O coração do evangelho
Historicamente, a justificação pela fé somente tem sido o marco distintivo da fé evangélica desde o tempo dos apóstolos. Os pais da Igreja a sustentaram e, embora não fosse sua preocupação central, a afirmaram plenamente. Os Reformadores não a inventaram; limitaram-se a reafirmá-la em termos mais bíblicos e coerentes, depois de ela ter sido obscurecida pela Igreja Católica Romana medieval. As ortodoxias reformada e luterana a abraçaram de todo o coração. Gigantes como Jonathan Edwards e os puritanos britânicos a pregaram com plena convicção. O pietismo alemão moldou sua espiritualidade em torno dela. Grandes pregadores, como Charles H. Spurgeon, fizeram da justificação pela fé o centro de sua pregação, e esse padrão prosseguiu até os dias de John Stott e Martyn Lloyd-Jones. A verdade bíblica é que a justiça de Cristo é imputada ao pecador e, portanto, ele é salvo somente pela graça, mediante a fé somente, à parte das boas obras e sem qualquer mérito próprio. Esse tem sido um traço fundamental da fé bíblica ao longo dos séculos, porque está no próprio coração do evangelho bíblico.
O relato ortodoxo falho
A justificação jamais recebeu grande atenção na teologia da Ortodoxia Oriental. A concepção ortodoxa de salvação é amplamente moldada pela ideia de theosis, fundamentada em textos como 2 Pedro 1:4. O termo theosis costuma ser traduzido para o português como “deificação”, e esse conceito é, do ponto de vista bíblico, profundamente problemático. Ele procede de uma compreensão defeituosa da gravidade do pecado e resulta numa visão obscurecida da salvação. Por theosis, os ortodoxos entendem o processo de tornar-se semelhante a Deus com o auxílio da graça. A ênfase recai sobre um processo sinergético, pelo qual contribuímos para a nossa santificação ao cooperarmos com a graça. Contudo, biblicamente falando, somos justificados não pela nossa cooperação ou esforço, mas exclusivamente pela confiança no mérito de Cristo.
Qualquer concessão à ideia de que somos, em última instância, capazes de salvar a nós mesmos, qualquer concessão à noção de que a salvação não é dom de Deus do princípio ao fim, é uma ladeira escorregadia que conduz a um falso evangelho.
A ênfase da Ortodoxia na deificação, em virtual exclusão da justificação, gera sérios problemas quando considerada a partir de uma perspectiva bíblica. A justificação — como a declaração de Deus de que nós, pecadores, somos justos porque nos foi creditada a justiça de Cristo pela fé somente — não é simplesmente uma ideia ocidental, cuja origem residiria numa maneira jurídica de enxergar a realidade, como os ortodoxos frequentemente repetem. Trata-se da mensagem central do evangelho quanto ao modo pelo qual somos salvos (pela fé somente) e quanto ao fundamento dessa salvação (a justiça de Cristo imputada a nós).
O desafio católico-romano
A Igreja Católica Romana rejeitou de modo veemente a justificação pela fé somente no Concílio de Trento (1545–1562). Trento continuou a empregar o termo justificação, mas o preencheu com um significado completamente distinto. Para Trento, a justificação é um processo, e não um ato de Deus: um processo iniciado pelo sacramento do batismo, no qual se supõe que a justiça de Deus seja infundida; um processo alimentado pelas obras religiosas dos fiéis e sustentado pelo sistema sacramental da Igreja; e um processo que exige que a maioria dos crentes atravesse um período de purificação no purgatório, antes de talvez se consumar no dia do juízo. Roma reformulou e reconstruiu a justificação em termos de uma combinação entre a iniciativa divina e os esforços humanos, graça e obras unidas, resultando numa jornada contínua de justificação, finalmente dependente das obras humanas e dos sacramentos eclesiásticos. O que estava ausente era o ato declaratório e forense da justificação, o fundamento exclusivo na graça divina e a plena certeza de estar justificado em virtude daquilo que Deus Pai declarou, Deus Filho realizou e Deus Espírito Santo aplicou. Trento produziu um ensinamento confuso e confusamente articulado sobre a justificação, que desde então tem desorientado multidões.
Roma mudou?
