segunda-feira , 1 junho 2026

O que é a Filosofia Escolástica (Reformada), e por que ela importa?

A teologia reformada histórica, tal como foi concebida e desenvolvida no período moderno inicial, oferece uma profundidade conceitual que continua a cativar tanto estudiosos quanto estudantes. A sofisticação filosófica dessa tradição pode ser vista de modo mais proeminente na tradição da escolástica reformada, pois ela oferece uma estrutura filosófica robusta e matizada para a investigação de conceitos teológicos centrais, tais como a natureza de Deus, a relação entre fé e razão, e muitos outros temas morais envolvendo lei, ações e virtudes.

Além disso, o legado intelectual da escolástica reformada tem permitido aos estudantes apreender as nuances do pensamento reformado que permaneceram elusivas em muitos discursos modernos. O estudo desse campo exige um profundo engajamento com uma rica tradição intelectual que se estende por séculos e, ao imergirem nessa tradição, os estudantes podem desenvolver uma compreensão profunda das questões teológicas em jogo e das maneiras pelas quais os teólogos reformados do passado procuraram tratá-las. Isso, por sua vez, pode capacitar os estudantes a oferecer contribuições mais bem fundamentadas aos debates em curso no campo da teologia e a orientar as conversas contemporâneas em direção a ideias históricas e ortodoxas.

Uma tradição filosófica digna de nota, no interior das correntes escolásticas do pensamento reformado, é denominada “realismo”. O filósofo Alessandro D. Conti afirmou o seguinte acerca da filosofia medieval em geral: “O realismo e o nominalismo foram as duas principais alternativas teóricas na Baixa Idade Média quanto à realidade dos objetos gerais: os realistas criam na existência extramental das naturezas comuns ou essências; os nominalistas, não”.1

Não há espaço suficiente aqui para discutir ambas as tradições ao introduzir a amplitude do pensamento escolástico, mas ainda assim algo pode ser dito, a título introdutório, sobre o realismo, visto que ele foi uma posição dominante adotada e apropriada por muitos pensadores reformados do período da Reforma. Portanto, trataremos primeiro de algumas questões básicas concernentes à inteligibilidade do mundo e, em seguida, passaremos, de modo relativamente rápido, a três tradições distinguíveis no interior da escola do realismo, expondo-as em termos breves e simples.

A inteligibilidade do mundo: questões fundamentais

Suponha que você desejasse analisar a ordem da cognição humana. Você reconheceria que há pelo menos dois tipos de coisas que os seres humanos podem conhecer com a mente: o que é extramental e o que é intramental. Em primeiro lugar, seria necessário analisar a maneira pela qual os seres humanos chegam ao conhecimento dos objetos extramentais, isto é, das coisas que existem fora da mente humana. Conhecer a natureza das maçãs é um exemplo. Muitas pessoas, ao longo da história humana, dedicaram grande atenção ao conhecimento das maçãs, e suas descobertas foram importantes não apenas para os agricultores, mas também para os médicos, que hoje recomendam as maçãs como parte de uma dieta saudável. Conhecer a natureza das galinhas também é importante, novamente não apenas para os agricultores, mas também para os atletas, pois a proteína abundantemente concentrada na carne de frango é relevante para o fortalecimento da musculatura humana. Mas como os seres humanos chegaram a saber que o frango é rico em proteínas? E como aprendemos que as maçãs são frutos saudáveis, capazes de manter os médicos à distância quando consumidas regularmente? Isso se deve simplesmente ao fato de que os seres humanos dedicaram muito tempo e esforço ao conhecimento e à compreensão de suas naturezas. Assim, esses objetos que existem fora da mente humana podem ser tratados, em termos filosóficos, como extramentais; contudo, todos os seres humanos, de modo natural e intuitivo, ocupam-se desse tipo de cognição a fim de obter uma compreensão mais adequada do mundo ao seu redor, ou das coisas que lhes despertam interesse.

Há, porém, outro tipo de objeto que os seres humanos podem conhecer e compreender. Estes são chamados objetos intramentais, porque a razão humana também é capaz de analisar conceitos que se encontram na mente. Os seres humanos não apenas exploram o mundo exterior e examinam suas descobertas, sejam elas galinhas ou maçãs, mas também investigam o mundo interior da alma humana e se aprofundam nos conceitos que ali encontram. O que é o “amor”, sobre o qual os homens sempre falam? O que é a “justiça”? E o que é a “felicidade”? Esse tipo de cognição é frequentemente perseguido de modo profissional pelos filósofos em níveis bastante abstratos, mas isso não significa que as pessoas comuns não cheguem a conhecê-lo. As pessoas constantemente procuram compreender as ideias, os significados e as intenções envolvidos na comunicação humana, e isso é um fenômeno universal da vida humana, manifestado em toda sorte de culturas. Os homens estão sempre procurando dizer algo para comunicar ideias ou conceitos, e todos, por natureza, são inclinados a ouvi-los, analisá-los e compreendê-los.

