Neste breve texto de blog, gostaríamos de dar um passo preliminar em direção a uma abordagem evangélica mais equilibrada das obras de Aristóteles e de Tomás de Aquino. Faremos isso mostrando que, longe de ser contrário ao espírito da Reforma Protestante, o uso dos escritos e ensinamentos de Aristóteles e de Tomás de Aquino, e, de fato, a dependência desses dois grandes pensadores, pode ser tanto benéfico quanto útil para o desenvolvimento e a defesa da teologia protestante evangélica. Como procederíamos para demonstrar tal hipótese?
O primeiro passo, que nos propomos a dar neste texto, é mostrar que os próprios teólogos que iniciaram a Reforma Protestante, e que lhe conferiram sua forma duradoura, não apenas fizeram uso de Aristóteles e de Tomás de Aquino, mas que, de fato, sua teologia era, em muitos pontos, dependente de Tomás de Aquino e de Aristóteles. Para isso, começaremos por articular as premissas principais que um argumento dessa natureza exige. Em seguida, consideraremos, brevemente, aqueles fatos históricos que podem sustentar as premissas de tal argumento. Isso será feito apontando algumas das pesquisas mais recentes a respeito da relação entre Aquino, Aristóteles e os primeiros reformadores. Também observaremos a contínua dependência reformada de Aquino e Aristóteles.
Nossa Proposição
Consideremos as seguintes afirmações. Há, antes de tudo, certas verdades do cristianismo que os reformadores consideravam necessárias à ortodoxia. Isto é, para ser verdadeiramente cristão, é necessário aceitar e professar um certo número de doutrinas. Essas doutrinas são frequentemente explicadas e defendidas nos escritos dos primeiros Reformadores. Para ser verdadeiramente ortodoxo, enquanto pensador, teólogo ou filósofo reformado contemporâneo, é necessário afirmar essas doutrinas.
Podemos propor, em segundo lugar, que os primeiros Reformadores fizeram uso e até mesmo dependeram dos escritos e das ideias de Aristóteles e de Tomás de Aquino, a fim de explicar e defender adequadamente precisamente aquelas doutrinas que consideravam necessárias à ortodoxia.
Se essas duas primeiras afirmações são verdadeiras, então, assim propomos, para manter a ortodoxia, podemos, isto é, estamos mais do que plenamente autorizados a fazer uso desses mesmos escritos e ideias, e, talvez, devemos, usar e até mesmo depender dos escritos e ensinamentos de Aristóteles e de Tomás de Aquino para defender e articular essas mesmas doutrinas.1
Procuraremos, no que segue, demonstrar que os primeiros Reformadores, em seus escritos, fizeram uso e dependeram dos escritos e das ideias de Aristóteles e de Tomás de Aquino para articular e defender doutrinas que consideravam absolutamente necessárias à fé cristã ortodoxa. Se obtivermos êxito, então parece seguir-se que, se desejamos permanecer fiéis ao espírito da Reforma, isto é, se desejamos permanecer dentro da ortodoxia, então também podemos, e de fato devemos, fazer uso e depender dos escritos e das ideias de Aristóteles e de Tomás de Aquino.
Eis o argumento essencial:
- Há certas verdades do cristianismo que os primeiros Reformadores consideravam necessárias à ortodoxia.
- Os primeiros Reformadores fizeram uso e até mesmo dependeram dos escritos e das ideias de Aristóteles e de Tomás de Aquino, a fim de explicar e defender adequadamente precisamente aquelas doutrinas que consideravam necessárias à ortodoxia.
- Se essas duas primeiras afirmações são verdadeiras, então, assim propomos, para manter a ortodoxia, podemos, isto é, estamos mais do que plenamente autorizados a fazer uso desses mesmos escritos e ideias, e, talvez, devemos usar, e até mesmo depender, dos escritos e ensinamentos de Aristóteles e de Tomás de Aquino para defender e articular essas mesmas doutrinas.
- Ora, as duas primeiras afirmações são verdadeiras.
- Portanto, para manter a ortodoxia, podemos, isto é, estamos mais do que plenamente autorizados a fazer uso desses mesmos escritos e ideias, e, talvez, devemos, usar e até mesmo depender dos escritos e ensinamentos de Aristóteles e de Tomás de Aquino para defender e articular essas mesmas doutrinas.
