sábado , 7 novembro 2026

O Lutero de Calvino: unidade e continuidade no protestantismo

Todos sabem que Calvino estava mais próximo de Zurique do que de Wittenberg. O que este ensaio pressupõe é o seguinte: e se não fosse assim? Na verdade, Calvino não era nem zwingliano nem luterano, ao menos no sentido desenvolvido que esses termos assumiram, mas se via antes como alguém capaz de mediar entre os dois lados em seus debates aparentemente insolúveis, particularmente no que diz respeito à natureza da Ceia do Senhor.

Talvez o aspecto mais interessante, considerando as circunstâncias eclesiásticas contemporâneas, seja o fato de Calvino se considerar, sem qualquer hesitação, parte de uma só Igreja, não apenas invisivelmente, mas também visivelmente, juntamente com todos os protestantes magisteriais da Europa. Por meio de seus esforços literários e teológicos, ele procurou tornar essa unidade visível mais concreta, ainda que suas esperanças tenham sido, em grande medida, frustradas.

Ao mesmo tempo, embora Calvino não fosse propriamente nem zuriquense nem wittenberguense, é verdade, contudo, que Martinho Lutero, cerca de um quarto de século mais velho que Calvino, ocupava um lugar especial e preeminente em seu pensamento como arauto da Reforma. Preeminente, mas, convém observar, não acima de toda crítica. A postura intelectual de Calvino revela uma combinação de devoção filial, expressa em uma carta a Lutero, escrita em 1545, mas nunca enviada, na qual o chama de “excelentíssimo pastor da Igreja cristã e meu pai especialmente venerado”, e de independência madura de juízo sob a autoridade da Palavra. Nisso se sintetiza sua mais importante contribuição à tradição reformada: a reverência pelo passado, sublimada pela Palavra de Deus.

A visão de Calvino sobre a tradição

Em outras palavras, a relação de Calvino com Lutero foi um exemplo de apropriação crítica da tradição. Como o próprio Calvino escreveu ao alemão Simão Grynaeus, em 1539, na epístola dedicatória de seu comentário à Epístola aos Romanos:

Contudo, constatamos sempre que até mesmo aqueles que não foram deficientes em seu zelo pela piedade, nem em reverência e sobriedade ao tratar dos mistérios de Deus, de modo algum concordaram entre si em todos os pontos. Pois Deus jamais concedeu a seus servos o grande benefício de serem todos dotados de um conhecimento pleno e perfeito de todas as coisas. Sem dúvida, fez isso com um duplo propósito: primeiro, para mantê-los humildes; segundo, para torná-los dispostos a cultivar o convívio fraternal. Visto, portanto, que não podemos esperar alcançar nesta vida aquilo que, de outro modo, seria muito desejável, a saber, o consenso universal entre nós na interpretação de todas as partes das Escrituras, devemos nos esforçar para que, ao nos afastarmos das opiniões de nossos predecessores, não sejamos movidos por qualquer inclinação à novidade, nem impelidos pelo desejo de difamar os outros, nem instigados pelo ódio, nem seduzidos pela ambição, mas constrangidos unicamente pela necessidade e pelo propósito de promover o bem. E, quando isso se fizer necessário na interpretação das Escrituras, deveremos tomar ainda menos liberdades quanto aos princípios da religião, nos quais Deus deseja que a mente de seu povo esteja especialmente unida.1

Aqui, Calvino deixa claro que o “consenso universal” entre os cristãos é algo desejável, mas que não será alcançado nesta vida. O desacordo, além disso, surge apesar de haver igual “zelo pela piedade” de todas as partes. Assim, o teólogo deve estar preparado para fazer duas coisas simultaneamente: respeitar seus pares e permanecer aberto à possibilidade de que certos aspectos do pensamento deles precisem ser corrigidos ou modificados.

A continuidade de Calvino com a Reforma de Lutero

Como a visão de Calvino sobre a tradição se aplica à sua visão de Lutero? A reverência de Calvino por ele fica evidente em várias referências feitas a Lutero em seu tratado de 1543, A Necessidade de Reformar a Igreja.2 Ali, Calvino escreve sobre o período “do início, quando Deus suscitou Lutero e outros, que ergueram uma tocha para nos iluminar o caminho da salvação e que, por meio de seu ministério, fundaram e edificaram nossas igrejas…”.3 Dentre todos os homens que, segundo Calvino, “Deus [havia] suscitado”, Lutero, embora não fosse o único reformador importante daquele período, pois Calvino acrescenta “e outros”, é o único a receber a honra de ser mencionado nominalmente.4 Além disso, foi ele quem, tendo iluminado “o caminho da salvação”, “fundou e edificou nossas igrejas”. Calvino considerava as igrejas de Genebra, Estrasburgo e outras localidades como parte da mesma Igreja visível à qual pertencia a igreja de Wittenberg. Novamente, mais adiante no tratado, Calvino fala do “tempo em que a verdade divina jazia sepultada sob essa vasta e densa nuvem de trevas”. Ele prossegue:

…então surgiu Lutero e, depois dele, outros que, mediante deliberações conjuntas, procuraram meios e métodos pelos quais a religião pudesse ser purificada de todas essas contaminações, a doutrina da piedade fosse restaurada à sua integridade e a Igreja fosse retirada de sua condição calamitosa e conduzida a um estado de alguma forma tolerável. É esse mesmo caminho que continuamos a trilhar até os dias de hoje.5

Na passagem omitida, Calvino enumera áreas específicas nas quais Lutero, “e, depois dele, outros”, havia tomado a dianteira: o culto, a doutrina da redenção, a administração dos sacramentos, o governo eclesiástico e o cuidado pastoral. Calvino se considera um seguidor de Lutero, não por trilhar um caminho semelhante, mas por percorrer o mesmo caminho: “Nós, nos dias de hoje, ainda estamos seguindo o mesmo caminho”.6 Novamente, em uma carta a Farel, de fevereiro de 1540, Calvino expressa sua preferência geral por Lutero em relação a Zuínglio, sem, contudo, desejar depreciar este último:

Homens piedosos ardem de indignação se alguém ousa preferir Lutero a Zuínglio, como se o evangelho nos fosse tirado caso nos afastássemos de Zuínglio em algum ponto! Contudo, isso não constitui ofensa alguma a Zuínglio. Pois, se ambos forem comparados entre si, sabes por quão grande margem Lutero se sobressai.7

Entretanto, esse respeito não impedia Calvino de apresentar correções quando julgava que Lutero precisava delas. Assim, em A Necessidade de Reformar a Igreja, Calvino afirma que Lutero poderia ter sido mais rigoroso na correção dos abusos:

Quando Lutero surgiu pela primeira vez, limitou-se a tocar, com mão suave, em alguns dos abusos mais grosseiros, que haviam se tornado intoleráveis. E o fez com uma modéstia que dava a entender que desejava mais vê-los corrigidos do que estava determinado a corrigi-los ele próprio.8

Calvino também acreditava que Lutero se equivocara na maneira como conduziu a controvérsia sobre a Ceia do Senhor, embora pensasse o mesmo a respeito de Oecolampádio e Zuínglio. Em seu Breve Tratado sobre a Ceia do Senhor (1540),9 vemos que, na avaliação de Calvino, ambos os lados do debate apresentaram argumentos legítimos em certos pontos, mas poderiam ter se expressado com maior clareza em outros. Lutero estava certo ao enfatizar a presença de Cristo na Ceia, mas “acrescentou símiles um tanto ásperos e grosseiros”. Calvino, porém, acrescenta prontamente: “Ele foi obrigado a fazê-lo, pois, de outro modo, não poderia explicar o que queria dizer”. É difícil tratar da Ceia “sem empregar alguma expressão imprópria”.

Da mesma forma, Oecolampádio e Zuínglio tinham razão ao reagir contra a concepção romana predominante da “presença carnal” de Cristo na Ceia e contra a implicação de “execrável idolatria” contida nessa concepção, uma vez que Cristo era “adorado como se estivesse encerrado no pão”. Contudo, eles ficaram “absorvidos” por esse aspecto da questão e, assim, “esqueceram-se de mostrar que presença de Jesus Cristo deve ser crida na Ceia e que comunhão de seu corpo e sangue é ali recebida”.10

O resultado, afirma Calvino, foi que ambas as partes se preocuparam mais em defender suas próprias posições do que em buscar um “terreno sólido” sobre o qual pudessem chegar juntas à verdade. Em vez disso, “Lutero falhou de sua parte, e Zuínglio e Oecolampádio, da parte deles”. Lutero reagiu com sua “veemência habitual”; o outro lado demonstrou “ansiedade excessiva” em sustentar que o pão e o vinho são sinais, esquecendo-se de acrescentar que “a realidade está unida a eles”.11

Unidade sem unanimidade

Calvino, portanto, buscava o caminho intermediário que promovesse a paz. Contudo, não devemos interpretar mal sua posição: ele não desejava um compromisso indiferentista por si mesmo. Pelo contrário, queria preservar a verdade que, em sua opinião, estava representada em cada lado do debate. Sua posição fundamentava-se em princípios, pois ele acreditava que uma formulação capaz de mediar entre as partes era exigida pelas Escrituras.

