sábado , 7 março 2026

A insustentabilidade histórica da sucessão apostólica

Uma das críticas mais recorrentes feitas às igrejas protestantes diz respeito à suposta ausência de Sucessão Apostólica. É muito comum que apologistas antiprostestantes argumentem que os protestantes não possuem ordens ministeriais autênticas porque não podem reivindicar essa sucessão e, por isso, suas igrejas podem ser descartadas sem que seja necessário considerar o que elas ensinam. A inquietação sobre se as igrejas protestantes são “igrejas reais”, por esse e outros motivos semelhantes, leva muitos a explorar o catolicismo romano e a ortodoxia oriental, ou até mesmo a se converter a uma dessas igrejas, que supostamente teriam uma reivindicação mais sólida à Sucessão Apostólica. Até mesmo alguns anglicanos, que são protestantes em todos os sentidos práticos, desprezam outros protestantes ou os encaram com desconfiança, baseando-se na suposta superioridade de suas ordens.

Este ensaio pretende criticar uma forma específica da doutrina da Sucessão Apostólica frequentemente usada contra os protestantes. A verdade surpreendente é que a formulação comum dessa doutrina possui pouquíssimo respaldo nos registros históricos sobre como a igreja primitiva foi fundada e como ela se desenvolveu. Essa crítica não é, de forma alguma, um biblicismo reflexo que, ao não encontrar um “texto-prova” para a doutrina, declara vitória e encerra o assunto. Pelo contrário, ao dialogarmos com os pais da Igreja nessa questão, não apenas encontramos um silêncio inesperado quanto ao apoio deles à doutrina da Sucessão Apostólica — na realidade, encontramos evidências que enfraquecem essa alegação.

Este ensaio não pretende oferecer um tratamento exaustivo da doutrina da Sucessão Apostólica. Ele se limita apenas à formulação mais comumente usada contra os protestantes. Não trata de como e quando a doutrina veio, de fato, a se desenvolver e se tornou o ensino oficial de muitas igrejas. O objetivo aqui é simplesmente apresentar um panorama das evidências provenientes dos pais da Igreja que demonstram que a narrativa usual sobre como a Sucessão Apostólica teria ocorrido é historicamente insustentável. Para fundamentar essa afirmação, consideraremos com algum detalhe os argumentos de São Jerônimo sobre a estrutura do governo eclesiástico na Igreja primitiva e, em seguida, examinaremos algumas outras fontes dos séculos I ao IV que confirmam o relato de Jerônimo e oferecem mais algumas evidências relevantes.

É claro que o conceito de Sucessão Apostólica já foi definido de diversas maneiras, mas a formulação da Sucessão Apostólica que será criticada neste ensaio foi bem expressa por John Henry Cardeal Newman em Tracts for the Times:

Eu sei que a graça da ordenação está contida na imposição de mãos, não em nenhuma fórmula verbal; ainda assim, em nosso caso (como sempre foi costume na Igreja), palavras de bênção acompanharam o ato. Assim, confessamos diante de DEUS a nossa crença de que, por meio do bispo que nos ordenou, recebemos o ESPÍRITO SANTO, o poder de ligar e desligar, de administrar os sacramentos e de pregar. Agora, como ele é capaz de conceder esses dons tão grandes? De onde vem seu direito? Seriam essas palavras vazias (o que implicaria tomar o nome de DEUS em vão), ou expressariam apenas um desejo (o que certamente está muito aquém do seu significado), ou não indicariam antes que o que fala está, de fato, transmitindo um dom? Certamente não podem significar menos que isso. Mas, pergunto, de onde vem o seu direito de fazer isso? Ele tem algum direito, exceto o de ter recebido esse poder daqueles que o consagraram bispo? Ele não poderia dar o que nunca recebeu. É claro, então, que ele apenas transmite; e que o ministério cristão é uma sucessão. E se rastrearmos esse poder de ordenação de mão em mão, naturalmente chegaremos por fim aos Apóstolos. Sabemos que sim, como um fato histórico simples: e, portanto, todos nós, que fomos ordenados clérigos, na própria forma de nossa ordenação reconhecemos a doutrina da SUCESSÃO APOSTÓLICA.1