A Primeira Premissa
A primeira premissa pareceria ser bastante óbvia e, como tal, não necessita de defesa. Pode ser útil, contudo, antes de passarmos à consideração da segunda premissa, observar algumas daquelas afirmações que devem ser professadas para que alguém seja considerado ortodoxo. Uma breve consideração da Confissão de Westminster nos fornece, entre outras coisas, um conjunto de importantes afirmações acerca de Deus, da natureza divina, da soberania e causalidade divinas, da Trindade, do modo como o homem conhece a Deus, do pecado e da salvação. Essas afirmações são tomadas como necessárias à ortodoxia, de modo que a sua negação conduz à heterodoxia. Uma breve lista de doutrinas, especialmente relevantes para a discussão deste texto, inclui, embora certamente não se limite a, as seguintes: (1) Deus é, com base na segunda e terceira seções do segundo capítulo da Confissão, infinito em ser e perfeição, espírito puríssimo, invisível, incorpóreo, absolutamente simples, absolutamente impassível, absolutamente imutável, imenso, eterno (ou atemporal, não temporal), incompreensível, onipotente, onisciente, absolutamente livre, absolutamente autossuficiente, o único fundamento de todo ser, infalível, etc. (2) Os seres humanos caídos podem, com base na primeira seção do primeiro capítulo, conhecer algo de Deus por meio da faculdade racional que lhes foi dada por Deus e por suas observações da criação divina, da providência e da consciência humana, chegando a conhecer algo, ao menos, da bondade, sabedoria e poder de Deus.2 É isto que Calvino, nas Institutas, chama de conhecimento de Deus como Criador,3 e é o conhecimento obtido por meio da Theologia Naturalis.4 Tal conhecimento não é suficiente para a salvação, mas ainda assim é conhecimento do único Deus verdadeiro. Poderíamos acrescentar outras doutrinas, mas estas bastam, por ora.
A Segunda Premissa
A segunda premissa exprime o seguinte ponto: os Reformadores perceberam que havia certas doutrinas, tal como explicadas por Aquino e Aristóteles, que eram necessárias à fé cristã ortodoxa. Outra maneira de expressar esse ponto é dizer que os Reformadores originais compreenderam que não havia sentido em jogar fora o bebê junto com a água do banho. Assim, em sua defesa da Reforma, fizeram uso e dependeram daquelas verdades que haviam sido descobertas por teólogos e filósofos anteriores à Reforma. De fato, poder-se-ia até propor que foi precisamente por causa de sua compreensão do cristianismo e da realidade, obtida mediante a leitura e o estudo, por exemplo, de Aquino e Aristóteles, que eles se tornaram “reformados” em primeiro lugar. Ora, podemos propor que, se há certas verdades acerca da realidade e de Deus que são necessárias à ortodoxia, e se essas verdades foram descobertas, e melhor explicadas e defendidas por Aristóteles e Aquino, então não devemos nos surpreender ao constatar que os pais da Reforma, reconhecendo tais verdades, fizeram uso de Aquino e Aristóteles, e de fato dependeram deles, em sua articulação e defesa dessas mesmas doutrinas. Se assim procederam, então, propomos, se desejamos manter a ortodoxia, podemos fazer uso, isto é, estamos mais do que plenamente autorizados a fazer uso desses mesmos escritos e ideias, e talvez devamos usar e até mesmo depender dos escritos e do ensino de Aristóteles e de Tomás de Aquino para defender e articular precisamente essas mesmas doutrinas. Além disso, podemos acrescentar que, se os pais da Reforma consideravam determinado autor uma boa referência para suas próprias formulações e defesas da teologia reformada, e se nós buscamos emular os pais da Reforma, então, ao que parece, é apenas natural aceitar o mesmo autor como uma boa referência para a nossa própria teologia.
A Terceira Premissa
Provar a terceira premissa pode parecer uma tarefa enorme. De fato, é. É precisamente por isso que afirmamos que este texto de blog é proposto como um primeiro passo na tentativa de demonstrar que os protestantes contemporâneos devem fazer uso e depender de Aristóteles e de Aquino. Esta seção necessariamente oferecerá apenas um resumo de pesquisas recentes em algumas áreas, pressupondo que o leitor poderá desenvolver por si mesmo as linhas de pensamento aqui apresentadas. Como primeira incursão na defesa desta terceira premissa, apontaremos, em primeiro lugar, para o fato de que os primeiros Reformadores fizeram uso da Triplex Via , aquele método que foi articulado e utilizado por Tomás de Aquino, bem como por outros pais da Igreja ao longo da história, a fim de descobrir e defender os atributos de Deus que mencionamos acima. Em seguida, apresentaremos algumas pesquisas recentes que parecem demonstrar que João Calvino e até mesmo Martinho Lutero fizeram uso de algumas das ideias de Aristóteles e de Tomás de Aquino, e de fato dependeram delas. Por fim, apresentaremos algumas pesquisas recentes que mostram que muitos teólogos influentes da Reforma, desde o tempo de Calvino e Lutero, como Pedro Mártir Vermigli e Jerônimo Zanchi, até o presente, fizeram uso e foram dependentes dos escritos e do pensamento de Aristóteles e de Tomás de Aquino. Cumpre notar que a terceira premissa é uma afirmação puramente histórica e, de fato, o que estamos propondo neste texto é um argumento fundamentado na história. Comecemos, pois, com a Triplex Via.