Voltemos, então, às questões do realismo. Quais são as relações entre esses objetos extramentais e intramentais? Pode a mente humana realmente conhecer a verdadeira essência das coisas que existem fora dela? Pode ela, de fato, conhecer as características comuns e individuais que definem as coisas? Se assim for, pode a mente humana também conhecer o significado profundo dos próprios conceitos, ideias ou pensamentos? Coisas como justiça, amor e felicidade são meros conceitos que não possuem existência real, ou são aspectos reais do mundo que a razão vem a reconhecer? Sem dúvida, essas perguntas não esgotam todas as discussões envolvidas na filosofia escolástica; ainda assim, elas capturam algumas das investigações que foram ativamente desenvolvidas no mundo ocidental por um longo período. Questões desse tipo estavam em segundo plano quando muitos filósofos, incluindo numerosos teólogos, refletiam sobre a relação entre Deus e a ordem criada.

Realismo platônico

A primeira vertente do realismo pode ser chamada de realismo platônico. Para simplificar, uma característica distintiva dessa posição é que as essências de todas as coisas não estão localizadas nem nas próprias coisas (in re), nem no interior da mente humana (in intellectu), mas em um terceiro domínio denominado “mundo das Formas”. Aqui se encontra a célebre doutrina platônica da Forma, que funciona como a razão última de todas as coisas que existem e se movem neste mundo. Assim, a própria essência de todos os animais, chamada “animalidade”, não se encontra nem nos próprios animais, nem na mente humana que a conhece, mas nesse terceiro domínio, que transcende tanto a esfera material quanto a mental. Em outras palavras, todo o mundo em que vivemos está ligado a esse terceiro mundo quanto à sua existência, operação e movimento, e tudo o que se encontra nesta esfera sensível é um reflexo ou uma participação nessas Formas. É por isso que, ao contemplar a famosa pintura de Rafael, A Escola de Atenas, o dedo de Platão aponta para o alto, convidando o observador a elevar o olhar para compreender a essência de todas as coisas.

Realismo aristotélico

A segunda escola no interior do realismo, ainda simplificando a questão, é o realismo aristotélico. Aristóteles percebeu que o realismo platônico apresentava alguns problemas. Em primeiro lugar, se as essências das coisas do mundo não estão localizadas nelas mesmas, então todas as coisas teriam um sistema de existência bastante indistinto e enfraquecido. Por exemplo, se aquilo que se deseja conhecer é propriamente a “maçanidade” das maçãs, então seria necessário olhar para além ou acima das maçãs existentes para apreendê-la, e haveria razões legítimas para negligenciar as maçãs concretas ou contorná-las, visto que elas não seriam as fontes reais de sua natureza. O mesmo se aplica às galinhas: se elas são meros reflexos e participantes de uma Forma invisível chamada “galinidade”, então as galinhas existentes careceriam de um sistema robusto de existência, uma vez que sua essência comum estaria demasiadamente apartada delas. Em segundo lugar, as Formas platônicas careceriam de um sistema robusto de causalidade, e esta é uma das razões pelas quais as teorias da causalidade foram desenvolvidas com rigor na tradição aristotélica. Por um lado, no realismo platônico, não está claro de que modo as Formas causariam a vinda das coisas à existência neste mundo presente e, por isso, a ordem das interações entre “aquele” terceiro mundo e “este” mundo atual carece de definições precisas. As próprias Formas possuem poder causal para atualizar as coisas à existência, ou são inertes? Se são inertes, então como os entes reais passam a participar de suas Formas transcendentes? Seria necessário recorrer a um “quarto” mundo para explicar as operações do “terceiro” mundo?

Assim, o realismo aristotélico sustenta que a essência de uma coisa é descoberta na própria coisa, podendo ser abstraída e concebida pela razão humana. Não há necessidade de elevar o olhar para um terceiro mundo, nem de negligenciar a ordem presente para conhecer a essência das coisas. As coisas se movem e se atualizam mutuamente neste domínio presente, seguindo um determinado padrão causal; por isso, a explicação filosófica do mundo pode, com legitimidade, concentrar-se nos fenômenos observáveis que os seres humanos podem conhecer, compreender e apreender aqui e agora. É por essa razão que, na pintura anteriormente mencionada, A Escola de Atenas, Aristóteles aponta a palma da mão para baixo, orientando o observador para as coisas que estão aqui embaixo, neste mundo presente.