Tal formulação é frequentemente usada para desacreditar a legitimidade das igrejas protestantes, entre as quais praticamente apenas os anglicanos (como Newman era quando escreveu essas palavras) tentaram reivindicar a posse de ordens religiosas na Sucessão Apostólica, reivindicação que foi decisivamente rejeitada pela Igreja Católica Romana na bula Apostolicae Curae, emitida pelo Papa Leão XIII em 1896. O conceito de Sucessão Apostólica é fundamental para as reivindicações do papado, pois cada papa se apresenta como sucessor de São Pedro como bispo de Roma e, assim, desfruta das prerrogativas exclusivas que se diziam pertencer àquele Apóstolo. Também se argumenta frequentemente que os ortodoxos orientais possuem um ministério válido porque estão na Sucessão Apostólica e, portanto, são legítimos de um modo que as igrejas protestantes não seriam. Apesar da bula Apostolicae Curae e de uma resposta igualmente morna por parte dos ortodoxos, muitos anglicanos ainda valorizam a ideia de que suas ordens são, de alguma forma, mais válidas do que as dos demais protestantes, e o Quadrilátero Chicago-Lambeth (1886), frequentemente considerado uma declaração fundamental da identidade anglicana moderna, refere-se ao “episcopado histórico,” uma forma algo diluída da reivindicação da Sucessão Apostólica.

Felizmente para os protestantes, não somente a doutrina da Sucessão Apostólica possui escasso respaldo nas Escrituras, como também, contrariamente ao que afirma Newman, é inteiramente destituída de fundamento histórico. Como tantas vezes ocorre com Newman, apesar de sua imensa erudição, a palavra “história” é utilizada como uma invocação vazia, desprovida de qualquer investigação ou argumento sério. Não apenas não há evidência de que o ministério do episcopado tenha sido transmitido da forma que a teoria da Sucessão Apostólica exige, como existe uma considerável quantidade de provas que indicam que ele não foi transmitido dessa maneira de modo algum.

A doutrina da Sucessão Apostólica fundamenta-se, em primeiro lugar, numa distinção jure divino entre os ofícios de presbítero e bispo, ou presbyteros e episkopos no grego. A teoria usual sustenta que apenas bispo pode transmitir a sucessão a outro bispo, e que somente esses bispos legitimamente ordenados têm autoridade para criar presbíteros. Assim, igrejas protestantes que não possuem bispos na sucessão apostólica não teriam presbíteros, por carecerem do meio para ordená-los. Contudo, se não existe distinção jure divino entre os ofícios de bispos e presbíteros, nenhuma grande igreja protestante pode ser excluída da Sucessão Apostólica, pois todas praticaram ordenações por meio de homens que haviam sido ao menos ordenados presbíteros. Há, porém, boas evidências de que os termos “presbítero” e “bispo” eram sinônimos na igreja primitiva. Essa não é uma argumentação nova: São Jerônimo é absolutamente enfático nesse ponto. Em sua Carta a Evangelus, Jerônimo aparentemente responde a uma situação em que alguns afirmavam que o diaconato tinha maior importância que o presbiterado. Jerônimo refuta tal alegação ao salientar que o episcopado — cuja preeminência aparentemente não era contestada — tinha, em sua origem apostólica, identidade com o presbiterado:

Pois quando o apóstolo claramente ensina que presbíteros são o mesmo que bispos, não seria insano um mero servidor de mesas e das viúvas se arrogar arrogantemente sobre homens por cujas orações se produz o corpo e o sangue de Cristo? Perguntas por provas do que digo? Ouça esta passagem: ‘Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos e diáconos.’ (Filipenses 1:1) Queres outro exemplo? Nos Atos dos Apóstolos, Paulo assim fala aos presbíteros de uma única igreja: ‘Tende cuidado de vós mesmos e de todo o rebanho, no qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele adquiriu com seu próprio sangue’. (Atos 20:28)

A abordagem de Jerônimo aqui é exegética: analisar como Paulo usa os termos presbítero e bispo, e verificar se ele faz alguma distinção entre eles. Ele observa que, na passagem de Filipenses, Paulo se dirige ao clero, mas menciona apenas bispos e diáconos, não presbíteros. Por que omitir uma ordem do clero? Porque, argumenta São Jerônimo, Paulo não faria distinção entre bispos e presbíteros. Na segunda passagem, Paulo dirige-se explicitamente aos presbíteros da igreja (Atos 20:17), mas refere-se à assembleia como sendo bispos. Mais uma vez, Paulo não faz distinção entre os termos. Contudo, Jerônimo ainda não terminou:

E para que ninguém, em espírito de contenda, argumente que deveria haver mais de um bispo numa única igreja, existe a seguinte passagem que prova claramente que bispo e presbítero são a mesma coisa. Escrevendo a Tito, o apóstolo diz: “Por esta razão te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas que faltavam e, segundo as minhas instruções, designasses presbíteros em cada cidade, se algum for irrepreensível, marido de uma só mulher, e tiver filhos fiéis que não sejam acusados de dissolução nem sejam desobedientes. Porque é necessário que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro de Deus”. (Tito 1:5-7)