A Triplex Via
Primeiramente, no que concerne ao uso da Triplex Via na teologia reformada no tempo de Calvino, devemos considerar o que John Patrick Donnelly afirma em seu artigo “Calvinist Thomism”.5 Donnelly observa que Girolamo Zanchi6 “aceita e segue a doutrina escolástica da triplex via e da predicação analógica ao falar acerca de Deus”.7 E quanto aos demais teólogos reformados ao longo dos séculos? O renomado teólogo Herman Bavinck observa, a respeito da Triplex Via, que “a escolástica adotou formalmente a distinção tríplice, e teólogos católicos romanos, luteranos e reformados igualmente continuaram a empregá-la”.8 Charles Hodge também explica e defende a importância e a utilidade da Triplex Via.9 Poderíamos ainda mencionar que o teólogo batista reformado Emery H. Bancroft, anteriormente do Baptist Bible College & Seminary da Pensilvânia, reconhece a utilidade da Triplex Via e a explica em sua obra Christian Theology.10 Bancroft nada mais faz do que seguir o exemplo do mais conhecido teólogo batista reformado Augustus H. Strong, que oferece a mesma explicação e defesa, quase nas mesmas palavras. Strong afirma, em sua Systematic Theology, a respeito da Triplex Via, que esse método é limitado, mas não destituído de valor, e que “nós o usamos continuamente para confirmar e complementar resultados obtidos por outros meios”.11 Poderíamos acrescentar muitos outros “testemunhos” a esta seção, mas passaremos ao próximo ponto.
O Uso de Aristóteles
Passemos agora a observar como os teólogos da Reforma, tais como Martinho Lutero e João Calvino, fizeram uso dos escritos e das ideias de Aristóteles e também de Tomás de Aquino. Em seguida, mostraremos que outros teólogos da Reforma continuaram, tanto contemporaneamente a Calvino e Lutero quanto nos anos subsequentes à Reforma, a fazer uso de Aristóteles e de Aquino. Importa notar, antes de tudo, com Richard A. Muller, professor de Teologia Histórica no Calvin Theological Seminary, que tanto Martinho Lutero quanto João Calvino fizeram uso das obras e ensinamentos de Aristóteles, e dependeram deles. Aqueles que estudaram as obras de Tomás de Aquino também reconhecerão que esses mesmos pontos foram igualmente afirmados por Aquino. No que diz respeito a Lutero, que é conhecido por suas frequentes recomendações para que se descartassem os escritos de Aristóteles,12 Muller demonstra que Lutero frequentemente utilizava e fazia referência às quatro causas de Aristóteles,13 às teorias morais aristotélicas encontradas na Ética a Nicômaco,14 bem como aos escritos do Organon, incluindo os Analíticos, a Retórica e outros.15 Quanto a Calvino, Muller demonstra que este grande Reformador frequentemente recorria a teorias e conceitos aristotélicos, por exemplo, em seus escritos sobre a liberdade da vontade, “para indicar a oposição entre necessidade e ‘a existência de possibilidades alternativas’”.16 Calvino “cita a Ética a Nicômaco a fim de argumentar que a incapacidade não remove a responsabilidade”.17 Calvino também faz uso “da distinção aristotélica entre matéria e forma”,18 da abordagem aristotélica da causalidade por meio das quatro causas,19 dos argumentos de Aristóteles acerca do primeiro motor,20 bem como da psicologia aristotélica.21 Donnelly explica que os teólogos reformados escolásticos, desde o tempo de Calvino e Lutero até o presente, edificaram sua teologia sobre ideias “largamente tomadas de empréstimo de Aristóteles”.22 Observamos, por exemplo, nas Institutas, que Calvino utiliza conceitos de Aristóteles para demonstrar que a própria existência da humanidade constitui evidência da sabedoria criadora de Deus.23 Como é bem conhecido, Calvino elogia as grandes obras literárias da Antiguidade, tais como Platão e Aristóteles, observando que elas possuem o poder de mover a alma, mas que as Sagradas Escrituras pertencem a uma esfera inteiramente diversa.24 Ora, muitos tomam isso como sinal de que Calvino julgava os demais autores indignos de leitura; contudo, isso é uma má compreensão dessa afirmação. Dizer que X é infinitamente maior do que Y não equivale a dizer que Y nada vale. Antes, afirmar que Y possui grande valor, mas que X é infinitamente superior a Y, não é diminuir Y, mas glorificar X. Deve ser evidente, portanto, que Calvino nutria grande apreço pelas obras de Platão e Aristóteles. Por fim, na discussão de Calvino sobre corpo e alma, especialmente acerca da imortalidade da alma, ele remete o leitor às obras de Aristóteles, Cícero e outros autores da Antiguidade, para um tratamento mais elaborado e aprofundado do tema do sono e dos sonhos.25 Poderíamos prosseguir, mas não há necessidade. No tocante a outros teólogos reformados, Richard A. Muller, em outro artigo, demonstra que François Turretini, em sua construção de uma teologia reformada coerente, foi frequentemente conduzido “primeiro a Aristóteles e à filosofia clássica e, em segundo lugar, aos escolásticos medievais”.26 Sua exposição da teologia de Turretini mostra que este edificou sua teologia em constante interação, por vezes positiva, por vezes negativa, com os escritos de Aristóteles e de Tomás de Aquino. Com isso em mente, voltemo-nos agora ao uso reformado de Tomás de Aquino.
