No blog Parchment and Pen, Michael Patton levantou uma objeção à declaração de fé da Together for the Gospel, especialmente no que diz respeito à relação entre a tradição e o cânon:
Pense da seguinte maneira: sem que a tradição exercesse alguma autoridade, nem mesmo teríamos as próprias Escrituras, pois é somente por meio da tradição que sabemos quais escritos são, de fato, Escritura. As Escrituras não contêm, em nenhum lugar, uma lista inspirada indicando quais livros pertencem à Escritura (o que chamamos de “cânon” das Escrituras). É por meio das tradições da igreja que sabemos quais livros constituem a autoridade final. Portanto, a tradição deve possuir algum grau de autoridade.
Imagino que Patton esteja plenamente ciente das semelhanças entre esse argumento e as formulações tradicionais da Igreja Católica Romana. De fato, esse é precisamente o argumento empregado pelos apologistas católicos romanos contemporâneos. Por exemplo, Patrick Madrid contesta a posição protestante sobre o cânon com o argumento de que os cristãos não possuem um “índice inspirado” que revele “quais livros pertencem e quais não pertencem” às Escrituras.1
Creio que muito daquilo que Patton procura defender é louvável. Afinal, o testemunho uniforme da igreja (aquilo que poderíamos chamar de tradição) não desempenha algum papel em nos ajudar a reconhecer quais livros são canônicos? Sim, penso que desempenha, e aprecio a ênfase de Patton nesse aspecto (trato desse tema em meu livro Canon Revisited). No entanto, creio que a forma como ele estruturou o argumento continua sendo problemática. Steve Hays, no Triablogue, apresentou algumas respostas úteis a esse respeito. Permitam-me oferecer também duas observações.
Em primeiro lugar, um “índice inspirado” realmente resolveria o problema, como Patton (e os católicos romanos) sustentam? Imaginemos, por um momento, que Deus tivesse inspirado outro documento no primeiro século contendo esse “índice” e o tivesse dado à igreja. Chamemos esse documento de o vigésimo oitavo livro do cânon do Novo Testamento. A existência de tal livro satisfaria as preocupações católicas e, assim, eliminaria a necessidade de recorrer à tradição da igreja? De modo algum. Em vez disso, eles simplesmente fariam a próxima pergunta lógica: “Com base em que você sabe que esse vigésimo oitavo livro procede de Deus?” E, mesmo que se argumentasse que Deus tivesse concedido um vigésimo nono livro afirmando que o vigésimo oitavo livro procede de Deus, a mesma objeção permaneceria: “Sim, mas como você sabe que o vigésimo nono livro procede de Deus?” E assim a questão prosseguiria indefinidamente.
A objeção dos católicos romanos (e de Patton) quanto à necessidade de um “índice”, portanto, deixa de perceber o ponto central da questão. Mesmo que existisse outro documento contendo esse “índice”, ainda assim seria necessário demonstrar que esse documento faz parte do cânon. Afinal, e se houvesse vários livros desse tipo circulando na igreja primitiva? Como saberíamos qual deles realmente procedia de Deus? No fim das contas, portanto, a objeção católica romana é, em certa medida, artificial. Ainda que tal “índice” existisse, ele jamais resolveria a dificuldade levantada por eles, porque já partiram, a priori, do pressuposto de que nenhum documento pode autenticar a si mesmo. Em outras palavras, o modelo católico romano pressupõe que toda revelação escrita — contenha ou não um “índice” — sempre necessitará da aprovação e da autenticação externas da tradição da igreja.
Isso nos conduz naturalmente à minha segunda preocupação. Como já observei, penso que o consenso ao qual a igreja chegou, ao longo do tempo, acerca dos livros do Novo Testamento pode, de fato, ajudar-nos a reconhecer quais livros procedem de Deus. Contudo, discordo de Patton (e dos católicos romanos) quando afirmam que esse é o único meio de chegar a esse conhecimento (Patton disse: “é somente por meio da tradição…”). O que é completamente negligenciado nessa perspectiva é a autoridade intrínseca presente nesses próprios livros e a maneira como essa autoridade intrínseca pode desempenhar um papel em sua autenticação. O modelo católico romano enfatiza de tal forma a tradição da igreja como o único meio de conhecer o cânon que, pelo menos na prática, acaba ignorando as qualidades internas dos próprios livros.
Os reformadores protestantes referiam-se a isso como a natureza autoautenticadora das Escrituras. Trata-se, simplesmente, da ideia de que os próprios livros possuem qualidades e atributos que os identificam como provenientes de Deus. Este não é o lugar para apresentar uma defesa completa dessa concepção; meu objetivo é apenas destacar que ela constitui um elemento tradicional da teologia reformada e protestante ao longo da história da igreja e, portanto, não pode ser ignorada.
Em suma, creio que o consenso ao qual a igreja chegou ao longo do tempo (o que se poderia chamar de “tradição”) é, de fato, um meio de reconhecer quais livros são canônicos, mas certamente não é o único. Na compreensão dos reformadores protestantes, esses livros eram capazes de testemunhar em favor de si mesmos. Afinal, Jesus declarou: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (João 10.27).
Referências:
- Patrick Madrid, “Sola Scriptura: A Blueprint for Anarchy”, in Not By Scripture Alone: A Catholic Critique of the Protestant Doctrine of Sola Scriptura, ed. Robert A. Sungenis (Santa Barbara: Queenship Publishing, 1997), p. 22. ↩︎
Centro Cultural João Calvino