quinta-feira , 23 abril 2026

Escritura, o Magistério e a Santa Tradição

As diferenças entre o Romanismo, a Ortodoxia Oriental e as igrejas Reformadas procedem, em grande parte, de desacordos quanto ao que constitui a autoridade suprema da Igreja. Para Roma, Escritura e tradição possuem igual autoridade, conforme interpretadas pelo magistério; assim, a primazia pertence à própria Igreja, cujo cabeça é o papa. Entre os Reformados, a Escritura é tida como suprema sobre toda e qualquer opinião humana. Já para os Ortodoxos, a Bíblia é parte integrante do fluxo vivo da tradição, que também inclui a liturgia, os sete concílios ecumênicos e os escritos dos padres aprovados.

A doutrina romana da tradição desenvolveu-se ao longo dos séculos, sendo mais facilmente compreendida como o conjunto total do ensino pretérito da Igreja, evidenciado nas decisões dos grandes concílios, nos escritos de seus principais teólogos, em sua liturgia e nas tradições não escritas. Num primeiro momento, Escritura e tradição eram, de fato, praticamente a mesma coisa (1Co 11.23–26; 15.3; 2Ts 2.15; 3.6), pois “tradição” significa “aquilo que foi transmitido” — neste caso, algo evidentemente bom e transparentemente apostólico, tanto quanto o eram os escritos apostólicos. Com o passar do tempo, os apóstolos morreram, novos eventos ocorreram e surgiram heresias sustentadas por apelos aparentemente atraentes às Escrituras. A Igreja foi compelida a defender a verdade recorrendo ao que sempre ensinara desde os tempos apostólicos. Crenças mantidas e práticas observadas universalmente passaram a ser atribuídas à transmissão apostólica; por consequência, seu status foi elevado. Por fim, ideias divergentes, sem qualquer proveniência bíblica, acabaram aceitas. No início do Renascimento, revelou-se que algumas das reivindicações romanas quanto ao seu estatuto singular estavam baseadas em documentos forjados. Por detrás de tudo isso estava a questão de quem possuía o direito de interpretar doutrinas e práticas.

O Concílio de Trento (1545–62) decretou que Escritura e tradição devem ser recebidas com “igual afeto de piedade e reverência”. A Escritura é a Palavra de Deus, mas necessita ser interpretada, e tal tarefa, segundo se afirmava, foi confiada aos bispos, sob a presidência do bispo de Roma, a quem Cristo teria conferido autoridade sobre toda a Igreja. Os Reformadores argumentaram que isso equivalia a sujeitar a Palavra de Deus à autoridade do homem. Concílios posteriores — inclusive o Concílio Vaticano II (1962–65) — reafirmaram os decretos tridentinos.

A Tradição jamais pode ocupar o lugar de juíza sobre a Escritura, mas é a Escritura que a julga. Não aceitamos a Bíblia por ser comprovada pelos “atestados certíssimos” do Credo Niceno; aceitamos o Credo Niceno porque ele é confirmado pela Bíblia.

Os protestantes não rejeitaram a tradição enquanto tal. Luteranos, reformados e anglicanos redigiram suas próprias confissões, as quais, em suas respectivas comunhões, adquiriram status de tradição recebida. Contudo, todos esses credos eram compreendidos como subordinados à autoridade suprema da Escritura. Talvez em nenhum lugar essa relação seja expressa de modo mais claro do que no Artigo 8 dos Trinta e Nove Artigos de Religião da Igreja da Inglaterra:

Os três Credos — o Credo Niceno, o Credo Atanasiano e aquele que é comumente chamado Credo dos Apóstolos — devem ser plenamente recebidos e cridos, pois podem ser demonstrados por testemunhos certíssimos das Sagradas Escrituras.

Por que os três credos devem ser plenamente recebidos e cridos? Porque podem ser demonstrados pela Escritura. Precisamente por estarem em conformidade com a Escritura, nós os recebemos e cremos neles com toda firmeza. Eles possuem autoridade; exprimem o resultado contínuo e concertado da exegese bíblica da igreja ao longo dos séculos. Contudo, é uma autoridade subordinada, derivada da Escritura, que é “a única regra de fé e prática”, por ser soprada pelo Espírito Santo. Esse é o sentido do slogan pós-Reforma sola Scriptura — “Somente a Escritura”.

