O tipo sanguíneo divino?
Comecemos pelo caso do tipo sanguíneo. Diversos materiais considerados como tendo estado em contato com Cristo foram submetidos a testes de antígenos sanguíneos. Cinco amostras tiveram resultado positivo para o tipo sanguíneo AB, o mais raro entre todos, representando cerca de 5 por cento da população humana mundial. Duas dessas amostras dizem respeito a milagres eucarísticos, uma de Lanciano, na Itália (por volta de 750), e outra de Tixtla, no México (2006). Os demais resultados AB provêm de tecidos que se afirma terem tocado Jesus durante a crucificação: o Sudário de Turim, a Túnica de Argenteuil e o Sudário de Oviedo.
É notável que todas as cinco amostras apresentem o mesmo tipo sanguíneo. Em seu livro de 2021, Un cardiologue rencontre Jésus, o Dr. Franco Serafini calcula que a probabilidade de que as cinco amostras produzam todas um resultado AB, tendo em vista a raridade desse tipo sanguíneo, é de uma chance em 3,2 milhões (trata-se simplesmente de 5% elevado à quinta potência: 5% pela prevalência desse tipo e 5 pelo número de amostras testadas), dado retomado pelo apologista católico Matthieu Lavagna neste vídeo. “Em comparação, a probabilidade de morrer atingido por um raio é estimada em cerca de 1 chance em 79 746!”, acrescenta ele em um artigo intitulado com um pouco de entusiasmo excessivo: “O sangue de Jesus está presente nessas cinco relíquias”. Um artigo de 2023 no Catholic Answers Magazine chega a afirmar que essa “impossibilidade estatística” constitui uma prova matemática da Presença Real, uma prova de que Deus existe e uma prova de que “nosso Senhor tinha sangue AB”. Um artigo de 2024 na EWTN qualifica o tipo AB como “o tipo sanguíneo divino revelado pelos milagres eucarísticos”. E segue-se então a glosa: o tipo AB é o do receptor universal, belo símbolo para o Messias (omitindo-se, porém, que um dos resultados foi AB-, o que já não é mais receptor universal).
O papel dos anticorpos anti-ABO e dos testes de tipagem sanguínea
Para determinar o tipo sanguíneo de uma pessoa, realizam-se dois tipos de testes. O primeiro consiste em expor as hemácias do paciente a anticorpos específicos, provocando sua aglutinação. Trata-se do chamado teste direto, conhecido por produzir muitos resultados falso-positivos. Em seguida, realiza-se um segundo teste, o chamado teste inverso, que, como o próprio nome indica, consiste em expor os anticorpos presentes no soro do paciente a hemácias de tipo sanguíneo conhecido. Nenhuma transfusão é aceita sem que ambos os testes sejam feitos, e nenhum cartão de tipagem sanguínea é reconhecido pelo Serviço Francês de Hematologia se não tiver sido determinado por esse procedimento. No entanto, nos casos dos alegados milagres eucarísticos, apenas o teste direto foi realizado — justamente o teste conhecido por seus falso-positivos. Além disso, ele foi aplicado de forma inadequada, pois não foram encontradas hemácias em nenhuma das amostras.
Mas há outro problema: os antígenos A e B não são exclusivos dos seres humanos. Desde a década de 1960, os biólogos sabem que células bacterianas também possuem antígenos A e B em sua superfície. Assim, se uma amostra estiver contaminada por bactérias, mesmo que não contenha absolutamente nenhum sangue, ela ainda pode apresentar um resultado AB nesse tipo de teste.
Os seres humanos não desenvolvem anticorpos contra seus próprios antígenos ABO; por isso, morreríamos se recebêssemos sangue de um doador incompatível. A função dos anticorpos é nos proteger contra patógenos, e nós os desenvolvemos porque eles se assemelham aos antígenos presentes em substâncias capazes de nos causar dano, como certos tipos de bactérias. É por essa razão que nosso sistema imunológico aprendeu a atacá-las. Como consequência, muitos organismos (ou fragmentos de organismos mortos) podem produzir um resultado de “tipo sanguíneo” em um teste ABO. Isso inclui bactérias, vírus, fungos, plantas e outros animais. Há até casos em que uma pessoa desenvolve um “tipo sanguíneo adquirido” devido a uma infecção bacteriana, o que pode fazê-la apresentar resultados diferentes em um exame de tipagem sanguínea em comparação ao que seus genes indicariam.