O Uso de Aquino
É, portanto, um fato histórico que os teólogos da Reforma fizeram uso de Aristóteles; mas e quanto a Tomás de Aquino? Com frequência nos é dito que a Reforma foi uma reação contra a teologia desenvolvida por Tomás de Aquino. A realidade, porém, é que tal descrição da Reforma é falsa precisamente por sua imprecisão; e, para aceitá-la, é necessário estar cego à realidade histórica da própria Reforma. Muller demonstra que:
“Pelo lado negativo, é seguramente inexato afirmar que a Reforma, seja na forma que lhe foi dada por Lutero, por Zuínglio ou por qualquer outro dos primeiros Reformadores, tenha sido uma reação contra o tomismo… não foi o tomismo que produziu nem a especulação excessiva nem o semipelagianismo que os primeiros Reformadores visavam em suas polêmicas. Além disso, há significativos matizes tomistas na exegese de Martinho Bucer, que, afinal, foi formado como dominicano, e há ecos tomistas suficientes no pensamento de Vermigli para que ele possa ser caracterizado como ‘tomismo calvinista’”.27
De fato, Arvin Vos, em sua obra Aquinas, Calvin, Protestant & Contemporary Thought,28 não apenas demonstra que há, em termos gerais, concordância entre os ensinamentos teológicos de Calvino e de Aquino, mas também que aqueles teólogos calvinistas que atacaram os ensinamentos de Tomás de Aquino estavam, em geral, lamentavelmente alheios ao que Aquino de fato havia dito. Vos observa que:
“Os autores protestantes que citei, e outros semelhantes a eles, constituem uma tradição. Em grande medida, autores posteriores simplesmente se apoiaram em escritores anteriores para formular suas opiniões, e poucos deles realmente estudaram as obras de Aquino”.29
Em seu artigo “Calvinist Thomism”, Donnelly demonstra que é um fato histórico que vários daqueles teólogos reformados que foram mais importantes para a formação, articulação e defesa da teologia da Reforma, entre os quais ele menciona Teodoro de Beza, Pedro Martyr Vermigli e Girolamo Zanchi,30 fizeram uso e dependeram dos escritos e do pensamento de Tomás de Aquino.Donnelly nos recorda, de fato, que não foram apenas os calvinistas que fizeram uso de Tomás de Aquino, mas também teólogos luteranos, como Johann Dorsch, que escreveu um tomo de cerca de “oitocentas páginas para demonstrar que Aquino era um bom luterano”.31
Calvino interage com Aquino? A resposta, evidentemente, é afirmativa. Já no primeiro livro das Institutas, Calvino faz uma afirmação, influenciada por Aquino, a respeito do conhecimento de Deus como o fim último da vida bem-aventurada.32 Ele também aprova as distinções de Aquino entre necessidade relativa e absoluta, bem como entre consequente e consequência.33 Além dessas, e de muitas outras doutrinas, observamos, na afirmação calviniana da simplicidade divina,34 da imutabilidade divina35 e da impassibilidade divina, isto é, que não há paixões ou emoções em Deus,36 a influência dos grandes pais da Igreja e, de modo especial, de Aquino, que foi provavelmente o maior defensor desses atributos divinos.
No que diz respeito a Pedro Martyr Vermigli, formado no pensamento tomista-aristotélico,37 Vermigli foi um teólogo reformado altamente respeitado desde sua conversão ao protestantismo em 1540 até sua morte em 1562, sendo admirado nos círculos reformados “por santidade, prudência e erudição”.38 Donnelly explica que: (1) “seus autores favoritos eram Aristóteles e Aquino”;39 (2) “à semelhança de Aquino, Mártir procura incorporar ao seu sistema o máximo possível de Aristóteles, na medida em que isso seja consistente com a Escritura”;40 e (3) “Vermigli concorda com Aquino com muito mais frequência do que reconhece”.41 É fato bem conhecido que Vermigli escreveu um comentário sobre a Ética a Nicômaco de Aristóteles42 e ministrava diariamente aulas sobre textos das obras aristotélicas.43 McLelland, em sua introdução ao comentário de Vermigli sobre a Ética a Nicômaco, observa que: “Tal realismo moral convém muito bem a Vermigli, uma vez que ele aceita a psicologia essencial e a metaética tanto de Aristóteles quanto de Aquino”.44 Apontar, em detalhe, a dependência de Vermigli em relação a Aquino em seu comentário sobre Aristóteles seria tarefa demasiadamente extensa para os nossos propósitos.