Que isso não significou uma rejeição irrestrita da tradição torna-se evidente ao observarmos a reação ao surgimento do socinianismo no século XVII. Esse movimento radical rejeitou praticamente todas as doutrinas da fé, alegando que eram invenções humanas e que não se encontravam expressamente na Bíblia. Tratava-se de um ataque aos concílios ecumênicos da igreja e a toda a tradição eclesiástica. Os reformados — como Johann Cloppenburg e John Owen — resistiram vigorosamente a tais teses. Ao afirmarem a autoridade suprema da Escritura, reconheciam que ela deve ser compreendida em harmonia com a maneira como os cristãos a entenderam ao longo dos séculos.

A Ortodoxia Oriental percorreu um caminho distinto, marcado por uma separação gradual de Roma, devida em parte ao isolamento crescente entre ambos após o colapso do Império Romano do Ocidente e às devastações que se seguiram. Para os ortodoxos — então e agora — a Escritura é parte integrante de um fluxo vivo, dinâmico e ininterrupto que inclui a liturgia, os sete concílios ecumênicos e os escritos dos principais padres da Igreja. A Bíblia é a Palavra de Deus; tanto as igrejas gregas quanto as russas, em sua ação missionária, sempre traduziram as Escrituras para as línguas vernáculas. A liturgia divina, extensa e solene, é saturada de Escritura; em comparação, a prática do evangelicalismo mais amplo — e mesmo de algumas igrejas reformadas — é frequentemente pobre nesse aspecto. Contudo, a Bíblia é considerada apenas uma parte da Tradição e, ainda que ocupe lugar de honra, não é vista como supremamente normativa em si mesma. Não houve, entre os ortodoxos, uma distinção clara entre Escritura e Tradição, como houve e há no Ocidente. Como as comunhões ortodoxas não são hierárquicas no sentido ocidental — não possuem papa nem magistério — categorias jurídicas oriundas de Roma não têm destaque, e outros paradigmas entram em jogo. Há menos formulações dogmáticas e maior flexibilidade, pois a história da Idade Média ocidental, do Renascimento, da Reforma e do Iluminismo praticamente não os atingiu. Ainda assim, subjaz a tudo um problema semelhante — embora não idêntico — ao que se vê no Catolicismo Romano.

Pela minha própria experiência, em ambos os lados do Atlântico, se alguém entrasse em um culto de muitas igrejas evangélicas, não teria a menor noção da posição que elas afirmam atribuir à Escritura. Professa-se que a Escritura é suprema, mas a prática, com demasiada frequência, diz outra coisa. Por outro lado, em outras comunhões, a prática por vezes supera a teoria.

Contudo, como declaram os Trinta e Nove Artigos, aceitamos ou rejeitamos a tradição conforme o grau em que ela possa ser demonstrada por testemunhos certíssimos das Sagradas Escrituras. A Bíblia é a juíza, porque seu Autor primário é Deus. A tradição, em sua melhor forma, é uma intérprete da Escritura, proclamando-a e testemunhando, por meio dela, a glória de Deus e Sua obra salvífica em Cristo. A tradição jamais pode julgar a Escritura; é ela que é julgada pela Escritura. Não aceitamos a Bíblia porque possa ser demonstrada pelos atestados do Credo Niceno; aceitamos o Credo Niceno porque ele é demonstrado pela Bíblia.

Portanto, nas palavras da Confissão de Fé de Westminster:

Sínodos e concílios não devem tratar nem concluir coisa alguma senão aquilo que é eclesiástico; e não devem intrometer-se em assuntos civis que pertencem ao Estado, a não ser por meio de humilde petição em casos extraordinários, ou mediante conselho, para satisfação de consciência, se para isso forem solicitados pelo magistrado civil. (31.4)

Os concílios não são regra de fé e prática, pois são passíveis de erro. Em contraste, afirma-se:

O juiz supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas devem ser determinadas, e pelo qual devem ser examinados todos os decretos de concílios, opiniões de autores antigos, doutrinas de homens e inspirações particulares, e em cuja sentença devemos descansar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura. (CFW 1.10)

As Escrituras são a regra suprema — e isso implica, necessariamente, que são incapazes de erro.

Sobre Robert Letham

Dr. Robert Letham é pesquisador sênior na Union School of Theology, no País de Gales; professor associado de teologia na Vrije Universiteit Amsterdam; fellow de história e teologia no Greystone Theological Institute, em Coraopolis, Pensilvânia; e ministro na Orthodox Presbyterian Church. É autor de diversas obras, entre as quais The Holy Trinity, Union with Christ e The Holy Spirit.

Verifique também

Calvino e o batismo: Regeneração batismal ou o duplex loquendi modus?

Qual é a relação entre batismo e salvação no pensamento de João Calvino? Esta é …

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *