À luz da tradição reformada, João Calvino advertiu que nada em nossa vida deve escapar ao crivo da glória divina: “Visto que fomos criados para a glória de Deus, é justo que toda a nossa vida tenha como objetivo único promover essa glória”.1 Um esporte que transforma a ferida do próximo em espetáculo dificilmente se enquadra nesse critério. R. C. Sproul lembrava que “não existe uma molécula sequer fora do senhorio de Cristo”,2 o que inclui também o lazer e o entretenimento. Se, no ringue, a humilhação e o sangue são motivo de aplauso, estamos diante de um campo em que Cristo não é exaltado, mas a violência da carne.
D. Martyn Lloyd-Jones, por sua vez, sempre alertava contra a mundanidade que dessensibiliza a consciência cristã: “o perigo do mundo é que ele nos anestesia contra o pecado”.3 O aplauso a cenas como a de ontem pode ser justamente esse anestésico: normalizamos o sangue derramado como se fosse diversão e, aos poucos, deixamos de nos escandalizar com a dor real. Esse é o perigo espiritual de um entretenimento centrado na violência: tornar o coração insensível ao que deveria ser motivo de lamento.
Agora, imagine os cristãos na época de Nero, perseguidos e mortos nos coliseus de Roma, participando desse tipo de espetáculo. Inviável, não é? Eles eram justamente as vítimas de uma cultura que transformava a violência em show. Como disse Tertuliano: “O sangue dos mártires é a semente da Igreja”,4 e não o entretenimento dos telespectadores. Os primeiros cristãos compreendiam que o sangue derramado em fidelidade a Cristo tinha valor eterno; já o sangue derramado em arenas modernas serve apenas à idolatria do espetáculo.
Portanto, à luz das Escrituras e do pensamento reformado, fica claro que a Igreja deve discernir entre disciplina física saudável e espetáculo de violência. O evento Popó x Wanderlei mostrou que, na prática, esses combates alimentam tumulto, ódio e degradação da imagem de Deus no próximo. O chamado cristão é outro: “Seja tudo feito para edificação” (1Co 14:26) e “seja tudo para a glória de Deus” (1Co 10:31). Cabe a nós, como peregrinos neste mundo, rejeitar a normalização do sangue derramado como entretenimento e abraçar a herança dos mártires, cujo testemunho não foi para a diversão das massas, mas para a expansão do Reino de Cristo.
REFERÊNCIAS:
- CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. Trad. Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. Livro III, cap. VII, §1, p. 684. ↩︎
- SPROUL, R. C. A Santidade de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 1999. p. 28. ↩︎
- LLOYD-JONES, D. Martyn. Studies in the Sermon on the Mount. Grand Rapids: Eerdmans, 1959. Vol. 1, p. 106. ↩︎
- TERTULIANO. Apologeticum. Trad. J. H. Waszink. Amsterdam: North-Holland, 1950. Cap. 50, p. 171. ↩︎
Centro Cultural João Calvino