A questão perene no debate sobre a sola Scriptura é se a igreja está acima da Bíblia ou se a Bíblia está acima da igreja.
A segunda posição é, de modo geral, a posição protestante: as Escrituras, e somente as Escrituras, constituem a única regra infalível e, portanto, a autoridade suprema sobre a igreja.
A primeira posição é, de modo geral, a posição católico-romana: a igreja determinou o cânon e também, por meio do papa, determina como esses livros devem ser interpretados. Desse modo, a autoridade da Bíblia repousa sobre a autoridade da igreja, considerada anterior e mais fundamental.
É claro que os católicos não formulariam a questão exatamente nesses termos. A Igreja Católica Romana insiste que a Escritura é sempre superior ao Magistério. A Dei Verbum declara: “Este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a serve” (2.10). Contudo, apesar dessas ressalvas, permanece a dúvida de como a Escritura pode ser considerada a autoridade suprema se o Magistério é quem, em primeiro lugar, define, determina e interpreta a própria Escritura.
De todo modo, essa questão acerca de se a igreja está acima da Bíblia também surge no âmbito da erudição crítica. Os estudiosos críticos frequentemente sustentam que, do ponto de vista histórico, a igreja essencialmente criou o cânon em algum momento entre os séculos IV e V. Assim, o cânon seria apenas um produto humano.
Assim, há aqui um ponto de convergência inesperado entre a posição católico-romana e a perspectiva histórico-crítica. Embora a primeira sustente que esses livros são divinamente inspirados, e a segunda negue essa inspiração, ambas concordam que a igreja é a causa da Bíblia.
É preciso reconhecer, contudo, que há um sentido em que isso é verdadeiro. A Bíblia foi escrita por indivíduos divinamente inspirados que pertenciam à comunidade da aliança de Deus (isto é, à “igreja”). Posteriormente, outros cristãos, também pertencentes à igreja, reconheceram esses livros como provenientes de Deus.
Entretanto, devemos ter o cuidado de não confundir a causa próxima (causa proxima) da Escritura — os seres humanos — com sua causa última (causa ultima), o próprio Deus. Sob a perspectiva divina, a igreja de modo algum pode ser considerada a causa da Palavra divinamente inspirada de Deus. Pelo contrário, a Palavra divinamente inspirada de Deus sempre está acima da igreja e a governa.
Centro Cultural João Calvino