Entre os católicos romanos, não é raro deparar-se com a tese de que Maria, a Mãe do Senhor, é a Nova Arca da Aliança — a arca dourada de madeira de acácia sobre a qual Deus se manifestava, falando a Israel do meio dos querubins alados (Êx 25:10–22). Desse modo, Maria é retratada inclusive pelos autores do Catecismo da Igreja Católica:
“Cheia de graça, o Senhor é contigo”: duas palavras da saudação do anjo explicam-se mutuamente. Maria é cheia de graça porque o Senhor está com ela. A graça de que está repleta significa a presença daquele que é a fonte de toda graça. “Alegra-te… ó filha de Jerusalém… o Senhor, teu Deus, está no meio de ti” (Sf 3,14.17a). Maria, na qual o próprio Senhor vem habitar, é a personificação da filha de Sião, a Arca da Aliança, o lugar onde permanece a glória do Senhor: ela é o “tabernáculo de Deus com os homens” (Ap 21,3). “Cheia de graça”, ela está totalmente entregue àquele que vem nela habitar e que ela deve dar ao mundo.2
Entretanto, esse tipo de imagem não cumpre apenas uma função de exaltação poética. A partir da tipologia de Maria como Arca, defensores do catolicismo romano, entre eles Brant Pitre, Scott Hahn ou Tim Staples, passam a deduzir afirmações acerca da imaculada conceição, da impecabilidade e da assunção de Maria.3 Com base nisso, Staples chega a defender inclusive a sua virgindade perpétua.4
De que maneira se procura fundamentar a existência de uma relação tipológica entre a Arca como tipo e Maria como antítipo? Em primeiro lugar, a argumentação costuma apoiar-se em algumas paralelos que podem ser observadas ao se comparar o livro do Êxodo e o Segundo Livro de Samuel com o Evangelho de Lucas (Êx 40:35; 2Sm 6:2–16; cf. Lc 1:35–56).5 A seleção desses paralelos varia conforme o apologista; por isso, trataremos apenas de algumas dentre aquelas às quais recorrem Pitre, Hahn e Staples em suas obras, bem como, a título complementar, Steve Ray em seu artigo na internet.6 Uma segunda linha de defesa é constituída por uma passagem do Apocalipse, referente à Arca e à Mulher (Ap 11:19–12:1).7 Por fim, a atenção é deslocada para o conteúdo da primeira Arca, o qual supostamente apontaria para Maria como a segunda Arca.8 No presente artigo, procuraremos evidenciar os numerosos e sérios problemas envolvidos nesse tipo de argumentação e, em seguida, apresentar uma contra-argumentação bíblica à tese duvidosa de que Maria seria a Nova Arca da Aliança.
Abrindo caminho pelo emaranhado de paralelos
Examinaremos, um a um, os paralelos mais relevantes apontadas pelos defensores de Roma com o objetivo de demonstrar que a Arca é um tipo de Maria. Na comparação dos textos bíblicos, recorreremos a tabelas que apresentarão os respectivos trechos do Antigo Testamento em paralelo com o Evangelho de Lucas. No primeiro caso, utilizaremos a Septuaginta, isto é, a antiga tradução da Bíblia hebraica para o grego, na edição de Alfred Rahlfs.9 Abaixo dos excertos da LXX será apresentado o vertido para o polonês realizado por Remigiusz Popowski.10 O Novo Testamento grego, por sua vez, será citado conforme a mais recente edição crítica de Nestle-Aland,11 acompanhado da tradução polonesa da católica Bíblia de Jerusalém (Biblia Tysiąclecia).12 Sob cada uma das tabelas haverá um comentário crítico correspondente.
A. Encobrimento (Êx 40:35 – Lc 1:35)
| Êx 40:35 (LXX + Popowski) | Lc 1:35 (NA28 + BT) |
|---|---|
| καὶ οὐκ ἠδυνάσθη Μωυσῆς εἰσελθεῖν εἰς τὴν σκηνὴν τοῦ μαρτυρίου ὅτι ἐπεσκίαζεν ἐπ᾽ αὐτὴν ἡ νεφέλη καὶ δόξης κυρίου ἐπλήσθη ἡ σκηνή | καὶ ἀποκριθεὶς ὁ ἄγγελος εἶπεν αὐτῇ· πνεῦμα ἅγιον ἐπελεύσεται ἐπὶ σὲ καὶ δύναμις ὑψίστου ἐπισκιάσει σοι· διὸ καὶ τὸ γεννώμενον ἅγιον κληθήσεται υἱὸς θεοῦ. |
| E Moisés não pôde entrar na tenda do testemunho, porque a nuvem a cobriu, e a glória do Senhor encheu a tenda. | O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, o que há de nascer será santo e será chamado Filho de Deus». |
Comentário:
- A tenda, isto é, ἡ σκηνή (hē skēnē), não é idêntica à Arca, isto é, ἡ κιβωτός (hē kibōtos). A Arca encontrava-se na Tenda, mas não era a Tenda. Os apologistas católicos, portanto, precisam decidir se pretendem demonstrar que Maria é a Nova Arca ou, antes, que ela é a Nova Tenda.
- Enquanto em Lc 1:35 se fala do Espírito Santo, isto é, πνεῦμα ἅγιον (pneuma hagion), e do poder do Altíssimo, isto é, δύναμις ὑψίστου (dynamis hypsistou), em Êx 40:35 se fala da nuvem, isto é, νεφέλη (nephelē), e da glória do Senhor, isto é, δόξα κυρίου (doxa kyriou). Nos trechos analisados, portanto, são empregados substantivos completamente distintos, inclusive no nível do idioma grego, o que enfraquece de maneira significativa o paralelo proposto.
- Os excertos comparados compartilham apenas a forma do verbo grego ἐπισκιάζω (episkiazō), que não pertence ao grupo dos termos mais raros. O verbo ἐπισκιάζω (episkiazō), ou eventualmente σκιάζω (skiazō), pode ser traduzido como “lançar sombra” ou “encobrir”.13 Ele é utilizado na Septuaginta não apenas em referência à Tenda, mas também a uma grande variedade de pessoas e objetos.14 Aplica-se aos israelitas cobertos pela nuvem do Senhor (Nm 10:34), a Sião, sobre a qual Deus repousará (Is 4:5), àqueles que confiam no Senhor e nele buscam refúgio (Sl 91:4; 140:8), aos eleitos de Deus (Dt 33:12), bem como à árvore sob a qual o profeta Jonas repousou (Jn 4:6). Também nos apócrifos o verbo é empregado em um contexto que fala da nuvem que cobria o acampamento israelita (Sb 19:7).
- No Novo Testamento, o verbo ἐπισκιάζω (episkiazō) aparece no contexto em que se fala da sombra projetada por Pedro (At 5:15); mais importante, porém, é o uso consistente desse verbo pelos sinóticos, inclusive por Lucas, no relato da transfiguração de Cristo no monte Tabor, quando a nuvem envolveu os discípulos (Mt 17:5; Mc 9:7; Lc 9:34). Lc 9:34–35 parece constituir o cumprimento de Lc 1:35, pois é precisamente nesse trecho que encontramos a declaração de Deus Pai acerca da filiação divina de Jesus, confirmando-se assim as palavras do anjo, segundo as quais o Santo que haveria de nascer seria chamado Filho de Deus. O evangelista Lucas, portanto, esclarece em 9:34–35 qual foi o propósito do emprego do verbo ἐπισκιάζω (episkiazō) em 1:35; e, de modo algum, é necessário que o referente seja Maria, mas antes Jesus, proclamado Filho de Deus tanto na Anunciação quanto na Transfiguração.15
B. Dirigir-se e ir a Judá (2 Sm 6:2 – Lc 1:39)
| 2 Sm 6:2 (LXX+Popowski) | Lc 1:39 (NA28+BT) |
|---|---|
| καὶ ἀνέστη καὶ ἐπορεύθη Δαυεὶδ καὶ πᾶς ὁ λαὸς ὁ μετ’ αὐτοῦ ἀπὸ τῶν ἀρχόντων Ἰούδα ἐν ἀναβάσει, τοῦ ἀναγαγεῖν ἐκεῖθεν τὴν κιβωτὸν τοῦ θεοῦ, ἐφ’ ἣν ἐπεκλήθη τὸ ὄνομα Κυρίου τῶν δυνάμεων καθημένου ἐπὶ τῶν χερουβεὶν ἐπ’ αὐτῆς. | Ἀναστᾶσα δὲ Μαριὰμ ἐν ταῖς ἡμέραις ταύταις ἐπορεύθη εἰς τὴν ὀρινὴν μετὰ σπουδῆς εἰς πόλιν Ἰούδα, |
| Davi e todos os homens do seu círculo, pertencentes aos líderes de Judá, prepararam-se e partiram em uma expedição organizada, cujo objetivo era trazer a arca de Deus, aquela em que se invoca o nome do Senhor dos Exércitos, que se assenta sobre os querubins. | Naquele tempo, Maria levantou-se e partiu apressadamente para as montanhas, para uma cidade da Judá. |
Comentário:
- Em 2 Sm 6:2 lemos que Davi e seus homens, buscando a Arca, prepararam-se e partiram; enquanto em Lc 1:39 é Maria — a própria Arca — que se levanta e vai. Os defensores de Roma, querendo a todo custo manter paralelos entre os trechos, tentam desviar nossa atenção do fato de que o ponto de referência para os paralelos individuais muda constantemente em 2 Sm 6. Enquanto em certos trechos tentam criar uma correspondência entre Maria e a Arca, desta vez tentam comparar Maria a Davi, o que demonstra uma flagrante inconsistência em sua argumentação.16
- A combinação do verbo ἀνίστημι (anistēmi) com outro verbo que indica movimento, como πορεύομαι (poreuomai), não é nada extraordinário nem indica paralelismo entre os versos. Trata-se antes de uma formulação habitual, usada em momentos em que alguém se prepara para ir a algum lugar — a combinação ἀνίστημι + πορεύομαι aparece repetidamente no Novo Testamento e inclusive nos escritos de Lucas (por exemplo, Lc 15:18; 17:19; At 8:26; 9:11), embora o verbo πορεύομαι pudesse ser substituído por outro, como ἐξέρχομαι (exerchomai) ou ἀκολουθέω (akoloutheō), mantendo-se a construção.
- Os apologetas procuram outro paralelo nos trechos acima, afirmando que tanto Davi quanto Maria se dirigiam a um local situado em Judá — porém são inconsistentes, alternando entre o texto grego e o texto hebraico do Antigo Testamento, sem sucesso em ambos os casos. No texto hebraico, lemos que Davi e seus companheiros partiram de Baalá, em Judá — מִֽבַּעֲלֵ֖י יְהוּדָ֑ה (meba’ale Yehuda).17 Por sua vez, o texto grego se afasta ainda mais das exigências da narrativa católica, descrevendo os homens de Davi como pertencentes aos líderes de Judá em sentido tribal — ἀπὸ τῶν ἀρχόντων Ἰούδα (apo tōn archontōn Iouda). Nenhuma das versões menciona Judá como direção da expedição real, o que elimina o suposto paralelo. De fato, identificar a direção da viagem é difícil, independentemente da versão preferida, pois o texto permanece obscuro nesse ponto.18
C. Pergunta (2 Sm 6:9 – Lc 1:43)
| 2 Sm 6:9 (LXX+Popowski) | Lc 1:43 (NA28+BT) |
|---|---|
| καὶ ἐφοβήθη Δαυεὶδ τὸν κύριον ἐν τῇ ἡμέρᾳ ἐκείνῃ λέγων Πῶς εἰσελεύσεται πρὸς μέ ἡ κιβωτὸς Κυρίου; | καὶ πόθεν μοι τοῦτο ἵνα ἔλθῃ ἡ μήτηρ τοῦ κυρίου μου πρὸς ἐμέ; |
| Mas naquele dia Davi também ficou tomado de temor diante do Senhor, e dizia: “Como pode a arca do Senhor vir até mim?” | E de onde me vem isso, que a mãe do meu Senhor venha até mim? |
Comentário:
- Mais uma vez, podemos notar a trágica inconsistência dos apologetas católicos — aqui eles tentam estabelecer um paralelo entre a Arca e Maria, enquanto o papel de Davi deveria corresponder ao de Isabel. No caso da referência a 2 Sm 6:2, tínhamos, afinal, a comparação de Davi com Maria! Observa-se, portanto, uma mudança injustificada, que demonstra a arbitrariedade da argumentação dos defensores de Roma.
- O contexto das duas perguntas é diferente: a pergunta de Davi foi feita em temor e angústia (2 Sm 6:8-9), enquanto a pergunta de Isabel foi feita em alegria e humildade (Lc 1:42, 44).
- Além disso, enquanto Davi não recebeu a Arca para si (2 Sm 6:10), Isabel recebeu Maria em sua casa (Lc 1:40, 56).
- Do ponto de vista linguístico, a pergunta de Lc 1:43 não se assemelha substancialmente à pergunta de 2 Sm 6:9; em sentido estrito, as únicas palavras comuns aos dois textos são πρὸς (pros) e κυρίου (kyriou) — se a conexão entre os textos fosse intencional, Lucas teria indicado isso de forma mais explícita aos leitores, construindo a pergunta de Isabel com base na pergunta de Davi, de modo semelhante à forma em que a Septuaginta a transmite.19
- Se houver um paralelo entre Lc 1:43 e 2 Sm 6:9, por que não também entre Lc 1:43 e 2 Sm 24:21, onde Araúna pergunta a Davi: “Para que vem, meu senhor, rei, ao seu servo?”20
D. Três meses (2 Sm 6:11 – Lc 1:56)
| 2 Sm 6:11 (LXX+Popowski) | Lc 1:56 (NA28+BT) |
|---|---|
| καὶ ἐκάθισεν ἡ κιβωτὸς τοῦ κυρίου εἰς οἶκον Ἀβεδδαρὰ τοῦ Γεθθαίου μῆνας τρεῖς· καὶ ηὐλόγησεν Κύριος ὅλον τὸν οἶκον Ἀβεδδαρὰ καὶ πάντα τὰ αὐτοῦ. | Ἔμεινεν δὲ Μαριὰμ σὺν αὐτῇ ὡς μῆνας τρεῖς, καὶ ὑπέστρεψεν εἰς τὸν οἶκον αὐτῆς. |
| E a arca do Senhor permaneceu na casa de Abedda do Gethita por três meses. O Senhor abençoou toda a casa de Abedda e tudo o que lhe pertencia. | Maria permaneceu com ela cerca de três meses; depois retornou para sua casa. |
Comentário:
- O preço por manter o paralelo entre Maria e a Arca é a nova mudança do correspondente de Isabel — desta vez não é mais Davi, mas Abedda do Gethita, pois a Arca permanece em sua casa. Mais uma vez, a fluidez com que ocorrem rápidas mudanças na tipologia ao longo de uma única perícopa evidencia o absurdo das conexões que os apologetas católicos tentam estabelecer aqui.
- Embora não se trate de uma grande discrepância, é importante notar que três meses, ou μῆνας τρεῖς (mēnas treis) em 2 Sm 6:11, não são o mesmo que “cerca de três meses”, ou ὡς μῆνας τρεῖς (hōs mēnas treis) em Lc 1:56.
- A permanência de aproximadamente três meses de Maria na casa da parenta pode ser explicada de maneira natural, sem recorrer à tipologia duvidosa. Quando Maria chegou à casa de Isabel, esta estava no sexto mês de gravidez (Lc 1:36). Após três meses, tendo cuidado de Isabel com dedicação, Maria retornou para sua própria casa para se ocupar de sua gestação, agora mais avançada.21 Do ponto de vista da arte narrativa, Maria parte após três meses justamente quando se aproxima o tempo do parto de Isabel, de modo que toda a atenção possa se concentrar no nascimento de João Batista (Lc 1:57-66).22
- Nos escritos de Lucas, os três meses problemáticos não necessariamente carregam simbolismo; podem ter caráter puramente factual. Moisés também foi amamentado por três meses na casa de seu pai antes de ser entregue à filha do faraó (At 7:20). O período de três meses aparece ainda em vários episódios da vida de Paulo (At 19:8; 20:3; 28:11). Mesmo assim, não consideramos Moisés ou Paulo como figuras que devam ser comparadas à Arca.
E. Bênção (2 Sm 6:11 – Lc 1:42, 45)
| 2 Sm 6:11 (LXX+Popowski) | Lc 1:42, 45 (NA28+BT) |
|---|---|
| καὶ ἐκάθισεν ἡ κιβωτὸς τοῦ κυρίου εἰς οἶκον Ἀβεδδαρὰ τοῦ Γεθθαίου μῆνας τρεῖς· καὶ ηὐλόγησεν Κύριος ὅλον τὸν οἶκον Ἀβεδδαρὰ καὶ πάντα τὰ αὐτοῦ. | καὶ ἀνεφώνησεν κραυγῇ μεγάλῃ καὶ εἶπεν Εὐλογημένη σὺ ἐν γυναιξίν, καὶ εὐλογημένος ὁ καρπὸς τῆς κοιλίας σου. […] καὶ μακαρία ἡ πιστεύσασα ὅτι ἔσται τελείωσις τοῖς λελαλημένοις αὐτῇ παρὰ Κυρίου. |
| E a arca do Senhor permaneceu na casa de Abedda do Gethita por três meses. O Senhor abençoou toda a casa de Abedda e tudo o que lhe pertencia. | Ela exclamou em voz alta e disse: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. […] Bendita é aquela que creu que se cumpririam as palavras que lhe foram ditas pelo Senhor”. |
Comentário:
- Os trechos se conectam, basicamente, apenas pelas formas derivadas do verbo εὐλογέω (eulogéō), ou seja, “abençoar”, que, além disso, aparecem como diferentes partes do discurso.23 Para manter o paralelo entre Maria e a Arca, a casa de Isabel, correspondente à casa de Abedda, deveria ser abençoada por Deus em virtude da presença de Maria — o que, porém, não acontece. Enquanto em 2 Sm 6:11 Deus abençoa a casa de Abedda por causa da presença da Arca, em Lc 1:42, 45 aquela que é abençoada é Maria.
- Se a comparação desses trechos deve servir como argumento a favor do paralelo entre Maria e a Arca, ela poderia igualmente servir como argumento a favor do paralelo entre Jesus e a Arca, se atentarmos que em Lc 1:42 é abençoado o fruto do ventre de Maria, ou seja, Cristo.
- Por que 2 Sm 6:11 deve ser relacionado à figura de Maria em Lc 1:42, 45, e não a Abraão (Gn 14:19), Jael (Jz 5:24) ou Judite (Jdt 13:18), onde também encontramos o verbo εὐλογέω (eulogéō)?
F. Salto (2 Sm 6:14, 16 – Lc 1:44)
| 2 Sm 6:14, 16 (LXX+Popowski) | Lc 1:44 (NA28+BT) |
|---|---|
| καὶ Δαυεὶδ ἀνεκρούετο ἐν ὀργάνοις ἡρμοσμένοις ἐνώπιον Κυρίου, καὶ ὁ Δαυεὶδ ἐνδεδυκὼς στολὴν ἔξαλλον. […] καὶ ἐγένετο τῆς κιβωτοῦ παραγινομένης ἕως πόλεως Δαυείδ, καὶ Μελχὸλ ἡ θυγάτηρ Σαοὺλ διέκυπτεν διὰ τῆς θυρίδος, καὶ εἶδεν τὸν βασιλέα Δαυεὶδ ὀρχούμενον καὶ ἀνακρουόμενον ἐνώπιον Κυρίου, καὶ ἐξουδένωσεν αὐτὸν ἐν τῇ καρδίᾳ ἑαυτῆς. | ἰδοὺ γὰρ ὡς ἐγένετο ἡ φωνὴ τοῦ ἀσπασμοῦ σου εἰς τὰ ὦτά μου, ἐσκίρτησεν ἐν ἀγαλλιάσει τὸ βρέφος ἐν τῇ κοιλίᾳ μου. |
| Davi tocava diante do Senhor em instrumentos bem afinados, e Davi estava vestido com uma túnica especial. […] Quando a arca chegou à Cidade de Davi, Mical, filha de Saul, espiou pela janela e viu o rei Davi saltando diante do Senhor e tocando as cordas, e em seu coração desprezou-o. | Pois assim que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê saltou de alegria em meu ventre. |
Comentário:
- Para estabelecer uma semelhança entre Maria e a Arca, desta vez Davi é transformado em João Batista, enquanto é em vão que se procura um correspondente do Antigo Testamento para Isabel, revelando mais uma vez a arbitrariedade na criação de tipologias pelos apologetas de Roma.
- Em 2 Sm 6:14 na LXX não há menção a dança, muito menos a movimento — neste ponto, o salto é mencionado apenas no texto hebraico, e por isso também na Bíblia de Jerusalém (Bíblia Tysiąclecia).24 O verbo ἀνεκρούετο (anekroueto) deriva de ἀνακρούομαι (anakrouomai) e refere-se a tocar instrumentos.25
- Em 2 Sm 6:16, Davi salta diante do Senhor, ou seja, ἐνώπιον Κυρίου (enopion Kyriou), enquanto em Lc 1:44 o bebê se move no ventre de Isabel quando o som da saudação de Maria chega aos seus ouvidos. Parece que, na paralela correta, João Batista deveria mover-se não tanto pelo som da voz de Maria, mas em virtude da presença do Senhor — Jesus, que foi designado assim no versículo anterior (Lc 1:43).
- Finalmente, em 2 Sm 6:16 o particípio ὀρχούμενον (orhoumenon) refere-se realmente ao salto — a forma básica, porém, é ὀρχέομαι (orheomai), e este verbo tem pouca relação com a forma básica do aoristo ἐσκίρτησεν (eskirtesen) em Lc 1:44, ou seja, com σκιρτάω (skirtaō).26 Em última análise, a relação linguística entre esses trechos parece imperceptível, reduzindo-se a uma vaga semelhança semântica entre os dois verbos ὀρχέομαι (orheomai) e σκιρτάω (skirtaō), que nem mesmo compartilham a mesma raiz. Ao examinar mais de perto, é difícil acreditar que tal relação seja algo mais do que a fantasia de quem busca tipologia.27 Diante dos fatos, alguns defensores da tipologia mariana recorrem à tradução grega do Antigo Testamento de Símaco, que continha neste ponto certa forma de σκιρτάω (skirtaō).28 Apoiar-se nesse argumento é, claramente, um ato de desespero — Símaco completou sua tradução no século II ou III d.C., muito depois da separação entre o judaísmo rabínico e o cristianismo primitivo, de modo que sua tradução certamente não poderia ter sido conhecida por Lucas, que escreveu seu Evangelho ainda no século I.29
G. Vozes e aclamações (2 Sm 6:15 – Lc 1:42, 44)
| 2 Sm 6:15 (LXX+Popowski) | Lc 1:42, 44 (NA28+BT) |
|---|---|
| καὶ Δαυεὶδ καὶ πᾶς ὁ οἶκος Ἰσραὴλ ἀνήγαγον τὴν κιβωτὸν Κυρίου μετὰ κραυγῆς καὶ μετὰ φωνῆς σάλπιγγος. | καὶ ἀνεφώνησεν κραυγῇ μεγάλῃ καὶ εἶπεν Εὐλογημένη σὺ ἐν γυναιξίν, καὶ εὐλογημένος ὁ καρπὸς τῆς κοιλίας σου. […] ἰδοὺ γὰρ ὡς ἐγένετο ἡ φωνὴ τοῦ ἀσπασμοῦ σου εἰς τὰ ὦτά μου, ἐσκίρτησεν ἐν ἀγαλλιάσει τὸ βρέφος ἐν τῇ κοιλίᾳ μου. |
| Davi e todo o povo de Israel conduziram a arca do Senhor com aclamações de alegria e ao som da trombeta. | Ela exclamou em voz alta e disse: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. […] Pois assim que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê saltou de alegria em meu ventre.” |
Comentário:
- Desta vez, Davi com todo o povo de Israel corresponde a Isabel. Em resumo, até aqui Davi já havia sido Maria, Isabel e João Batista, dependendo da situação em que se tentava chamar a atenção para Maria, supostamente como a Nova Arca — e tudo isso em trechos relativamente curtos, como 2 Sm 6:2–16 e Lc 1:35–56.
- Para piorar, no que se refere às aclamações em 2 Sm 6:15, Davi e o povo de Israel as proferem, o que corresponderia à aclamação emitida por Isabel em Lc 1:42. Quanto aos sons da trombeta em 2 Sm 6:15, novamente Davi e o povo de Israel são os responsáveis, mas a paralela se quebra em Lc 1:44, pois Isabel não produz sons, apenas os ouve. É difícil imaginar um caos maior, já que a identidade dos personagens não se mantém nem ao longo de um único versículo!
- Recorrer à semelhança entre φωνῆς (phōnēs) em 2 Sm 6:15 e φωνὴ (phōnē) em Lc 1:44 reduz o paralelo a um absurdo iconoclasta. Embora ambas as formas derivem do substantivo φωνή (phōnē), de significado óbvio nesse contexto, trata-se de um substantivo comum, encontrado centenas de vezes nas Escrituras.30 Existe, porém, um problema maior. Enquanto Davi conduz a Arca ao som da trombeta, o bebê no ventre de Isabel move-se ao ouvir a saudação de Maria. No primeiro caso, a fonte do som é a trombeta; no segundo, é Maria — e tal comparação, por mais estranha que soe, transforma Maria não na Arca, mas na trombeta…
- Os trechos ainda se conectam pelo substantivo κραυγῆς (kraugēs) ou κραυγῇ (kraugē) — na forma básica κραυγή (kraugē), ou seja, simplesmente “grito” ou “aclamação”.31 Este termo aparece 58 vezes na Bíblia, sendo 52 vezes no Antigo Testamento e 6 vezes no Novo. Considerando que as outras seis supostas paralelas se mostraram ilusórias, é difícil esperar que uma palavra tão comum quanto κραυγή (kraugē) pudesse sustentar a tipologia Arca-Maria.
Resumo
- As tentativas católicas de estabelecer uma correspondência entre a Arca em Êxodo 40:35 e 2 Sm 6:2–16 e Maria em Lc 1:35–56 apresentam diversos problemas recorrentes: Enquanto em alguns casos os apologetas de Roma conseguem basear-se até mesmo em uma única palavra grega concreta para constituir a paralela (A, B, E, G), em outros a semelhança lexical não lhes é relevante, pois o que importa é a semelhança de sentido (C, F). Por vezes, utilizam preferencialmente o texto grego da Septuaginta (A, E, G), outras vezes recorrem à tradução grega de Símaco (F), e em ainda outras situações utilizam o texto hebraico (B, F) — sempre de acordo com o objetivo maior, que é sustentar o paralelo entre a Arca e Maria.
- Há distorções na sequência dos acontecimentos descritos, como se vê claramente no paralelo referente aos três meses em que a Arca permaneceu na casa de Abed-Idar, o getateu, e os cerca de três meses em que Maria permaneceu na casa de Isabel (C). No primeiro caso, o evento ocorre no meio da ação apresentada na perícope; no segundo, ocorre ao final da narrativa. Infelizmente, a enumeração das paralelas prossegue mesmo diante da cronologia alterada (D, E, F, G).
- A tipologia sofre transformações fluidas e arbitrárias, direcionadas a provar a tese principal. Davi é ora Maria (B), ora Isabel (C, G), e em outras circunstâncias é João Batista (F). Maria, por sua vez, é ora o Tabernáculo (A), depois a Arca (C, D, G), e finalmente a casa de Abed-Idar (E). Isabel, como já foi mencionado, às vezes é Davi, mas em outras situações é Abed-Idar, o getateu (D). Em certos paralelos, algumas personagens sequer têm correspondentes.
A gravidade dos problemas acima, somada aos comentários detalhados sobre cada trecho em que supostamente haveria paralelas, conduz-nos à conclusão de que a tese católica segundo a qual Maria poderia ser considerada a Nova Arca só pode ser mantida mediante eisegese, e mesmo assim com grande determinação dos apologetas. A esmagadora maioria das conexões por eles estabelecidas entre passagens do Antigo e do Novo Testamento é ou flagrantemente inconsistente, ou simplesmente forçada, ou pode ser explicada de maneira natural, sem recorrer ao instrumento tipológico.
A Arca apocalíptica com traços femininos
Devido ao fato de que a divisão da Bíblia em capítulos só surgiu na Idade Média e não faz parte do texto original, os católicos romanos argumentam que existe uma conexão suficientemente estreita entre Ap 11:19 e 12:1, de modo que a Arca possa ser identificada com a Mulher, na qual veem a figura de Maria, Mãe de Jesus. Para justificar essa tese, afirma-se que, uma vez que o verbo ὤφθη (ōphthē) aparece em ambos os versículos, eles devem ser considerados parte de uma mesma unidade literária. Além disso, tanto a Arca quanto a Mulher estariam no mesmo lugar, ou seja, no templo celestial, o que seria evidenciado por referência a Is 66:6-7. Por fim, supõe-se que, assim como o Dragão e a Serpente são dois símbolos do diabo (Ap 12:3, 9), e o Filho-Homem e o Cordeiro são dois símbolos de Cristo (Ap 12:5, 11), a Arca e a Mulher constituiriam dois símbolos de Maria (Ap 11:19–12:1).
Ap 11:19–12:1 (NA28+BT)
| Grego | Tradução |
|---|---|
| καὶ ἠνοίγη ὁ ναὸς τοῦ θεοῦ ὁ ἐν τῷ οὐρανῷ, καὶ ὤφθη ἡ κιβωτὸς τῆς διαθήκης αὐτοῦ ἐν τῷ ναῷ αὐτοῦ· καὶ ἐγένοντο ἀστραπαὶ καὶ φωναὶ καὶ βρονταὶ καὶ σεισμὸς καὶ χάλαζα μεγάλη. Καὶ σημεῖον μέγα ὤφθη ἐν τῷ οὐρανῷ, γυνὴ περιβεβλημένη τὸν ἥλιον, καὶ ἡ σελήνη ὑποκάτω τῶν ποδῶν αὐτῆς, καὶ ἐπὶ τῆς κεφαλῆς αὐτῆς στέφανος ἀστέρων δώδεκα, | Então se abriu o templo de Deus no céu, e a Arca do seu Pacto apareceu no seu templo; e houve relâmpagos, vozes, trovões, terremoto e grande granizo. Então apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos seus pés, e sobre a sua cabeça uma coroa de doze estrelas. |
No que diz respeito ao verbo ὤφθη (ōphthē), que supostamente sugeriria a identidade da Arca (Ap 11:19) com Maria (Ap 12:1), existem pelo menos três objeções:
- Esse argumento poderia igualmente ser usado para identificar a Arca com o Dragão, já que neste caso também se emprega o verbo ὤφθη (ōphthē) (Ap 12:3).
- ὤφθη (ōphthē) é simplesmente a forma passiva do verbo ὁράω (horaō), que ocorre na Apocalipse 63 vezes, sendo um verbo comum que significa simplesmente “ver”. Tal frequência não surpreende, considerando que se trata de um livro repleto de visões simbólicas — suas formas são tão variadas porque o verbo é irregular.32
- As formas εἶδον (eidon) e εἶδες (eides) também se repetem ao longo do livro, mas associar esses casos como se falassem sobre a mesma coisa seria absurdo. Assim, por que deveríamos destacar ὤφθη (ōphthē), se todas essas formas derivam de ὁράω (horaō)?
- O conectivo καὶ (kai) parece anunciar visões consecutivas. Por meio desse conectivo, o autor introduz não apenas a Arca e a Mulher, mas também vários outros elementos, ao declarar: “e houve relâmpagos, vozes, trovões, terremoto e grande granizo”, ou seja, καὶ ἐγένοντο ἀστραπαὶ καὶ φωναὶ καὶ βρονταὶ καὶ σεισμὸς καὶ χάλαζα μεγάλη (kai egenonto astrapai kai fonai kai brontai kai seismos kai halaza megale). Contudo, jamais nos ocorreria identificar qualquer um desses elementos com a Arca mencionada anteriormente. Por que, então, fazemos uma exceção para a visão da Mulher, que também se inicia com o mesmo conectivo?
- Embora seja verdade que a Arca apareceu no templo de Deus, que naturalmente está no céu (Ap 11:19), o próprio céu, no Apocalipse, constitui um cenário mais amplo no qual se desenrolam diversos eventos que não precisam ocorrer dentro do templo. Por exemplo, se a presença da Mulher no céu (ἐν τῷ οὐρανῷ, en tō ouranō, Ap 12:1) nos levasse a colocá-la no templo, também teríamos que colocar lá o Dragão (Ap 12:3) e a batalha entre Miguel e o Dragão com seus anjos (Ap 12:7), pois nesses trechos também aparece a expressão “no céu” (ἐν τῷ οὐρανῷ, en tō ouranō). O trecho de Isaías 66:6-7, embora possa ser considerado textual ou tematicamente conectado à nossa perícope, não resolve a questão, pois menciona apenas a voz vinda do templo, sem situar o parto de uma mulher ali.
- A simbologia dupla não é estranha a João; contudo, Arca e Mulher parecem ser símbolos distintos, porque, quando ele emprega dupla simbologia, o próprio autor a explica ao identificar um símbolo com outro — isso se aplica não apenas ao Dragão/Serpente como Diabo/Satanás (Ap 12:3, 9, 12) e ao Homem/ Cordeiro como Jesus Cristo (Ap 12:5, 10-11, 17), mas também à Prostituta/Cidade como Babilônia (Ap 17:1, 5, 18, 18:2) e à Noiva/Cidade como Nova Jerusalém (Ap 21:2-3, 9-10). No caso da Arca (Ap 11:19) e da Mulher (Ap 12:1), o autor não utiliza expressões que indiquem que ele pretende revelar a identidade de uma através da outra. Na Apocalipse, João recebe uma série de visões e observa inúmeros símbolos que aparecem sucessivamente — assumir fortemente que se tratam da mesma pessoa ou coisa requer justificativa mais sólida do que a apresentada.
- Argumentar com base em Ap 11:19-12:1 a favor da tipologia de Maria como Nova Arca pressupõe que Maria seja a Mulher de Ap 12 — o que deve ser demonstrado previamente. Tal identificação apresenta várias dificuldades, incluindo o fato de que a Mulher experimenta dores de parto e possui mais de um filho, o que não se harmoniza bem com a mariologia católica (Ap 12:2, 5, 13, 17). A interpretação eclesiológica, que vê a Mulher como símbolo do povo de Deus, explica todos os dados de forma coerente, tornando a interpretação mariológica desnecessária.
- A visão da Arca da Aliança no templo celestial anuncia o juízo do Senhor dos Exércitos (Ap 11:18-19), mas também expressa a fidelidade de Deus à aliança, mostrando que a presença de Deus estará para sempre com seu povo: “Ouvi uma grande voz do trono, dizendo: ‘Eis o tabernáculo de Deus com os homens: e ele habitará com eles, e eles serão seu povo, e Ele será Deus com eles’” (Ap 21:3). Uma vez que a Arca apareceu, será visível para todos, não apenas para os sumos sacerdotes, mas para todo o povo de Deus, habitando o novo céu e a nova terra. Como a visão da Arca pode ser compreendida sem referência a Maria, buscar nela a figura de Maria constitui um artifício desnecessário.
O misterioso interior da Arca
Em última análise, a validade da tipologia Arca–Maria tenta-se demonstrar recorrendo ao significado dos objetos que outrora se encontravam na Arca. Na Carta aos Hebreus encontramos uma lembrança do que a arca de Deus continha:
Atrás do segundo véu havia o santuário chamado “Lugar Santíssimo”. Ele possuía o altar de ouro para incenso e a Arca da Aliança, toda revestida de ouro. Estavam nela um vaso de ouro com o maná, a vara de Arão que floresceu e as tábuas da Aliança. (Hb 9:3-4)
Enquanto a primeira Arca continha o pão perecível do céu (Êx 16), no seio da segunda Arca encontrava-se o Filho de Deus, o pão da vida imperecível (Jo 6:32). Na primeira Arca estava a vara de Arão, o primeiro sumo sacerdote terreno (Nm 17), e na segunda Arca habita Aquele que é chamado de Sumo Sacerdote celestial (Hb 3:1). Finalmente, na primeira Arca foram colocadas as tábuas da Aliança com a Palavra de Deus na forma do Decálogo (Êx 20), enquanto Maria carregava sob seu coração a pessoa do Verbo encarnado (Jo 1:14).
Basta, porém, uma pequena mudança de perspectiva para perceber que tal argumentação poderia igualmente sustentar uma tipologia cristológica. A segunda Arca seria, nesse caso, a natureza humana de Cristo, que encerra em si a divindade em forma corpórea; e por trás da face humana de Jesus encontra-se o pão da vida, o Sumo Sacerdote celestial e o Verbo encarnado — o que corresponde perfeitamente ao conteúdo da primeira Arca, sem alterar as referências bíblicas acima mencionadas.33 Além disso — como veremos adiante — tal tipologia possui precedentes tanto bíblicos quanto patrísticos.
Contra-argumentos bíblicos
A tipologia aqui é simplesmente desnecessária. Nem toda pessoa ou objeto significativo do Antigo Testamento precisa ter um correspondente no Novo Testamento — não precisamos responder à pergunta Quem ou o que é a Nova Arca?, assim como não precisamos responder a perguntas como Quem ou o que é o Novo Caim?, Quem ou o que é a Nova Jericó? ou Quem ou o que é o Novo Eliseu?
Jesus é a Nova Arca. Se já buscamos uma Nova Arca, ele é o candidato mais adequado, pois é o homem em quem habita toda a plenitude: a divindade, em forma corpórea (Cl 2:9). Ele é, além disso, o Senhor encarnado da glória (1Co 2:8) e o único Mediador entre Deus e os homens, onde céu e terra se encontram (1Tm 2:5). É também o Verbo eterno, que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1:14), e Aquele em quem, segundo o autor da Carta aos Hebreus, se cumpre o significado de todos os objetos litúrgicos da Antiga Aliança, incluindo a Arca da Aliança (Hb 9).
João parece apresentar o sepulcro de Jesus como uma Arca na cena do encontro do Ressuscitado com Maria Madalena (Jo 20:11-12, cf. Êx 25:17-22). Além disso, Jesus não é apenas a Arca, mas todo o Templo, como ele mesmo menciona (Jo 2:19-22). Ainda por cima, esse ponto se fortalece pelo fato de que a tipologia cristológica foi cronologicamente a primeira a surgir nos Pais da Igreja — e isso antes mesmo do Concílio de Niceia.34
Problema da teologia lucana. Os Atos dos Apóstolos atestam a convicção de Lucas de que Deus não habita em obras feitas por mãos humanas (At 7:48). Após essas palavras, Estêvão cita o livro de Isaías (At 7:49-50, cf. Is 66:1). No contexto, são mencionados o Tabernáculo do Testemunho (At 7:44-45) e o Templo (At 7:46-47). Se a intenção de Lucas fosse mostrar Maria como a Nova Arca em Lc 1:35-56, tal diminuição da importância do Tabernáculo e do Templo seria inadequada.35
A Arca tinha significado temporário. O valor da Arca residia na presença de Deus que a acompanhava, não nela mesma. Se Maria fosse a Nova Arca, desfrutaria dessa dignidade apenas do momento da concepção do Deus-Homem até o seu nascimento, ou seja, de forma extremamente breve.36 Tal raciocínio estaria em consonância com o fato de que Jesus priorizava a consanguinidade espiritual sobre a física (Mt 12:46-50; Mc 3:31-35; Lc 8:19-21), e Lucas vê a grandeza de Maria não tanto no privilégio de ser Mãe de Cristo, mas em sua obediência à Palavra de Deus (Lc 1:38, 45; 2:19, 51; 11:27-28). O significado da Arca do Antigo Testamento também era temporário (Jr 3:16).