Muitos comentaristas bem-intencionados, inclusive no campo evangélico, deram com razão atenção àquilo que parece estar no coração da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação (DCDJ), assinada em 1999 por representantes da Igreja Católica Romana e da Federação Luterana Mundial. O parágrafo 15 declara solenemente:
Somente pela graça, pela fé na obra salvífica de Cristo e não por qualquer mérito da nossa parte, somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo, que renova o nosso coração e, ao mesmo tempo, nos capacita e chama às boas obras.
Se lida fora de contexto e de maneira teologicamente ingênua, essa frase poderia ser um resumo pertinente e incisivo da mensagem bíblica acerca do modo da justificação (pela graça somente e não com base em méritos), do meio da justificação (pela fé somente), do fundamento da justificação (a obra salvífica de Cristo) e das consequências da justificação (a adoção divina e o dom do Espírito Santo, a renovação do coração e o impulso da vida cristã). Todavia, todo exercício são de hermenêutica teológica — inclusive a leitura de documentos de diálogo ecumênico — deve levar em conta o contexto imediato e o contexto mais amplo, o sentido dos termos empregados e as implicações daquilo que se afirma.
Esticando Trento em vez de reformar Roma
Mais adiante, no parágrafo 28, a DCDJ afirma que “no batismo o Espírito Santo une a pessoa a Cristo, justifica-a e verdadeiramente a renova”. Não surpreende, porém, que o esclarecimento católico-romano sobre esse ponto sublinhe de modo enfático que “as pessoas são justificadas por meio do batismo como ouvintes da Palavra e crentes nela” (parágrafo 27). Assim, de um lado, a DCDJ pretende afirmar a importância da declaração da justiça de Deus recebida pela fé. De outro, contudo, reitera a necessidade da ação sacramental, mediante a mediação da Igreja, como elemento essencial para a justificação e, portanto, para a salvação.
O ponto de vista católico-romano é ainda mais reforçado pela afirmação de que a graça de Jesus Cristo é “conferida” no batismo (parágrafo 30). Segundo essa concepção, a graça não é recebida pela fé somente, mas concedida por Deus por meio da Igreja, que a administra no batismo. Essa declaração não pode ser conciliada com a visão segundo a qual a salvação é pela graça somente, à parte das obras, ainda que sacramentais. No catolicismo romano contemporâneo, vê-se plena coerência com a doutrina tradicional — a saber, que a justificação ocorre no batismo por meio de um ato sacramental.
Para a Igreja Católica Romana, o “somente pela graça” do parágrafo 15 significa que a graça está intrínseca, constitutiva e necessariamente vinculada ao sacramento e, consequentemente, à Igreja que o administra e às obras por ela realizadas. Nessa perspectiva, a salvação não pode ser somente pela graça, a menos que “somente pela graça” seja entendido como essa mesma graça sendo organicamente incorporada ao sacramento da Igreja. Estamos, evidentemente, diante de um conceito distinto de graça. Essa concepção não altera a teologia do Concílio de Trento, segundo a qual a graça é sacramental e deve ser compreendida dentro de uma dinâmica sinergética do processo da salvação. Nesse sentido, a DCDJ constitui um claro exercício de ampliação da “catolicidade” — isto é, da capacidade de absorver ideias sem modificar o núcleo — por parte de Roma, que não se tornou mais evangélica no sentido bíblico do termo.
Conclusão
A Igreja continuará a estar edificada sobre a autoridade da Escritura e sobre a justificação pela fé. Não há outro evangelho senão a mensagem, atestada biblicamente, de Jesus Cristo, que salva pecadores indignos como nós com base em sua obra única e definitiva realizada na cruz. Qualquer concessão à ideia de que somos, em última instância, capazes de salvar a nós mesmos, qualquer concessão à noção de que a salvação não é dom de Deus do princípio ao fim, é uma ladeira escorregadia que conduz a um falso evangelho. A justificação não é um resquício teológico de um passado distante. Ela é, de fato, essencial para compreender as boas-novas de Cristo. Como disse o apóstolo Paulo:
Considero todas as coisas como perda, por causa da excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por amor dele sofri a perda de todas as coisas e as considero como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria que procede da lei, mas aquela que vem por meio da fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé. (Fp 3.8–9)
Centro Cultural João Calvino