Realismo escolástico

Por fim, há uma terceira forma de realismo, chamada realismo escolástico. Essa tradição de pensamento foi desenvolvida no período medieval e posteriormente alcançou seu ponto culminante na Europa do século XVII. A genialidade dessa posição, elaborada por muitos pensadores cristãos, consistiu em trabalhar tanto com as tradições platônica quanto aristotélica à luz das verdades teológicas. Edward Feser, filósofo católico romano, explica:

Assim como o realismo aristotélico, o realismo escolástico afirma que os universais existem somente ou nas coisas que os instanciam, ou nos intelectos que os concebem. Concorda que não há um “terceiro reino” platônico independente tanto do mundo material quanto de todos os intelectos. Contudo, o realista escolástico concorda com o platônico em que deve haver algum domínio distinto do mundo material e dos intelectos humanos e de outros intelectos finitos. Em particular — e endossando uma tese classicamente associada a Santo Agostinho — sustenta que os universais, as proposições, as verdades matemáticas e lógicas, bem como as necessidades e possibilidades, existem em um intelecto divino infinito, eterno.2

Assim, no realismo escolástico, tanto as ideias platônicas quanto as aristotélicas são reunidas de maneira sistemática, mas são refinadas, reformadas e revistas de acordo com as verdades teológicas fundamentadas na Sagrada Escritura. Essa tradição leva em conta o intricado nexo das ordens causais que conduzem as coisas criadas à existência, mas também explica como todas as coisas da criação se relacionam com o ser, o intelecto e a vontade transcendentes. Nesse sentido, Santo Agostinho é reconhecido como um pensador brilhante que desenvolveu grande parte da discussão sobre essas questões, e essa é uma das razões pelas quais muitos dos intensos debates do período da Reforma giraram em torno da compreensão e da reivindicação do legado intelectual agostiniano. Lembre-se da célebre afirmação de João Calvino: Augustinus totus noster est (“Agostinho é inteiramente nosso”).

Conclusão

Cumpre agora apenas dizer que essas ideias filosóficas são importantes para a compreensão de muitos dos pressupostos e debates presentes na teologia escolástica reformada. Um exemplo disso é Franciscus Junius (1545–1602), que afirmou, em termos relativamente simples: “a estrutura subjacente das coisas que existem é dupla: algumas existem in re, outras in intellectu”.3 Embora não possamos agora aprofundar o pensamento de Június, a própria afirmação já indica que a dinâmica entre os domínios extramental e intramental da realidade ocupava um lugar importante no estudo teológico, e que tais categorias eram utilizadas para compreender a ordem metafísica do mundo em sua relação com Deus e conosco, enquanto seres humanos. E, uma vez que analisamos cuidadosamente o conjunto de suas ideias, é seguro concluir que a estrutura da realidade no pensamento de Június é caracterizada por uma rede de interações causais entre a actio divina (ação) e a ratio humana (razão), dentro de um ordo (ordem) estável, refletindo uma forma de realismo escolástico desenvolvida ao longo do período medieval. Portanto, para uma melhor compreensão do pensamento reformado histórico, possuir algum conhecimento do realismo escolástico é de grande proveito, e isso, sem dúvida, proporcionará frutuosas oportunidades de explorar as camadas mais profundas do mundo criado. E isso, naturalmente, tanto em termos filosóficos quanto teológicos, segundo a fé e a razão.

Referências:

  1. Alessandro D. Conti, “Realism,” in The Cambridge History of Medieval Philosophy, vol. 2, revised edition (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2014), 647. ↩︎
  2. Edward Feser, Five Proofs of the Existence of God, p. 102. ↩︎
  3. Franciscus Junius, Treatise on True Theology, 184. ↩︎

Sobre Seung-Joo Lee

Seung-Joo Lee é mestre em Teologia Histórica pelo Westminster Seminary California (turma de 2016) e doutor em Teologia pela Vrije Universiteit Amsterdam (2021), onde desenvolveu pesquisa sobre a teologia de Franciscus Junius (1545–1602). Atualmente, atua como professor em tempo integral de Estudos Teológicos no Presbyterian Theological College, em Melbourne, Austrália, e segue o processo de ordenação na Presbyterian Church of Australia. Sua atuação acadêmica concentra-se especialmente na escolástica reformada, teologia histórica e tradição confessional reformada.

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Um comentário

  1. Amo conhecer conhecer a Cristo através de tantas pessoas que deram e aquelas que dão o seu tudo para o reino de Deus 🙌🏽🔥🔥

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