Questão de abuso metodológico. Não apenas em relação a esta tipologia, mas também a muitas outras tipologias mariológicas, podem ser levantadas objeções de natureza metodológica. Elas parecem ser criadas ad hoc, de modo que os limites do uso da tipologia não são definidos por princípios objetivos, mas pela doutrina da instituição.
Nova tipologia
A nova tipologia, à qual os autores inspirados não dão atenção, deve cumprir apenas o papel de ilustrar ou tornar evidente um ensinamento bíblico claro, e não servir de base para novas afirmações teológicas (Judas 3; 2 Tm 1:13-14, 3:14-17; 1 Co 15:1-2; 2 Ts 2:15; Gl 1:6-9). Infelizmente, os católicos romanos criam tipologias mariológicas principalmente com o objetivo de encontrar nas Escrituras autenticação para novas doutrinas sobre Maria, não apenas inexistentes em outros lugares da Bíblia, mas por vezes até em conflito com ela.
A tipologia deve ser primariamente cristocêntrica, pois é em Cristo que toda a Escritura encontra sua referência – e esse é, de fato, o seu propósito (Lc 24:25-27, 44-45; Jo 1:45, 5:39; 2 Tm 3:14-15). Portanto, se houver conflito entre antítipos concorrentes para um mesmo tipo, e se esse tipo puder encontrar seu cumprimento em Cristo, a tipologia cristológica deve ter prioridade. Como já observamos, a Arca certamente pode ser um tipo de Jesus; daí decorre que a tipologia católica viola essa regra.
Em primeiro lugar, a própria Bíblia deve nos indicar os tipos e antítipos e onde devemos procurá-los – usamos tipos e antítipos claros para, por analogia, descobrir tipos e antítipos menos evidentes. Uma vez que sabemos com certeza que Jesus é o Novo Adão (Rm 5:12-21; 1 Co 15:20-23, 45-49) e que Eva era a esposa de Adão (Gn 2-3), a Nova Eva não será procurada na Mãe, mas na Esposa de Cristo – a Igreja (Jo 3:29; 2 Co 11:2-3; Ef 5:22-33; Ap 21:2, 9-10).
Do mesmo modo, sabendo que Jesus é o Novo Templo (Jo 2:19-22), é nele que se cumpre o significado de todos os utensílios do templo (Hb 9), e a Encarnação possui conotações litúrgicas (Jo 1:14). Por conseguinte, a Nova Arca não deve ser procurada na Mãe do Filho, mas no próprio Filho.37
Conclusões – algumas palavras sobre a “varinha mágica” da tipologia
Um dos primeiros mariologistas a desenvolver a justificativa para buscar no relato lucano de Maria um antítipo da Arca da Aliança do Antigo Testamento foi o teólogo católico francês René Laurentin, que propôs tal tipologia em 1957.38 No entanto, as paralelas apresentadas por Laurentin não convenceram a maioria dos estudiosos quanto à sua validade, e mesmo biblistas católicos se distanciam de sua tese.39
Pois bem, após analisar os argumentos invocados em defesa de sua convicção, não surpreende o estado das coisas. A tentativa de correlacionar passagens do Livro do Êxodo e do Segundo Livro de Samuel com o Evangelho de Lucas (Êx 40:35; 2 Sm 6:2-16, cf. Lc 1:35-56) revelou-se um fracasso devido à verdadeira proliferação de problemas, que descrevemos detalhadamente ao resumir a seção do artigo dedicada a eles. Não é necessária uma análise linguística especializada para perceber que a vasta maioria das paralelas nebulosas, supostamente retratando Maria como a Nova Arca, caracteriza-se por uma irritante imprevisibilidade, que impede a mente de reconhecer nelas o desígnio do Evangelista, muito menos o plano divino. Em consequência, a artificialidade dessa construção impõe-se mesmo ao leitor leigo da Bíblia. Um indício adicional teria sido o texto do Apocalipse, onde encontramos a Arca e a Mulher, identificada pelos católicos romanos com Maria (Ap 11:19–12:1). Aqui também a argumentação revelou-se insuficientemente rigorosa e baseada em pressupostos prévios cuja veracidade deveria ser demonstrada antes de usar o texto na discussão. A última tábua de salvação para os defensores de Roma seria o conteúdo simbólico da Arca, mas uma pequena mudança de perspectiva transforma esse argumento em um caso não de tipologia mariológica, mas de tipologia cristológica. Na seção final, examinamos a contraposição bíblica, não apenas refutando a tipologia Arca–Maria, mas estabelecendo Arca–Cristo como a tipologia correta. Especial atenção deve ser dada às questões metodológicas, relevantes também para outros esforços de apologetas católicos que tentam identificar Maria em diversas figuras femininas do Antigo Testamento.