No que diz respeito a Girolamo Zanchi, Donnelly afirma que ele é o melhor exemplo de um calvinista tomista.45 Donnelly explica que, embora Calvino nunca tenha escrito um tratado específico sobre os atributos divinos, Zanchi seguiu as pegadas de Aquino ao redigir um extenso tratado sobre os atributos de Deus.46 De fato, “naquelas áreas em que não havia controvérsia entre católicos e calvinistas, como na doutrina de Deus, na Trindade, na doutrina da predestinação, nas virtudes etc., Zanchi segue Aquino de perto”.47 Donnelly menciona, por fim, aqueles escritos nos quais Zanchi chega a utilizar Tomás de Aquino para refutar os erros da Igreja Católica Romana.48
Ter-se-ia interrompido o uso reformado de Tomás de Aquino e de Aristóteles com João Calvino, Teodoro de Beza, Pedro Martyr Vermigli e Girolamo Zanchi? Donnelly observa que até mesmo teólogos como François Turretini49 e os puritanos de Harvard50 também foram influenciados pelo tomismo de calvinistas como Vermigli e Zanchi. Com efeito, Donnelly observa: “Vermigli e Zanchi eram lidos no Harvard puritano, onde os teólogos estavam tão inclinados a citar Aquino quanto Calvino”.51 Muller, em artigo já citado acima, observa que Turretini fez uso de Tomás de Aquino, de João Duns Scotus e de outros grandes teólogos escolásticos medievais, e que a força normativa da grande obra teológica de Turretini “alcança sua amplitude e caráter abrangente por um recurso consistente não apenas ao pensamento dos grandes Reformadores, mas à totalidade da tradição cristã, e especificamente às definições e paradigmas dos doutores medievais”.52 Até mesmo Stephen Charnock, cuja obra sobre a doutrina de Deus é amplamente renomada em todos os círculos protestantes, recorreu a Tomás de Aquino e aos escritos de teólogos tomistas.53
Poderíamos ainda mencionar os escritos de Herman Bavinck, nos quais Tomás de Aquino é citado ou aludido quase tão frequentemente quanto a própria Escritura. Do mesmo modo, C. S. Lewis, embora não reformado em sentido estrito, foi certamente um grande apologista protestante, assim como teólogos protestantes contemporâneos, como R. C. Sproul e Norman Geisler, que se identificavam como teólogos evangélicos tomistas. Henry Thiessen, teólogo arminiano, também recorreu favoravelmente a Tomás de Aquino.54 Thomas C. Oden, teólogo wesleyano e arminiano, ao menos no primeiro volume de sua obra teológica em três volumes, faz referência a Tomás de Aquino com maior frequência do que a João Wesley e Armínio juntos.55 De fato, Oden chega a afirmar que:
“O teísmo saudável, conforme argumentado por Atanásio, Agostinho, Anselmo e Tomás, adota uma posição mediana entre estes dois extremos, a saber, que a razão nada pode conhecer ou que a fé pode conhecer tudo irrefletidamente sem a razão, ao sustentar que podemos usar alguns modos modestos e autocontidos de inferência para falar da existência de Deus”.56
Talvez também seja oportuno citar o renomado filósofo reformado Paul Helm, que afirmou, a respeito dos escritos de Tomás de Aquino, particularmente em relação à doutrina de Deus:
“Considero que não existe algo como uma ‘doutrina clássica calvinista de Deus’. Essa ‘doutrina’ nada mais é do que a doutrina cristã dominante sobre Deus. É a mesma, salvo alguns detalhes, que foi exposta por Agostinho, Anselmo e Aquino, o A team, três dos teólogos cristãos formativos do período anterior à Reforma”.57 Mais adiante, Helm afirma que: “até mesmo a doutrina pela qual Calvino é mais conhecido, e frequentemente atacado, a predestinação, ele a recebeu do A team, porque sustentava que aquilo em que eles criam era apostólico e dominical”.58
Por que usar Aquino e Aristóteles?