Em outras palavras, Calvino buscava a unidade sob a autoridade da Palavra, pois agir de outra maneira seria desobedecer a Deus. A unidade que Calvino almejava exige o reconhecimento de que não haverá unanimidade absoluta em todos os pontos entre todos os cristãos, em razão de nossas fraquezas, de nossa finitude e das diferenças entre os dons que recebemos. Ainda assim, trata-se de uma verdadeira unidade, que pode ser preservada mediante o acordo nos pontos fundamentais e a caridade fraterna. Encerrarei este ensaio com as palavras finais de Calvino em seu tratado, pois, embora seu desejo de alcançar tal concórdia entre todos os protestantes tenha sido frustrado durante sua vida, continua sendo um objetivo digno de apreço:

Enquanto isso, deve nos bastar que haja fraternidade e comunhão entre as igrejas e que todas concordem naquilo que é necessário para se reunirem, conforme o mandamento de Deus. Todos nós, portanto, confessamos a uma só voz que, ao recebermos o sacramento com fé, segundo a instituição do Senhor, tornamo-nos verdadeiramente participantes da própria substância do corpo e do sangue de Jesus Cristo. Alguns podem explicar melhor como isso acontece e expô-lo com maior clareza do que outros. Seja como for, por um lado, para excluir toda concepção carnal, devemos elevar nosso coração ao céu, sem pensar que nosso Senhor Jesus esteja tão rebaixado a ponto de ficar encerrado sob elementos corruptíveis; por outro lado, para não comprometer a eficácia desta santa instituição, devemos sustentar que ela se torna eficaz pelo poder secreto e miraculoso de Deus e que o Espírito de Deus é o vínculo dessa participação.12

Referências:

  1. João Calvino, Comentário à Epístola do Apóstolo Paulo aos Romanos, ed. e trad. John Owen. Disponível em: http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom38.iii.html. Acesso em: 26 out. 2026. ↩︎
  2. João Calvino, The Necessity of Reforming the Church, trad. Henry Beveridge. Filadélfia: Presbyterian Board of Publication, 1844. A obra foi publicada em português em 2024 pela João Calvino Publicações, sob o título A Necessidade de Reformar a Igreja. Disponível em: https://www.joaocalvinopublicacoes.com.br/a-necessidade-de-reformar-a-igreja. ↩︎
  3. Calvino, Necessity, p. 12. ↩︎
  4. Bruce Gordon observa que esse era um procedimento habitual de Calvino: Lutero não foi o único a impulsionar a Igreja em direção à Reforma, mas recebeu um lugar especial de honra. Ver Bruce Gordon, “Martin Luther and John Calvin”, em Oxford Research Encyclopedia of Religion, publicado on-line em março de 2017. Disponível em: http://religion.oxfordre.com/view/10.1093/acrefore/9780199340378.001.0001/acrefore-9780199340378-e-313?rskey=HgmR2s&result=1 ↩︎
  5. Calvino, Necessity, p. 40-1. ↩︎
  6. Calvino, Necessity, p. 41  ↩︎
  7. A carta encontra-se em Eduard Cunitz e Eduard Reuss (eds.), Corpus Reformatorum, v. 39 (Brunsvigae [Brunswick]: Schwetschke, 1873), p. 24. Tradução minha. ↩︎
  8. Calvino, Necessity, p. 97. ↩︎
  9. João Calvino, Tracts, v. 2, trad. Henry Beveridge (Edimburgo: Calvin Translation Society, 1849), p. 163-198. ↩︎
  10. Todas as citações dos dois parágrafos anteriores foram extraídas de Calvino, Breve Tratado sobre a Ceia do Senhor, p. 195. ↩︎
  11. Todas as citações do parágrafo anterior foram extraídas de Calvino, Breve Tratado sobre a Ceia do Senhor, p. 196-197. ↩︎
  12. João Calvino, “Breve Tratado sobre a Ceia do Senhor”, em Tracts, v. 1, p. 197. ↩︎

Sobre E. J. Hutchinson

E. J. Hutchinson é um professor e pesquisador norte-americano de Estudos Clássicos no Hillsdale College, onde atua como professor associado e diretor do Collegiate Scholars Program. Doutor em Estudos Clássicos pelo Bryn Mawr College, dedica-se ao estudo da literatura greco-romana, do latim, da tradição cristã antiga e das relações entre o pensamento clássico e o cristianismo. É editor e tradutor da obra On the Law of Nature: A Demonstrative Method, do teólogo luterano Niels Hemmingsen, e colaborador da revista Ad Fontes, na qual publica estudos sobre a tradição intelectual cristã, a Reforma Protestante e a herança clássica.

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