Jerônimo nos direciona a esta passagem para mostrar que Paulo inicia um pensamento referindo-se aos presbíteros e o conclui referindo-se aos bispos. Não podemos desconsiderar isso como um devaneio na mente do apóstolo, pois ele liga as duas sentenças por meio de uma conjunção lógica: as qualificações para o “presbítero” existem porque um “bispo” deve ser irrepreensível. Não faz sentido interpretar essa ideia a não ser que os termos sejam sinônimos. Contudo, Jerônimo ainda tem mais a acrescentar:

E a Timóteo ele diz: “Não negligencies o dom que há em ti, que te foi dado pela profecia, com a imposição das mãos do presbitério.” (1 Timóteo 4:14) Pedro também afirma em sua primeira epístola: “Exorto os presbíteros que há entre vós, eu que sou presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e também participante da glória que há de ser revelada: apascentai o rebanho de Cristo… exercendo o cuidado dele não por obrigação, mas voluntariamente, segundo Deus”. (1 Pedro 5:1-2) No grego o sentido é ainda mais claro, pois a palavra usada é episkopountes, isto é, supervisionando, e é a origem do nome “supervisor” ou bispo. Mas talvez o testemunho desses grandes homens te pareça insuficiente. Se assim for, então ouve o soar da trombeta do evangelho, aquele filho do trovão, o discípulo que Jesus amava, e que reclinado no peito do Salvador bebeu as águas da sã doutrina. Uma de suas cartas começa assim: “O presbítero à senhora eleita e aos seus filhos, a quem amo na verdade”. (2 João 1:1) e outra assim: “O presbítero ao amado Gaio, a quem amo na verdade”. (3 João 1:1)

Alguns dos exemplos de Jerônimo aqui dizem respeito a pessoas que, se houvesse uma distinção firme entre presbítero e bispo, esperaríamos que fossem chamadas de “bispos”, mas que se referem a si mesmas como meros presbíteros. Assim, Timóteo, que se considera ter sido o primeiro bispo de Éfeso, e ainda mais convincentemente (talvez a epístola tenha sido escrita antes de alguma promoção?), temos até apóstolos como Pedro e João que se intitulam presbíteros, não bispos. Por isso, conclui Jerônimo, não devia haver uma distinção real entre esses dois ofícios naquela época. A passagem da epístola de Pedro também associa estreitamente o termo “presbítero” a um verbo que tem fortes ligações etimológicas com a palavra bispo. Como, então, surgiu essa distinção entre presbítero e bispo? Jerônimo enfatiza que a distinção foi feita por razões puramente práticas, e não jure divino:

Quando posteriormente um presbítero foi escolhido para presidir sobre os demais, isso se deu para remediar o cisma e evitar que cada indivíduo rompesse a igreja de Cristo atraindo-a para si. Pois mesmo em Alexandria, desde o tempo de Marcos, o Evangelista, até os episcopados de Heráclas e Dionísio, os presbíteros sempre nomeavam como bispo um entre eles, escolhido por si mesmos e colocado em posição mais elevada, assim como um exército elege um general, ou como os diáconos designam entre si alguém que sabem ser diligente e o chamam de arcediago. Pois que função, excetuando-se a ordenação, pertence ao bispo que não pertença também ao presbítero? Não é o caso de existir uma igreja em Roma e outra no restante do mundo. Gália e Bretanha, África e Pérsia, Índia e Oriente adoram um só Cristo e observam uma só regra de verdade. Se pedes por autoridade, o mundo pesa mais que sua capital. Onde quer que haja um bispo, seja em Roma ou em Engubium, seja em Constantinopla ou em Régio, seja em Alexandria ou em Zoan, sua dignidade é uma só e seu sacerdócio é um só. Nem o comando da riqueza nem a humildade da pobreza o fazem mais bispo ou menos bispo. Todos são igualmente sucessores dos apóstolos.

Citei esta carta com tanta extensão tanto porque ela contém muitos argumentos e exegeses úteis, quanto para antecipar possíveis alegações de que tenha citado seletivamente ou fora de contexto. Não poderia ficar mais claro que nenhuma noção de Sucessão Apostólica, como geralmente é formulada, teria sido inteligível para Jerônimo, pois para ele a distinção ministerial era puramente uma questão pragmática, um arranjo eficiente para prevenir heresia e cisma, e não um sistema jure divino transmitido por ordenação apostólica. Jerônimo é absolutamente claro ao afirmar que não há diferença essencial entre as duas formas de ministério e que todos os ministros devem ser igualmente considerados sucessores dos apóstolos.

