Os ortodoxos protestantes estavam empenhados em estabelecer de modo sistemático o caráter normativo e católico do protestantismo institucionalizado.
Nesse sentido teologicamente e filosoficamente amplo, mas metodologicamente estritamente definido, o termo “escolástica” pode ser aplicado a uma teologia que não é uma duplicação do ensino e do método da escolástica medieval, que é distintamente protestante e que está longe de se preocupar, na mesma medida, em colocar a filosofia em diálogo com a teologia, como o fizeram as grandes obras sintéticas do século XIII. A escolástica, portanto, designa a abordagem técnica e lógica da teologia enquanto disciplina, característica dos sistemas teológicos desde o final do século XII até o século XVII. Uma vez que a escolástica é primariamente um método ou uma abordagem das disciplinas acadêmicas, ela não está necessariamente vinculada a qualquer perspectiva filosófica particular, nem representa um apego sistemático ou uma concentração em qualquer doutrina ou conceito específico como chave para o sistema teológico. Este último ponto sempre foi claro no que diz respeito à escolástica medieval, mas precisa ser afirmado com igual decisão no que concerne à escolástica protestante.
Onde os Reformadores pintaram com pinceladas largas, seus sucessores ortodoxos e escolásticos empenharam-se em preencher os detalhes do quadro.
A teologia da ortodoxia protestante, desenvolvida no final do século XVI e ao longo do século XVII como uma codificação dogmática final da Reforma, ocupa uma posição de grande relevância na história do pensamento protestante. Essa teologia escolástica ou ortodoxa não é apenas o elo histórico que nos vincula à Reforma; ela é também a forma de sistema teológico por meio da qual, e dentro da qual, o protestantismo moderno recebeu a maior parte de seus princípios e definições doutrinárias. Sem diminuir em nada a realização dos grandes Reformadores e dos primeiros codificadores das doutrinas da Reforma — autores como Melanchthon, Calvino e Bullinger — é necessário reconhecer que não foram eles, mas antes as gerações subsequentes de protestantes “ortodoxos” ou “escolásticos”, as responsáveis pela forma final de questões doutrinárias como a definição da teologia e a formulação de seus princípios fundamentais, as formas plenamente desenvolvidas, em moldes protestantes, da doutrina da Trindade, o conceito cristológico crucial dos dois estados de Cristo, a expiação penal substitutiva e o tema do pacto das obras e do pacto da graça.
Se a teologia da Reforma não foi a fonte da formulação final dessas grandes questões doutrinárias, tampouco o foi da maioria das definições precisas e das distinções cuidadosas necessárias à constituição de um sistema teológico completo. Onde os Reformadores pintaram com pinceladas largas, seus sucessores ortodoxos e escolásticos empenharam-se em preencher os detalhes do quadro. Enquanto os Reformadores estavam preocupados em distanciar a si mesmos e à sua teologia de elementos problemáticos do pensamento medieval e, ao mesmo tempo, em permanecer católicos no sentido mais amplo do termo, os ortodoxos protestantes estavam empenhados em estabelecer de modo sistemático o caráter normativo e católico do protestantismo institucionalizado, por vezes mediante o uso explícito daqueles elementos da teologia patrística e medieval que não estavam em desacordo com os ensinamentos da Reforma.
O excerto acima foi retirado de Post-Reformation Reformed Dogmatics, 2ª edição (Volume 1), de Richard A. Muller, ©2003. Utilizado com permissão da Baker Academic.
Centro Cultural João Calvino