À vossa proteção recorremos, ó Santa Mãe de Deus.
Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades,
mas livrai-nos sempre de todos os perigos,
ó Virgem gloriosa e bendita.
A oração contém referências a atributos e prerrogativas que, na Bíblia, são clara e exclusivamente atribuídas a Deus — por exemplo, sua proteção, sua aceitação das nossas súplicas, sua capacidade de livrar-nos e o fato de ele ser glorioso e bendito. E, no entanto, essa oração mariana atribui todas essas funções a Maria e ao seu manto protetor. De onde vem essa oração? E por que ela faz parte da vida litúrgica e devocional da Igreja Católica Romana hoje?
O Crescimento da Mariologia
Uma resposta bem documentada e erudita pode ser encontrada no livro Mary in Early Christian Faith and Devotion (Yale University Press), de Stephen J. Shoemaker,2 que traça o complexo processo histórico pelo qual a Maria bíblica tornou-se a Maria das múltiplas devoções nos cinco primeiros séculos da era cristã. A obra delineia o crescimento da mariologia muito além do retrato “lacônico” (p. 62) de Maria apresentado no Novo Testamento. Mesmo estendendo o foco para o segundo século, Maria certamente passa a ser considerada a “nova Eva” por Pais da Igreja como Justino Mártir e Irineu, vendo assim seu papel expandido como uma útil corroboração do paralelo paulino entre Adão e Cristo (o novo Adão). Não há, contudo, qualquer indício de devoções dirigidas a ela. Para esses Pais, “Maria parece ser uma figura principalmente de interesse dogmático, e não devocional” (p. 47). Além disso, Shoemaker menciona de forma útil um Pai posterior, como Tertuliano, que tinha uma “estima inferior” pela mãe de Jesus em comparação com outros escritores ortodoxos de sua época (p. 65).
Embora “praticamente não haja evidência de qualquer devoção cristã a Maria antes de 150 d.C.” (p. 3), o primeiro impulso para esse processo veio do Protoevangelho de Tiago, uma biografia tardia de Maria, escrita no final do segundo século. Nessa obra, ela se torna “o epítome da pureza sagrada, a santidade perfeita encarnada em um ser humano” (p. 60). Dá-se ênfase particular à sua virgindade, que passa a ser “um emblema de sua própria pureza sagrada” (p. 62), em vez de um sinal da origem divina do Filho. A santidade de Maria torna-se uma característica dominante, que atrai para si a atenção devocional como uma pessoa excepcional. Em um comentário revelador, Shoemaker sustenta que o Protoevangelho — portanto, um evangelho apócrifo — lançou “fundamentos cruciais para futuras devoções à Virgem Maria” (p. 53). Para os evangélicos que desejam fundamentar a espiritualidade exclusivamente nas Escrituras canônicas, este é um ponto importante a ser sublinhado. Historicamente falando, as devoções marianas foram alimentadas por escritos que jamais foram considerados inspirados, mas que exerceram uma influência formidável na geração do culto mariano.
O Contexto Heterodoxo
É nesse pano de fundo que surge a oração Sub tuum praesidium. Segundo Shoemaker, esse papiro egípcio do século III sugere que “a piedade mariana emergiu inicialmente em um contexto mais popular e menos culturalmente elitizado” (p. 70). Além disso, o fato de a oração não mencionar o Pai nem o Filho pode indicar que ela esteja vinculada a “grupos heterodoxos dentro do cristianismo primitivo” (p. 72). Essa lex orandi espúria influenciou negativamente o subsequente desenvolvimento da lex credendi. O fato de a mais alta autoridade da Igreja Católica Romana ainda utilizar essa oração revela a profundidade do impacto que ela exerceu.