Antes de chegarmos à nossa conclusão, alguém poderia perguntar por que os teólogos da Reforma recorreram, com tanta frequência, aos teólogos escolásticos medievais para obter suas definições, terminologias, argumentos e até mesmo respostas. Alguns poderiam querer dizer que isso se deveu à influência do racionalismo cartesiano, que já começava a causar estragos na teologia cristã. Muller, contudo, demonstra que não foi esse o caso. A teologia de Turretini, por exemplo, foi escrita, em parte, precisamente para responder às heresias que estavam sendo propagadas pelos racionalistas.59 Por que, então, os teólogos da Reforma recorreram, em questões doutrinárias de grande importância, aos teólogos escolásticos medievais? Muller sugere que pode haver duas razões: (1) “em parte, por causa da necessidade de debater polemistas católicos romanos, como o grande Cardeal Belarmino, no nível sofisticado da sua própria escolástica”;60 (2) e, mais importante para os nossos propósitos, em vista do desenvolvimento de uma teologia reformada que fosse ao mesmo tempo completa e coerente:
“Este tópico [os prolegômenos e a teologia fundamental] não foi tratado por Lutero, Calvino ou seus contemporâneos [com algumas exceções]. Quando as gerações posteriores de teólogos protestantes abordaram a questão da teologia como disciplina, muito naturalmente recorreram aos prolegômenos teológicos escritos pelos grandes escolásticos: Tomás de Aquino, Duns Scotus, Durandus, Tomás de Estrasburgo”.61
Donnelly apresenta três razões para esse fenômeno, concordando com ambas as razões sugeridas por Muller. São elas: (1) a educação universitária, nos primeiros séculos da Reforma, ainda estava fundamentada na filosofia aristotélica;62 (2) a controvérsia religiosa entre teólogos católicos e teólogos reformados forçou os reformados a retornar “às categorias conceituais da escolástica em busca de mais munição, depois de terem esgotado seu arsenal de textos-prova escriturísticos”;63 (3) quanto mais os teólogos reformados procuravam desenvolver uma teologia sistemática, tanto mais eram compelidos a utilizar as “atitudes, categorias e doutrinas escolásticas”.64 Poderíamos resumir esses pontos por uma única noção, expressa na máxima: “em time que está ganhando, não se mexe”. Ou, talvez, pela expressão já utilizada: “não se joga fora o bebê com a água do banho”. A teologia não é como um cheque bancário. Um cheque administrativo inválido é simplesmente descartado. A teologia, porém, é um conjunto de doutrinas. Por isso, poderíamos compará-la antes a um cesto de maçãs. Se encontramos algumas maçãs estragadas, removemo-las, mas conservamos o restante para nosso uso e alimento. O fato de um teólogo não estar correto em sua explicação de uma ou duas doutrinas não significa que todo o restante de sua teologia seja ruim. Pode-se discordar de 20% da teologia de um autor e ainda utilizar os outros 80% que são bons, ou vice-versa, e foi basicamente isso que os teólogos originais da Reforma fizeram com os escritos dos escolásticos medievais, especialmente com Tomás de Aquino. Sua atitude não foi a de rejeição indiscriminada, mas a de apropriação crítica, criteriosa e doutrinariamente orientada.
Conclusão
Se logramos demonstrar que os Reformadores, ao buscarem oferecer a melhor explicação e defesa daquelas mesmas doutrinas que consideravam necessárias à ortodoxia, fizeram uso e dependeram dos escritos e das ideias de Aristóteles e de Tomás de Aquino, então parece que demonstramos também que, para manter a ortodoxia, podemos, isto é, estamos mais do que plenamente autorizados a utilizar esses mesmos escritos e ideias, e, de fato, devemos, fazer uso e até mesmo depender dos escritos e do ensino de Aristóteles e de Tomás de Aquino para defender e articular essas mesmas doutrinas. Parece, portanto, que aqueles teólogos reformados contemporâneos que demonstram desprezo e crítica ao uso evangélico e à dependência do pensamento de Aquino e Aristóteles deveriam arrepender-se e retornar às raízes da Reforma. Esqueceram-se de que os maiores teólogos da Reforma consideravam necessário, para a coerência, a defesa e a articulação da teologia reformada, utilizar, ensinar e depender de princípios e doutrinas tomista-aristotélicos.
O tomismo reformado, sem dúvida alguma, é a forma mais coerente de teologia reformada, e é precisamente aquela forma que permanece mais fiel ao espírito da Reforma. A influência de Tomás de Aquino e de Aristóteles pode ser vista nas obras de alguns dos mais importantes teólogos reformados, incluindo, mas não se limitando a, o próprio João Calvino, Vermigli, Beza, Zanchi, Turretini, Charles Hodge, B. B. Warfield, Herman Bavinck, R. C. Sproul, Norman Geisler, entre outros. Se observarmos a formação dos primeiros pastores reformados, perceberemos que eles foram instruídos, por teólogos reformados, na filosofia e na teologia aristotélica e tomista. Com efeito, a educação que receberam se assemelha muito mais àquela que alguém receberia em um seminário como o Southern Evangelical Seminary do que àquela oferecida por muitas escolas evangélicas contemporâneas. O tomismo não exige que alguém se torne católico romano. Antes, os principais pressupostos metafísicos e epistemológicos do tomismo são, muito simplesmente, verdades fundamentais acerca da realidade, cuja negação, como demonstra a história da filosofia cristã, da teologia e da apologética, nos impele ao relativismo e, por fim, à negação de quase toda doutrina cristã importante.