A provável origem não humana desses resultados
A bactéria Serratia marcescens, cuja presença já foi identificada em hóstias que adquiriram coloração avermelhada, por si só resulta positiva para o antígeno B. Esse fato — a possibilidade de um resultado AB devido à ação de outros organismos que não sangue humano — é amplamente conhecido. Mesmo o muito entusiasta Dr. Zugibe reconhece: “É bem sabido que falsos positivos são frequentes na tipagem de sangue antigo em razão de diversos fatores, entre eles a presença de antígenos provenientes de outros organismos, como insetos”.1
Em outras palavras, o teste ABO não é um teste para determinar se o material analisado é sangue. Ele é um teste que parte do pressuposto de que já se sabe tratar-se de sangue não contaminado e que se deseja apenas identificar quais antígenos ele apresenta.
Assim, a Dra. Trasancos, católica e autora de um livro sobre milagres eucarísticos, observa que “os investigadores sabiam que as amostras estavam sujas, manuseadas por várias pessoas e contaminadas por micro-organismos. O Dr. Linoli relatou, há cinquenta anos, a presença de resíduos de pequenos insetos mortos e de larvas nas amostras de Lanciano. As fibras sanguíneas do Sudário foram encontradas contaminadas por bactérias e fungos. A amostra de Tixtla foi manuseada por diversas pessoas ao longo dos sete anos em que durou a investigação”.
Do mesmo modo, o Dr. Kearse, também católico e que, durante vinte anos, foi mandatado como leigo para distribuir a Eucaristia na ausência de um sacerdote (portanto, não exatamente um “protestante malvado” nem um cético ateu), publicou um artigo acadêmico sobre o assunto em uma revista de medicina legal com revisão por pares,2 no qual conclui:
“Em resumo, o presente artigo avaliou a ideia de que os resultados de tipagem AB observados em diversas relíquias e milagres eucarísticos indicariam uma origem comum desses objetos. Como os antígenos AB são expressos tanto por bactérias quanto por seres humanos, tal afirmação não pode ser sustentada cientificamente. Na realidade, a explicação mais provável para essas observações é que elas resultam da presença de antígenos comuns presentes em bactérias”.
No corpo do artigo, o autor ainda esclarece:
“Em sua obra dedicada ao exame científico dos milagres eucarísticos, Serafini afirma que ‘o risco global de uma determinação incorreta do tipo sanguíneo para essas amostras de sangue analisadas [provenientes de eventos milagrosos] torna-se cada vez menor’ à medida que os métodos se aperfeiçoaram e foram realizados em diversos laboratórios. Trata-se, porém, de uma simplificação excessiva, pois, mesmo que as técnicas variem ligeiramente, os princípios moleculares que regem o reconhecimento de antígenos por anticorpos permanecem inalterados. Como nenhuma das amostras acima mencionadas é estéril (muito pelo contrário), é razoável propor que antígenos AB comuns, provenientes de bactérias, possam explicar facilmente o tipo sanguíneo coincidente observado”.
Alguns meses depois, o mesmo autor publicou, em coautoria com o Dr. Ligaj, outro artigo,3 com o objetivo de estabelecer um protocolo objetivo que permitisse, no futuro, distinguir sangue de bactérias. Nesse estudo, vários parágrafos tratam especificamente dos dois supostos milagres eucarísticos mencionados na introdução. A respeito do caso de Lanciano, eis o que o artigo afirma:
O milagre de Lanciano foi avaliado por Linoli em 1971, que publicou seus resultados na revista médica italiana Quaderni Sclavo di Diagnostica. Embora um tanto antigo, um breve exame desse relatório é importante, pois muitos eventos modernos o citam com frequência como um tipo de prova corroborativa. Segundo a tradição, enquanto o sacerdote pronunciava a oração da consagração, o pão da comunhão transformou-se em carne viva e o vinho em sangue vivo. Quando examinado na década de 1970, o material revelou conter partículas esbranquiçadas (fungos) e apresentava “acúmulos significativos de esporos e hifas de hifomicetos”. O sangue possuía uma consistência “uniformemente rígida, de modo que apenas aplicando forte pressão com o gume foi possível destacar, com dificuldade, algumas pequenas partes”. Os testes primários de Teichman e Takayama, que avaliam a presença de hemoglobina, foram ambos negativos. Como as primeiras tentativas de detectar sangue humano pelo método de Ouchterlony (uma técnica de imunodifusão) se mostraram problemáticas, recorreu-se a uma técnica menos sensível, a difusão zonal. A confiabilidade desses resultados permanece um tanto incerta, dado o desafio de se obter um fragmento de grande dureza e potencialmente de baixa solubilidade, para ser analisado por uma técnica que depende da difusão. Possíveis problemas de reatividade cruzada também constituem uma preocupação (ver abaixo). Em um recente livro dedicado à análise científica dos milagres eucarísticos, A Cardiologist Examines Jesus, Serafini afirma que “é qualitativamente indiscutível que o milagre de Lanciano contém sangue humano verdadeiro”. Contudo, infelizmente não se pode afirmar que os resultados sejam específicos para sangue humano, pois são fornecidos pouquíssimos dados sobre a possível reatividade cruzada dos antissoros utilizados: apenas duas outras espécies foram testadas, bovina e coelho. Com efeito, o estudo baseia-se em uma preparação de anticorpos policlonais obtida por meio de uma imunização relativamente pouco refinada, utilizando sangue humano integral. Preparações desse tipo podem razoavelmente apresentar reatividades cruzadas com o sangue de outras espécies. A avaliação histológica preliminar sugeriu que o tecido era de origem cardíaca, e estudos posteriores levaram à conclusão de que estavam presentes endocárdio e tecido adiposo, bem como estruturas arteriais e venosas. Um teste de tipagem sanguínea ABO foi realizado, produzindo um resultado do tipo AB; contudo, foram levantadas dúvidas quanto à validade desse achado, já que bactérias também expressam antígenos AB. Como discutido recentemente, técnicas mais contemporâneas capazes de distinguir entre antígenos AB bacterianos e humanos poderiam ajudar a esclarecer a exatidão das observações sobre a expressão comum de AB entre diversos milagres eucarísticos e relíquias cristãs. A investigação de Lanciano é louvável por representar a primeira grande tentativa científica de avaliar objetivamente, em detalhes, as propriedades físicas de um milagre eucarístico. É lamentável que, nos anos seguintes, atividades fraudulentas (de terceiros) tenham sido associadas a essas conclusões. Diversas fontes relataram que testes posteriores (mais de 500) teriam sido realizados sobre essas amostras, confirmando a presença física de carne verdadeira e sangue verdadeiro. As experiências teriam sido conduzidas, segundo tais alegações, por uma comissão médica da Organização Mundial da Saúde (OMS) e das Nações Unidas (ONU); os resultados teriam sido divulgados em Nova York e Genebra e reunidos em um extenso relatório de síntese. Há vários anos, nós mesmos (bem como outros) buscamos sem sucesso qualquer resultado ou documento proveniente desse relatório, chegando a contatar a OMS e a ONU, que não possuíam registro de nenhuma investigação realizada nesse período. Mais recentemente, o médico italiano Franco Serafini descobriu o paradeiro desse relatório, guardado em um cofre dentro de um mosteiro em Lanciano. Ele solicitou permissão para examinar os documentos e, para sua grande consternação, descobriu que alguém havia anexado uma primeira e uma última página referentes a Lanciano a centenas de páginas sem relação alguma, contendo testes realizados em múmias egípcias. Após apenas alguns minutos de exame, tornou-se evidente que o relatório era “uma fraude terrível, uma farsa lamentável, muito triste”.
No que diz respeito ao alegado milagre de Tixtla, o artigo afirma:
Uma religiosa distribuía a comunhão quando percebeu que uma substância avermelhada semelhante a sangue exsudava de uma hóstia. O sacerdote foi avisado e a hóstia foi reservada em um local separado. Três anos depois, iniciou-se uma investigação científica sob a direção de Ricardo Gomez, que havia desempenhado funções semelhantes durante o incidente de Buenos Aires. Os testes de tipagem revelaram que a amostra era positiva para o tipo AB, e os testes de imunocromatografia foram relatados como positivos para hemoglobina humana (Hb). No tipo de teste realizado para detectar hemoglobina, a amostra é colocada em uma câmara onde migra em direção a uma zona contendo anticorpos (anti-Hb), que então são arrastados adiante para encontrar anticorpos imobilizados em uma linha de teste (a fim de verificar se o resultado é positivo) e em uma linha de controle (para demonstrar que o teste funcionou adequadamente). Muitos estarão familiarizados com testes semelhantes usados em casa para detectar gravidez ou exposição ao COVID. Um resultado positivo para a hemoglobina sugere que algo extraordinário pode ter ocorrido e merece um exame mais aprofundado, especialmente quanto aos detalhes da técnica. A reatividade cruzada dos anticorpos com a hemoglobina de espécies não humanas não costuma ser motivo de preocupação em tais testes diagnósticos aplicados a pessoas conhecidas; contudo, neste cenário, é importante verificar se os anticorpos utilizados são de fato específicos para sangue humano. É igualmente essencial destacar que esses testes são otimizados para sangue líquido, que possui uma consistência/densidade e um pH específicos. Como certos eventos eucarísticos foram atribuídos a bactérias que produzem um fluido viscoso e mucilaginoso, é possível que o aumento da viscosidade de tal amostra possa provocar uma ligação não específica dos anticorpos, conduzindo a um falso positivo. Como poucos ou nenhum detalhe foi fornecido acerca desses testes, além do próprio resultado, não está claro se diferenças de fluidez poderiam ter desempenhado algum papel. As técnicas de imunocromatografia também demonstraram ser significativamente afetadas pelo pH da amostra; ignora-se se esse fator foi considerado na interpretação dos resultados. Em testes de imunocromatografia desse tipo, teria sido apropriado processar em paralelo amostras-controle de hóstias (limpas e contaminadas). Como sugerido acima, eventos extraordinários exigem que os cientistas levem em conta todos os meios ordinários disponíveis em sua investigação. Foram realizados testes histológicos (mais uma vez conduzidos por Gomez), com a consulta de vários patologistas e cardiologistas. Relataram-se interpretações semelhantes às anteriores, favoráveis à identificação de um tecido cardíaco com presença de glóbulos vermelhos e glóbulos brancos, incluindo macrófagos, neutrófilos e basófilos. Um problema recorrente em muitos desses relatórios histológicos é que eles dependem exclusivamente da inspeção visual. Embora isso possa ser suficiente na rotina normal de exame de amostras provenientes de pessoas sobre as quais muitas informações são conhecidas, a identificação de certos tipos celulares ou de tecidos em casos como este requer estudos complementares com marcadores específicos. Com esse objetivo, os investigadores relataram que as amostras foram positivas para a glicoforina A (um marcador de glóbulos vermelhos), mas negativas para sondas de desmina muscular e miosina (ambas específicas do tecido muscular). Este último resultado foi inesperado, dada a suposta natureza do material. O resultado positivo para a glicoforina A é interessante, embora, como anteriormente, nenhum controle de especificidade tenha sido apresentado. Como já indicado acima, é fundamental incluir controles negativos e positivos que garantam que os resultados sejam científica e inequivocamente válidos. A coloração com anti-glicoforina A pode ser relativamente comum no exame de tecidos cardíacos provenientes de amostras humanas conhecidas, mas permanece a questão se ocorreria ligação não específica em amostras-controle de hóstia. A presença de células vegetais na amostra de Tixtla foi reconhecida, “avistadas de tempos em tempos ao fundo”. Como no evento de Buenos Aires, foram realizados estudos de DNA, com a conclusão de que o DNA estava “completamente degradado e fragmentado”. Serafini afirma que isso reforça, mais uma vez, a ideia de que “o material genético escapa às sondas genéticas e não se presta a ser reconhecido”. A possibilidade de que estivesse presente DNA não humano não foi considerada. O teste de tipagem ABO foi realizado por dois grupos distintos, utilizando tanto técnicas de aglutinação quanto de imunofluorescência, e um resultado AB foi fornecido, embora nenhuma demonstração de controles de especificidade para a amostra tenha sido apresentada. Como destacado anteriormente, a contribuição de antígenos AB por bactérias não pode ser excluída por nenhum dos dois métodos sorológicos e deveria ser levada em conta na interpretação dos resultados. Por fim, a amostra foi declarada Rh negativo; ironicamente, deixou-se de notar que isso contradiz o conceito de um fenótipo de receptor universal, proposto com base em princípios teológicos.