Os capítulos centrais do livro são dedicados a uma análise fascinante de uma fonte importante: O Livro do Repouso de Maria, que inaugura a tradição das narrativas da Dormição. Nessa obra, Maria é reverenciada por “seu conhecimento dos mistérios cósmicos e sua influência junto a seu Filho” (p. 128), sendo retratada como capaz de receber intercessões, realizar prodígios e fazer aparições. O pano de fundo heterodoxo dessa tradição retrata Jesus como o “Grande Querubim da Luz” — um título tipicamente gnóstico. O Apócrifo da Dormição em Seis Livros reforça essa tendência insurgente de colocar Maria no centro de um culto próprio.
Shoemaker também lança luz sobre os acréscimos de papéis atribuídos a Maria (por exemplo, o “modelo ascético”, fortemente promovido por Ambrósio) e sobre as evidências litúrgicas do culto à Virgem, expressas em festas, festivais e hinos. Mais uma vez, a lex orandi do cristianismo antigo estava “um pouco à frente de sua lex credendi” (p. 194).
A lex credendi de fato se firmou com a proclamação dogmática de Maria como Mãe de Deus no Concílio de Éfeso — um “ponto de inflexão decisivo” na história da piedade mariana (p. 205). O capítulo final do livro apresenta um exame fascinante dos elementos mariológicos que sustentam o contexto histórico, os debates teológicos e os desdobramentos eclesiásticos do Concílio de Éfeso. O ponto defendido de maneira convincente por Shoemaker é que a piedade mariana já estava presente e era vigorosa antes do Concílio, sendo uma das principais razões pelas quais Nestório foi rejeitado — tanto pelo grupo teológico liderado por Cirilo quanto pelo grupo devocional liderado por Pulquéria. A série de sermões proferidos por Cirilo após o encerramento do Concílio “foi muito além das meras preocupações cristológicas, em suas exaltações à Maria” (p. 225). A cristologia de Nestório precisava certamente de maior refinamento, mas ele ao menos tinha razão ao prever a explosão da devoção à Virgem que se seguiria à proclamação de que ela era a Mãe de Deus.
Mariologia: Uma Análise Evangélica
A evidência histórica e literária apresentada de forma persuasiva por Shoemaker mostra que as devoções marianas tiveram origem em ambientes heterodoxos (leia-se: gnósticos) e foram posteriormente teologizadas e integradas ao corpo doutrinário mariológico da Igreja (p. 6). O livro se detém numa análise histórica cuidadosa, mas o teólogo evangélico deseja ir além e afirmar algo mais, respaldado pelas evidências históricas. Ao contrário da visão idealizada do catolicismo romano sobre o desenvolvimento doutrinário como um desdobramento orgânico da verdade (a partir de J.H. Newman), as ideias e práticas mariológicas foram acrescidas “de fora” e permitidas a penetrar na fé do povo. Enquanto Pais da Igreja, como Irineu, combatiam diligentemente as heresias do gnosticismo para proteger a integridade da fé cristã, outros setores da igreja eram infiltrados por desvios gnósticos através das devoções marianas. Influências gnósticas, que foram expulsas pela porta da teologia, reentraram pela janela das devoções, sem que a igreja como um todo exercesse discernimento bíblico suficiente para compreender o que estava ocorrendo. Infelizmente, a lex orandi (neste caso impregnada de gnosticismo) acabou afetando a lex credendi (que não tinha anticorpos bíblicos suficientes para rejeitá-la).
Voltando ao papa Francisco: ao convocar seu povo a rezar a invocação mariana Sub tuum praesidium, ele se referiu a uma tradição antiga que a Igreja Católica Romana assimilou e fez sua. Como tem ocorrido desde o final do segundo século em diante, “a devoção e a doutrina marianas continuam a ser, em grande parte, impulsionadas pela piedade popular, à qual os hierarcas e teólogos em grande medida respondem” (p. 239).
Referências:
- Holy See Press Office Communiqué, 29.09.2018 ↩︎
- Esta resenha de Mary in Early Christian Faith and Devotion, de Stephen J. Shoemaker (New Haven, CT; Londres, Reino Unido: Yale University Press, 2016), 289 páginas, foi publicada na revista Credo Magazine, volume 9, edição 2 (10 de junho de 2019). ↩︎
Centro Cultural João Calvino