Jerônimo argumenta de modo semelhante em seu comentário à Epístola a Tito:

Prestemos atenção às palavras do Apóstolo quando diz: “Ordena presbíteros em todas as cidades, como te tenho incumbido.” Quanto ao tipo de pessoa que deve ser ordenada presbítero, sobre o qual discorre em seguida, ele afirma: “Se alguém for irrepreensível, marido de uma só mulher,” etc., acrescentando depois: “Porque é necessário que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro de Deus.” Portanto, presbítero é a mesma coisa que bispo, e antes da inspiração do diabo, pela qual as contendas religiosas se agravaram e se disse entre o povo: “Eu sou de Paulo, eu de Apolo, eu de Pedro” (1 Coríntios 1:12), as igrejas eram governadas pela orientação comum dos presbíteros.2

Aqui, ao contrário da confiança de Newman de que é um fato histórico evidente que o episcopado ordenado em sucessão aos Apóstolos sempre foi uma característica da igreja, encontramos um ilustre doutor afirmando o presbiterianismo primitivo! Mas São Jerônimo não é a única fonte que coloca seriamente em dúvida essa doutrina da Sucessão Apostólica. Há evidências de que os termos “presbítero” e “bispo” eram usados indistintamente na Didaqué: “Portanto, escolhei para vós bispos e diáconos dignos do Senhor, homens humildes, não avarentos, verdadeiros e aprovados, pois também exercem para vós o ministério dos profetas e mestres” (15.1). Observe que não há menção à nomeação de presbíteros, o que indica que os termos bispo e presbítero ainda eram sinônimos naquela época. Note também que as congregações são exortadas a “nomear para si mesmos,” sugerindo que a ordenação era congregacional, e não recebida de um bispo na Sucessão Apostólica. Paralelo a isso é a Primeira Epístola de Clemente, considerada composta no final do primeiro século: “Assim, pregando tanto no campo quanto nas cidades, [os apóstolos] designaram as primeiras colheitas, depois de as terem provado pelo Espírito, para serem bispos e diáconos para os futuros crentes”. (42.4) Isso certamente reconhece origens apostólicas para o ministério (o que ninguém contesta!), mas, novamente, são mencionadas apenas duas formas de ministério ordenado, sugerindo fortemente que a ordem omitida dos presbíteros era sinônima de bispos. Aqui também não há menção de ministros ordenando outros ministros em sucessão.

Ironicamente, Clemente é frequentemente invocado como testemunha da sucessão apostólica, mas na mesma carta ele alterna entre os termos bispo e presbítero de forma muito semelhante a Paulo:

Nossos apóstolos também sabiam, por nosso Senhor Jesus Cristo, que haveria contendas por causa do ofício do episcopado. Por essa razão, portanto, visto que haviam obtido um perfeito conhecimento prévio disso, nomearam aqueles presbíteros já mencionados e, depois, deram instruções para que, quando esses adormecessem, outros homens aprovados os sucedessem em seu ministério. Pensamos, portanto, que aqueles nomeados por eles, ou depois por outros homens eminentes, com o consentimento de toda a Igreja, e que tenham servido ao rebanho de Cristo de forma irrepreensível, humilde, pacífica e desinteressada, e que por muito tempo tenham gozado da boa opinião de todos, não podem ser justamente afastados do ministério. Pois nosso pecado não será pequeno, se expulsarmos do episcopado aqueles que cumpriram suas funções de modo irrepreensível e santo. Bem-aventurados são esses presbíteros. (1 Clemente 44)

Clemente começa referindo-se ao episcopado, mas em seguida parece chamar os mesmos ministros de “presbíteros”. Ele alterna entre os termos ao longo do texto, sem jamais indicar claramente qualquer transição para tratar de um ministério distinto. E embora Clemente claramente conceba uma espécie de sucessão, certamente não é a Sucessão Apostólica como comumente entendida; pois, em primeiro lugar, ela parece ocorrer apenas após a morte do titular, enquanto que, conforme definido por Newman, a nomeação deve ser feita durante a vida do titular, pois somente ele teria autoridade para transmiti-la! Note também como Clemente enfatiza o consentimento da igreja, e não alguma linha válida de sucessão.