Notas de rodapé:
- Eu proporia, de fato, que é precisamente pela rejeição desse fundamento tomista-aristotélico que a teologia reformada, nos últimos anos, tem começado a enfrentar dificuldades com a heterodoxia. Alguns teólogos ditos reformados chegam ao ponto de rejeitar explicitamente doutrinas que os primeiros Reformadores consideravam necessárias à ortodoxia, tais como uma concepção robusta da imutabilidade e da impassibilidade, a teologia natural, entre outras. ↩︎
- Sustentamos esta doutrina não apenas porque ela é ensinada explicitamente na Escritura, quando devidamente interpretada sem a imposição de quaisquer falsos pressupostos filosóficos, mas também porque é uma verdade mantida por todos os teólogos ortodoxos da Igreja cristã e negada pelos hereges socinianos. Assim, alinhamo-nos com os ensinamentos da Igreja reformada e da Igreja cristã historicamente verdadeira, como diz Turretini, em oposição às heresias socinianas. Cf. Francis Turretin, Institutes of Elentic Theology, trans. George Musgrave Giger, ed. James T Dennison, Jr. (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing: 1992-97), 1:6. Turretini afirma que, entendida dessa forma, e em oposição às heresias dos socinianos (“que negam a existência de qualquer teologia natural ou conhecimento natural de Deus” (Ibid., 6)), “os ortodoxos, ao contrário, ensinam unanimemente que existe uma teologia natural, em parte inata (derivada do livro da consciência por meio de noções comuns [koinas ennoias]) e em parte adquirida (extraída discursivamente do livro das criaturas)” (Ibid.). Charles Hodge, Systematic Theology (1940; repr., Peabody, Mass: Hendrickson Publishers, 2003), 1:19-25. A. H. Strong, Systematic Theology, 3 vols in 1 (1907; repr., Old Tappan, NJ: Fleming H. Revell Company, 1979), 25-29. B. B. Warfield. Benjamin Breckinridge Warfield, “The Idea of Systematic Theology,” in Studies in Theology, vol. 9 of The Works of Benjamin B. Warfield, 49-87 (1932; repr., Grand Rapids, MI: Baker Book House, 2000). Benjamin Breckinridge Warfield, “The Task and Method of Systematic Theology,” in Studies in Theology, vol. 9 of The Works of Benjamin B. Warfield, 91-114 (1932; repr., Grand Rapids, MI: Baker Book House, 2000). John Calvin, Institutes of the Christian Religion, trans. Henry Beveridge (2007; repr., Peabody, Mass.: Hendrickson Publishers, 2012), 4-29. Herman Bavinck, Reformed Dogmatics, Abridged in one volume, ed. John Bolt (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2011), 19-20, 67-73, 159-162. Muitas outras referências poderiam ser citadas; contudo, o ponto já foi suficientemente demonstrado. ↩︎
- Para João Calvino, como se evidencia em suas Institutas, o fato de podermos conhecer a Deus por meio de sua criação constitui terreno comum entre o regenerado e o não regenerado. De fato, Calvino afirma explicitamente: “Quis apenas observar aqui que há um caminho comum aos pagãos e aos crentes da igreja para buscar a Deus, seguindo os seus vestígios, tal como são delineados nos céus e na terra, como pinturas de sua imagem”. (Calvin, IRC, t.1, c.5, s. 6. Minha tradução.) Em francês, lemos: « Je voulais seulement observer ici qu’il y a une voie commune aux païens et aux croyants de l’église de rechercher Dieu, en suivant ses traces, comme ils sont esquissés dans le firmament et sur la terre, comme les peintures de son image. » ↩︎
- Cf. Turretin, IET, 1:5-6. Petri Martyris Vermilii, Loci Communes (Heidelberg: Iohannem Lancellottum, MDCIII), 2. Vermigli afirma que a existência, o poder, a providência e a sabedoria de Deus são todos manifestamente evidentes ao homem quando este considera a criação (Ibid.). ↩︎
- John Patrick Donnelly, “Calvinist Thomism,” Viator, 7 (Jan.1, 1976), 446. ↩︎
- Zanchi, antes de se tornar um protestante reformado, recebeu formação no pensamento tomista (Donnelly, Calvinist Thomism, 444) e estudou por um ano sob o próprio João Calvino (Ibid.). Ele escreveu uma obra teológica que, quando comparada com os demais escritos do calvinismo do século XVI, é sem paralelo (Ibid.). Sua obra sobre a predestinação foi utilizada por calvinistas britânicos e americanos até o início do século XIX (Ibid., 446-448), e foi sua abordagem da doutrina da predestinação que prevaleceu no Sínodo de Dort (Ibid., 448). ↩︎