Infelizmente, diante do fato de que os dados reunidos não permitem concluir que a figura neotestamentária de Maria corresponda à Arca da Aliança do Antigo Testamento, pode-se supor que a defesa de tal tipologia decorra, sobretudo, de motivações de natureza dogmática. A “varinha mágica” da tipologia pretende tornar bíblico aquilo que não encontra confirmação nas Escrituras, seja no ensino expresso de forma direta ou indireta. Nessa perspectiva, a relação real entre os textos torna-se secundária em relação à vontade do apologeta, pronto para encontrar no Antigo Testamento qualquer elemento que o Magistério da Igreja Romana considere necessário incluir. Concluindo, tudo nos leva a concordar com a posição compartilhada por estudiosos protestantes e católicos, expressa no livro Mary in the New Testament, fruto de sua colaboração científica: em nossa avaliação, não existe material probatório convincente que sustente a tese de que Lucas tenha claramente identificado Maria com a simbologia da Arca da Aliança.40
Referências:
- F. Ninow, Tipologia, em: Dicionário Bíblico Eerdmans, ed. DN Freedman, Grand Rapids, Cambridge 2000, p. 1341. ↩︎
- cf. Catecismo da Igreja Católica, Poznań 2002, p. 614. ↩︎
- B. Pitre, Jesus e as raízes judaicas de Maria, Cracóvia 2020, pp. 74-79; S. Hahn, Maria: Mãe e Rainha, Częstochowa 2015, p. 153; T. Staples, Behold Your Mother: A Biblical and Historical Defense of the Marian Doctrines, El Cajon 2014, versão Kindle, loc. 1286-1293, 3210-3215. ↩︎
- T. Staples, Behold Your Mother…, versão Kindle, loc. 2299-2315. ↩︎
- B. Pitre, Jesus e as raízes judaicas de Maria…, pp. 65-71; S. Hahn, Maria…, pp. 92-95; T. Staples, Behold Your Mother, versão Kindle, loc. 1222-1245. ↩︎
- S. Ray, Mary, the Ark of the New Covenant, Catholic Answers, 20/05/2019, online: link (acesso em 13/09/2021). ↩︎
- B. Pitre, Jesus e as raízes judaicas de Maria…, pp. 71-74; S. Hahn, Maria…, pp. 78-80; T. Staples, Behold Your Mother, versão Kindle, loc. 3170-3184. ↩︎
- B. Pitre, Jesus e as raízes judaicas de Maria…, pp. 74-75; S. Hahn, Maria…, pp. 88-89; T. Staples, Behold Your Mother, versão Kindle, loc. 175-186, 1229-1233. ↩︎
- Septuaginta: Id est Vetus Testamentum graece iuxta LXX interpretes, 2.ª ed., ed. A. Rahlfs, R. Hanhart, Stuttgart 2006. ↩︎
- Septuaginta, 3.ª ed., ed. R. Popowski, Varsóvia 2017. ↩︎
- Novum Testamentum Graece, 28.ª ed., eds. B. Aland, K. Aland, J. Karavidopoulos, C. M. Martini, B. M. Metzger, Stuttgart 2012. ↩︎
- Biblia Tysiąclecia: Pismo Święte Starego i Nowego Testamentu, 5.ª ed., Poznań 2000. ↩︎
- ἐπισκιάζω, σκιάζω, em: The Greek-English Lexicon of the Septuagint (LEH), ed. J. Lust, E. Eynikel, K. Hauspie, Stuttgart 2015, pp. 233, 556. ↩︎
- R. E. Brown, O Nascimento do Messias: Um Comentário sobre os Narrativos da Infância nos Evangelhos de Mateus e Lucas, Nova Iorque 1993, p. 327. ↩︎
- Mary in the New Testament: Uma Avaliação Colaborativa por Acadêmicos Protestantes e Católicos Romanos, org. R. E. Brown, K. P. Donfried, J. A. Fitzmyer, J. Reumann, Londres 1978, p. 133. ↩︎
- E. D. Svendsen, Quem é Minha Mãe?: O Papel e o Status da Mãe de Jesus no Novo Testamento e no Catolicismo Romano, Potchefstroom 2001, p. 139. ↩︎
- 2 Sm 6:2, em: Biblia Hebraica Stuttgartensia, 5.ª ed., org. A. Alt, O. Eissfeldt, P. Kahle, R. Kittel, K. Elliger, W. Rudolf, Stuttgart 1997. ↩︎
- Os editores da Bíblia Tysiąclecia tentam, neste trecho, harmonizar um texto incompreensível. Eles traduzem מִֽבַּעֲלֵ֖י יְהוּדָ֑ה (meba’ale jehuda) como “em direção à Baali de Judá”, porque, com tal tradução, fazem sentido as palavras que definem o objetivo de Davi e de seus companheiros, ou seja, trazer de lá a Arca de Deus. Infelizmente, o texto hebraico, tratado ad verbum, não permite tal solução. ↩︎
- J. A. Fitzmyer, O Evangelho Segundo Lucas I-IX, The Anchor Yale Bible Commentary (AYBC), New Haven, Londres 2008, p. 364. ↩︎
- M. L. Strauss, O Messias Davídico em Lucas-Atos: A Promessa e seu Cumprimento na Cristologia Lucana, Sheffield 1995, p. 95. ↩︎
- E. D. Svendsen, Who is My Mother…, p. 139. ↩︎
- Mary in the New Testament…, p. 134. ↩︎
- εὐλογέω, em: O Léxico Grego-Inglês da Septuaginta (LEH), p. 251; εὐλογέω, em: A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (BDAG), org. F. W. Danker, W. Bauer, Chicago, Londres 2000, pp. 407-408. ↩︎
- 2 Sm 6:14: Biblia Hebraica Stuttgartensia… ↩︎
- ἀνακρούομαι, em: O Léxico Grego-Inglês da Septuaginta (LEH), p. 39. ↩︎
- ὀρχέομαι, em: O Léxico Grego-Inglês da Septuaginta (LEH), p. 447; σκιρτάω, em: A Greek-English Lexicon of the New Testament… (BDAG), p. 930. ↩︎
- Mary in the New Testament…, p. 133. ↩︎
- R. Laurentin, Maria: Mãe do Redentor, Varsóvia 1988, p. 37. ↩︎
- K. H. Jobes, M. Silva, Septuaginta, em: The Zondervan Encyclopedia of the Bible, vol. 5, org. M. C. Tenney, M. Silva, Grand Rapids 2009, p. 408. ↩︎
- φωνή, ῆς, em: O Léxico Grego-Inglês da Septuaginta (LEH), p. 657; φωνή, ῆς, ἡ, em: A Greek-English Lexicon of the New Testament… (BDAG), p. 1071. ↩︎
- κραυγή, ῆς, em: O Léxico Grego-Inglês da Septuaginta (LEH), p. 354; κραυγή, ῆς, ἡ, em: A Greek-English Lexicon of the New Testament… (BDAG), p. 565. ↩︎
- ὁράω, em: A Greek-English Lexicon of the New Testament… (BDAG), pp. 719-720. ↩︎
- Vale, no entanto, notar a problemática da simbologia por trás da vara de Arão, independentemente de adotarmos uma tipologia mariológica ou cristológica. A vara de Arão indica a origem genealógica dos sacerdotes a partir de Arão (Nm 18:1-7). O Novo Testamento nega de forma inequívoca essa linhagem a Cristo, derivando Sua dignidade sacerdotal de Melquisedeque (Hb 7:11-13). ↩︎
- Trata-se de Irineu de Lyon (séc. II), Tertuliano de Cartago (séc. II/III), Hipólito de Roma (séc. II/III) e Vitorino de Pádua (séc. III/IV) – esses e outros testemunhos serão documentados na segunda parte do artigo, concentrada no material patrístico. ↩︎
- Mary in the New Testament…, p. 133. ↩︎
- E. D. Svendsen, Who is My Mother…, p. 139. ↩︎
- R. E. Brown, The Birth of the Messiah…, p. 327 ↩︎
- R. Laurentin, Structure et théologie de Luc I-II. Paris 1957. ↩︎
- Mary in the New Testament…, pp. 132-134; A. J. Tambasco, O que estão dizendo sobre Maria?, Nova Iorque 1984, p. 32; R. E. Brown, O Nascimento do Messias…, pp. 327-328, 344-345; M. L. Strauss, O Messias Davídico em Lucas-Atos…, pp. 95-96; E. D. Svendsen, Quem é Minha Mãe…, pp. 138-140; J. A. Fitzmyer, O Evangelho Segundo Lucas I-IX…, pp. 364-365. ↩︎
- Mary in the New Testament…, p. 134; tradução própria do inglês. ↩︎
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