventre que te trouxe” recebem uma resposta que aponta exatamente na direção oposta. O seu papismo me parece igualmente estranho à atitude de Paulo de Tarso para com Pedro Apóstolo nas Epístolas. A doutrina da Transubstanciação insiste em definir de um modo que o Novo Testamento, a meu ver, não sanciona. Em suma, toda a estrutura do romanismo moderno me parece ser tão somente uma variação provincial ou local da tradição central e antiga quanto o é qualquer seita protestante em particular. Devo, portanto, rejeitar a sua pretensão — ainda que isso não signifique rejeitar pontos particulares do que ensinam.
Receio não ter lido obras modernas da controvérsia romano-anglicana. Richard Hooker (Of the Laws of Ecclesiastical Polity) é, para mim, a grande formulação do anglicanismo. Mas o ponto principal é que, em certo sentido, não há algo como “anglicanismo”. Aquilo a que estamos comprometidos a crer é tudo quanto pode ser provado a partir da Escritura. Nesse campo, há espaço para progresso indefinido. Seja qual for a sua decisão, envio-lhe meus bons votos. Lembre-se de mim em suas orações.
Atenciosamente,
C. S. Lewis
Centro Cultural João Calvino