- Ibid., 446. ↩︎
- Herman Bavinck, Reformed Dogmatics, abridged in one volume, ed John Bold (Grand Rapids, MI. Baker Academic, 2011), 178. ↩︎
- Charles Hodge, Systematic Theology (1940; repr, Peabody, Minn: Hendrickson Publishers, 2003), 1: 339-341. ↩︎
- Emery H. Bancroft, Christian Theology: Systematic and Biblical, 2nd ed., ed. Ronald B. Mayers (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1961), 68-69. ↩︎
- Augustus H. Strong, Systematic Theology: A compendium, 3 flights in 1 (. 1907; repr, Old Tappan, NJ: Fleming H. Revell Co., 1979), 247. ↩︎
- Cf. Theodore Kisiel, The Genesis of Heidegger’s Being and Time (Berkeley, CA: University of California Press, 1995), 227-228. ↩︎
- Richard Muller, “Scholasticism, Reformation, Orthodoxy, and the Persistence of Christian Aristotelianism,” Trinity Journal, 19NS (1998), 90. ↩︎
- Ibid., 90-91. ↩︎
- Ibid., 91. ↩︎
- Ibid., 92. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Ibid., 92-93. ↩︎
- Ibid., 93. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Donnelly, CT, 441. ↩︎
- Calvin, IRC, t. 1, ch. 5, 3. ↩︎
- Calvin, IRC, t. 1, ch. 8, 1. ↩︎
- Calvin, IRC, t. 1, ch. 15, 2. Calvino interage com Aristóteles, com observações tanto positivas quanto críticas, ao longo de toda a sua discussão acerca da relação entre mente e corpo. ↩︎
- Richard A. Muller, “Scholasticism Protestant and Catholic: Francis Turretin on the Object and Principles of Theology,” Church History, vol. 55, no.2 (Jun, 1986), 196. ↩︎
- Muller, SROPCA, 86-87. ↩︎
- Arvin Vos, Aquinas, Calvin, Protestant & Contemporary Thought: A Critique of Prostestant Views on the Thought of Thomas Aquinas (Washington, DC: Christian College Consortium 1985). ↩︎
- Ibid., 152. ↩︎
- Donnelly, CT, 442. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Calvin, IRC, t. 1, ch. 5, 1. ↩︎
- Calvin, IRC, t. 1, ch. 16, 9. ↩︎
- Calvin, IRC, t. 1, ch. 13, 2. ↩︎
- Calvin, IRC, t. 1, ch. 17, 12. ↩︎
- Calvin, IRC, t. 1, ch. 17, 13. ↩︎
- Joseph McLelland, “Italy: Religious and Intellectual Ferment”, in A Companion to Peter Martyr Vermigli, ed. Torrance Kirby, Emidio Campi and Frank A. James III (Boston: Brill, 2009), 26. Joseph C. McLelland, “Introduction”, in Peter Martyr Vermigli, Commentary on Aristotle’s Nichomachean Ethics, trans. Kenneth Austin, Stephen Beall, and Leszek Wysocki, ed. Emidio Campi and Joseph C. McLelland (Kirksville, MO: Trueman State University Press, 2006), ix. ↩︎
- Donnelly, CT, 442. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Ibid., 443. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Vermigli, Commentary on Aristotle’s Nichomachean Ethics; publicado no Brasil, em português, pela João Calvino Publicações, 2025. ↩︎
- John Patrick Donnelly, «Italian Influences on the development of Calvinist Scholasticism», Sixteenth Century Journal, VII, 1 (April 1976), 83-84. ↩︎
- McLelland, Introduction, xxv. ↩︎
- Donnelly, CT, 444. ↩︎
- Ibid., 445. ↩︎
- Ibid., 448. ↩︎
- Ibid., 451. ↩︎
- Ibid., 452-453. ↩︎
- Ibid., 453. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Muller, SPC, 204-205. ↩︎
- Cf. Stephen Charnock, The Existence and Attributes of God (1853; repr, Grand Rapids, MI: Baker
Books., 2005), 27, 42 (Banes on Aquinas), 189 (Zanchi), 284 (Gamacheus on Aquinas), 317, etc. ↩︎ - Henry Thiessen, Lectures in Systematic Theology, ed Vernon D. Doerksen (1979; repr, Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing, 1981), 78. ↩︎
- Thomas C. Oden, the Living God, vol 1 of Systematic Theology (1987; repr, Peabody, Mass: Hendrickson Publishers, 2008). ↩︎
- Ibid., 141-142. ↩︎
- Paul Helm, “Classical Calvinist Doctrine of God,” in Perspectives on the Doctrine of God: 4 views, ed. Bruce A. Ware (Nashville, TN: B&H Academic, 2008), 5. ↩︎
- Ibid., 6. ↩︎
- Cf. Muller, SPC, 201, 203, 205. ↩︎
- Ibid, 194. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Donnelly, CT, 442. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- Ibid. ↩︎
Centro Cultural João Calvino