O documento mais antigo que parece conceber o episcopado como um cargo distinto são as cartas de Inácio de Antioquia, nascido por volta do ano 35 d.C. Ele menciona frequentemente o episcopado e o presbiterato em contraste um com o outro. Curiosamente, porém, é o presbiterato que ele descreve como funcionando à semelhança dos Apóstolos — a autoridade do bispo ele compara a Deus mesmo: “Exorto-vos a empenhar-vos em fazer todas as coisas com uma harmonia divina, enquanto o vosso bispo preside no lugar de Deus, e os vossos presbíteros no lugar da assembleia dos apóstolos.” (Epístola aos Magnesianos, 6) Claramente, Inácio tinha uma visão muito elevada da autoridade do bispo, mas é importante destacar que a forma do episcopado aqui é claramente congregacional:3 Inácio invoca constantemente a autoridade do bispo em conjunto com seus anciãos, de modo que o que se vislumbra é uma congregação local com um bispo em função pastoral junto ao seu presbiterato, essencialmente um conselho de anciãos. Essa é provavelmente a forma primitiva do episcopado descrita por Jerônimo, em que os anciãos elegiam um dentre eles para presidir. Em todo caso, a Sucessão Apostólica não está em foco aqui: a única alusão a ela refere-se ao presbiterato, não ao episcopado. Possivelmente a ordenação do bispo era um ato da congregação inteira, e não primordialmente de outro bispo na Sucessão Apostólica.

Essa prática é bem atestada nos Cânones de Hipólito e nas Constituições Apostólicas (ambos documentos do século IV). O segundo cânon de Hipólito afirma: “Um bispo deve ser eleito por todo o povo.” O rito para a consagração de um bispo nas Constituições Apostólicas menciona a presença de outros presbíteros e bispos apenas de forma incidental, mas declara que o consentimento da congregação é essencial. (8.2.4) Não há aqui qualquer menção à noção de Sucessão Apostólica, e a vontade da congregação é considerada suprema o que, por sinal, também confirma a natureza congregacional do episcopado nesse período.

Aliás, nenhuma dessas evidências constitui um argumento contra a existência do episcopado em sua forma histórica atual, seja como existe nas igrejas anglicanas, seja entre os católicos romanos e os ortodoxos orientais. O objetivo é apenas apontar que a organização ministerial vigente não é jure divino, mas uma decisão prudencial baseada na configuração mais provável de preservar o ensino ortodoxo e promover a saúde da igreja. Católicos romanos e ortodoxos orientais podem, certamente, argumentar que suas estruturas eclesiásticas são superiores por esses motivos prudenciais. Porém, é assim que devem apresentar seu caso: não invocando uma teoria fictícia jure divino da sucessão que exclui as igrejas protestantes, mas tentando demonstrar alguma forma prática pela qual suas hierarquias eclesiásticas tenham preservado algo que os protestantes teriam perdido. Naturalmente, nós protestantes, que estimamos nossas doutrinas da graça, responderemos que, nessa medida, nossas ordens preservaram algo singularmente apostólico e, por isso, podemos, sim, reivindicar ser sucessores dos apóstolos.

Referências:

  1. “Reflexões sobre a Comissão Ministerial, respeitosamente dirigidas ao Clero”. Publicado originalmente em 1833. ↩︎
  2. “Atentemos cuidadosamente às palavras do Apóstolo, que diz: ‘Para que constituas presbíteros em cada cidade, como eu te ordenei.’ Depois, discorrendo sobre quem deve ser o presbítero a ser ordenado, acrescenta: ‘Se alguém não tiver crime, marido de uma só mulher,’ e demais qualificações; e logo depois acrescenta: ‘Porque é necessário que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro de Deus.’ Portanto, o mesmo é o presbítero que também é bispo, e antes que, por instigação do diabo, houvesse disputas acerca da religião e se ouvisse nos povos: ‘Eu sou de Paulo, eu de Apolo, eu de Cefas’ (1 Coríntios 1:12), pelo conselho comum dos presbíteros, a Igreja é governada”. (Capítulo 1) ↩︎
  3. W. H. Griffith-Thomas, Princípios de Teologia (Eugene, Oregon: Wipf & Stock, 2005), p. 325. ↩︎

Sobre Ian Mosley

Ian Mosley é professor de Latim clássico na região dos Ozarks, Estados Unidos, e colaborador do site Mere Orthodoxy, onde escreve sobre temas de teologia, cultura e tradição cristã. Com formação voltada às humanidades clássicas, seu trabalho reflete uma apreciação profunda pela teologia histórica e pela fé cristã tradicional. Além da docência, tem se dedicado à reflexão sobre a presença da ortodoxia cristã no mundo contemporâneo.

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