Os protestantes frequentemente são acusados de ter retirado livros do cânone que outras tradições cristãs aceitam como Escritura. Porém, já nos primeiros séculos da Igreja existem testemunhos confiáveis que confirmam a lista de 66 livros que reconhecemos como canônicos. Além disso, ainda hoje existem igrejas orientais históricas que mantêm exatamente o mesmo cânone que nós. Essas comunidades, preservando liturgicamente a mesma lista de livros, mostram que o cânone protestante não é uma invenção da Reforma do século XVI, mas o resgate de uma tradição antiga e contínua. Neste artigo, apresentarei três igrejas orientais, detalhando seus cânones e fornecendo as fontes para consulta, permitindo ao leitor conferir como essas listas se alinham com a tradição que os reformadores reconheceram como autêntica.
A Igreja Ortodoxa Russa
Para dar uma visão geral do ensinamento oficial da Igreja Ortodoxa Russa sobre este assunto, aqui está o que diz o catecismo do Patriarca Filareto de Moscou:
P. Quantos livros há no Antigo Testamento?
R. São Cirilo de Jerusalém, Santo Atanásio, o Grande, e São João Damasceno contam 22 livros, para se conformar à contagem que os hebreus fazem na língua original. (Veja a Epístola 39 de Atanásio sobre as solenidades e a Teologia de São João Damasceno, livro 4, capítulo 17.)
P. Por que deve ser considerada a maneira de contar dos hebreus?
R. Porque, como diz o apóstolo São Paulo, os oráculos de Deus lhes foram confiados, e a Igreja cristã da Nova Aliança recebeu os livros do Antigo Testamento da antiga Igreja hebraica. (Romanos 3:2)
P. E como São Cirilo e Santo Atanásio enumeram os livros do Antigo Testamento?
R. Da seguinte forma:
- O livro do Gênesis
- Êxodo
- Levítico
- Números
- Deuteronômio
- O livro de Josué
- O livro dos Juízes, e com ele, como apêndice, o livro de Rute
- Primeiro e Segundo Livros dos Reis, como duas partes de um mesmo livro
- Terceiro e Quarto Livros dos Reis
- Primeiro e Segundo Livros das Crônicas
- Primeiro livro de Esdras e o segundo do mesmo autor, ou, segundo a versão grega, o livro de Neemias
- Ester
- Jó
- Salmos
- Provérbios de Salomão
- Eclesiastes do mesmo autor
- Cântico dos Cânticos do mesmo autor
- O livro do profeta Isaías
- O livro do profeta Jeremias
- O livro do profeta Ezequiel
- Daniel
- O livro dos Doze Profetas Menores
P. Por que nesta nomenclatura não se menciona o livro da Sabedoria e alguns outros?
R. Porque eles não existem na língua hebraica.
P. Como devem ser considerados esses livros?
R. Santo Atanásio diz que eles se destinam a servir como leitura para os neófitos.
Além disso, esse ensino era muito comum nos séculos que precederam a adoção deste catecismo. Encontramos registros dele em teólogos como Teófanes Prokopovitch, reitor da Academia de Kiev no início do século XVIII; em um tratado de dogmática ortodoxa de 1783; o arquimandrita Irineu Falkovski afirma o mesmo em 1795; igualmente Sylvestre Lébedinski, outro arquimandrita do final do século XVIII, que chegou a compor um poema em latim listando os apócrifos e terminando com o verso “non possunt merito divina oracula dici”, ou seja, “eles não merecem ser considerados oráculos divinos”. O arquimandrita Antônio, no início do século XIX, reiterou esse ensino. O grande teólogo ortodoxo Macário, no século XIX, disse o mesmo. Eugênio Ouspenski, em 1895, também.
A Igreja Assíria do Oriente
Esta Igreja, cujo nome oficial é Santa Igreja Católica Apostólica Assíria do Oriente, é descendente da Igreja do Império Sassânida, que já no ano 424 era independente da Igreja do Império Romano (seja da Igreja Latina ou da Igreja Grega). A tensão política entre o Império Sassânida e o Império Romano levou as Igrejas desses impérios a se distanciarem. A Igreja Assíria, portanto, é chamada de “Igreja dos Dois Concílios”, pois adere aos concílios de Niceia e Constantinopla. Desde 424, declarou oficialmente estar sob a direção do patriarca do Oriente. No entanto, esta Igreja continuou a manter vínculos estreitos com as Igrejas do Império Romano, em particular com o patriarcado de Alexandria, onde Atanásio foi bispo.
Na última edição do seu catecismo, a de 2006, a Igreja Assíria declara:
7) Quantos livros do Antigo Testamento contamos?
Segundo os primeiros documentos da Igreja, temos um sistema de numeração que pode confundir os fiéis; no entanto, digamos que há um total de 46 livros do Antigo Testamento. Os primeiros Padres da Igreja contam um total de 22 livros do Antigo Testamento, chegando a esse número específico em conformidade com a comunidade judaica de Jerusalém, que os havia contado assim na antiga língua original, o “hebraico”.
8) Por que devemos aprovar a contagem judaica de Jerusalém desses livros?
Remetemos aos escritos de São Paulo, o tesoureiro da Igreja, onde ele declara na epístola à Igreja de Roma: … de muitas maneiras, principalmente porque os oráculos de Deus lhes foram confiados (3:2), o que significa, por interpretação, que os santos escritos do Antigo Testamento foram recebidos da Igreja hebraica (em Jerusalém) pela Igreja cristã do Novo Testamento de Jerusalém.
9) Como os Padres da Igreja primitiva enumeram os livros do Antigo Testamento?
[Sigue-se então uma lista do cânone do AT que corresponde ao cânone protestante; o catecismo prossegue:]
10) Temos outros livros do Antigo Testamento, mas eles não são mencionados aqui, como a Sabedoria do filho de Sirach e outros. Por que isso?
Esses livros não existem na língua hebraica, mas existem nos textos gregos.
11) Como a Igreja do Oriente considera esses outros livros que não estão incluídos no original hebraico?
São Atanásio, como Pai da Igreja, declarou que esses livros estavam incluídos nas leituras obrigatórias dos prosélitos que se preparavam para ser admitidos na santa Igreja pelo santo Batismo.
A Igreja Armênia
Após listar o cânone do Antigo Testamento, correspondendo exatamente ao cânone protestante, o catecismo da Igreja Armênia declara:
A lista acima dos livros do Antigo e do Novo Testamento faz parte do Cânone das Escrituras Sagradas. Fora dessa lista, alguns livros da Bíblia são chamados de deuterocanônicos; eles não foram encontrados no hebraico do Antigo Testamento, mas aparecem na tradução grega do Antigo Testamento feita pelos Setenta. Os livros deuterocanônicos foram incluídos no cânone porque seu conteúdo era puro e sua moral elevada. A Igreja Armênia os considera com respeito, mas somente os livros contidos no Cânone são de inspiração divina.1
Note-se a alternância entre canon e Cânone, usando o segundo para designar os livros de inspiração divina e o primeiro para livros dignos de leitura por serem puros e de moral elevada. O catecismo prossegue mencionando o Concílio de Partav, em 768, que elaborou a lista dos livros deuterocanônicos, sob a direção do Católicos Sion I de Bavonq e na presença do Católicos David III da Albânia Cáspia. Os livros em questão são: Judite, Tobias, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Sirácida e Baruque.
Conclusão
Além do interesse histórico, a relevância desses dados está em refutar a ideia de que os protestantes teriam decidido de forma arbitrária e unilateral retirar certos livros do cânone. O cânone chamado “protestante” não é outra coisa senão o cânone correspondente à lista cristã mais antiga que possuímos do Antigo Testamento: o cânone dos judeus, dos ortodoxos russos, dos assírios, dos armênios e, como mostram os registros patrísticos, o cânone da maioria dos Padres da Igreja.
- Albert Khazinedjan, O Catecismo da Santa Igreja Armênia Apostólica Universal Ortodoxa, ed. L’Harmattan, 2014, pp. 131-135. ↩︎
Centro Cultural João Calvino