Sim, você leu corretamente: em vez de concluir pela ausência de DNA humano, o Dr. Serafini afirma que isso demonstra que esse DNA não deseja ser reconhecido… alguns chegando a ver nisso uma prova de sua divindade. Como diz o Dr. Transacos no artigo citado anteriormente:
Outra preocupação diz respeito à afirmação de um DNA divino. Apenas as amostras de Buenos Aires e de Tixtla passaram por um teste de DNA forense, conhecido como teste PCR amplificado (reação em cadeia da polimerase). O estudo de Buenos Aires indicou que “foi encontrada uma concentração muito baixa de DNA humano” e que a amostra continha uma boa quantidade de DNA de “origem não humana”. Para a amostra de Tixtla, nenhum DNA humano pôde ser detectado. Uma “concentração muito baixa de DNA humano” é indicativa de contaminação por manipulação. Em testes de DNA forense, vestígios de DNA provenientes de humanos que tocaram uma amostra podem ser amplificados de maneira não intencional, e há relatos de que as hóstias foram manuseadas por várias pessoas. Quanto ao DNA de “origem não humana”, os relatórios do laboratório forense simplesmente apresentam a sigla “N.R.” (“no result”, nenhum resultado). Contudo, em vez de relatarem o simples fato de que nenhum DNA humano foi detectado, os investigadores seguiram na direção oposta. Afirmaram que havia DNA humano presente, mas que ele escapava à detecção por ser de origem divina — explicando que o DNA de Jesus compreenderia apenas DNA materno, sem qualquer DNA paterno proveniente de um pai biológico. Se esse é o padrão para testar milagres, então qualquer pessoa pode concluir qualquer coisa.
E se fizéssemos o teste?
Mas o interesse do estudo de Kearse não reside principalmente na crítica dirigida aos métodos de avaliação dos chamados milagres eucarísticos. Ele reside sobretudo na implementação de um protocolo controlado para reproduzir as condições nas quais as hóstias “milagrosas” haviam avermelhado. Com efeito, todas essas hóstias têm em comum o fato de terem sido armazenadas em locais úmidos e com pouca luminosidade, entre outros fatores. Ao reproduzir essas condições, a equipe do Dr. Kearse constatou que cerca de 15% das hóstias adquiriam coloração avermelhada, em razão da presença de uma bactéria — Serratia marcescens (que, por si só, também é positiva para o tipo sanguíneo B).

Eles também inocularam deliberadamente essa bactéria em hóstias não consagradas para observar como ela se desenvolve e, mais uma vez, constataram o aspecto avermelhado característico (imagem B):

Essas hóstias apresentam uma aparência muito semelhante à relatada em vários milagres eucarísticos:

Nos relatos de milagres eucarísticos, afirma-se frequentemente que a hóstia avermelhada mantém sua coloração mesmo quando colocada na água, sem que a água se torne vermelha. A equipe do Dr. Kearse submeteu então suas hóstias avermelhadas às mesmas condições e constatou exatamente o mesmo resultado. Em contraste, quando tentaram o mesmo procedimento com hóstias às quais haviam adicionado sangue humano verdadeiro, o efeito foi distinto: o sangue se dissolveu rapidamente na água:

O estudo prosseguiu com a análise de DNA das hóstias contaminadas e encontrou resultados semelhantes aos observados nas hóstias tidas como milagrosas. Ao concluir a pesquisa, os autores sugerem a realização de um teste HLA, facilmente executável, impossível de falsificar e capaz de verificar simultaneamente tanto a origem humana do material quanto a eventual origem comum. Com efeito, se dois milagres eucarísticos apresentassem perfis HLA semelhantes, isso indicaria não apenas que se trata de material humano, mas de material humano proveniente do mesmo indivíduo:
Embora grande atenção tenha sido dedicada à avaliação de hóstias consagradas que supostamente manifestariam propriedades milagrosas de sangue visível, mostramos aqui, pela primeira vez, que hóstias comuns, não consagradas, apresentam aparências semelhantes quando submetidas ao mesmo tipo de tratamento. Como demonstrado, embora uma pequena porcentagem de hóstias não consagradas possa exibir uma aparência física semelhante à de pão que sangra, testes científicos elementares permitem distinguir facilmente uma coisa da outra — incluindo uma simples avaliação com lâmpada ultravioleta. Ainda que alguns casos tenham sido descritos em que hóstias consagradas não foram imersas em água antes do surgimento do suposto milagre, é razoável supor que a contaminação e o crescimento biológico também possam ocorrer por manipulação, elevada umidade, etc. Além disso, diversas linhagens de bactérias e fungos são conhecidas por produzir pigmentos avermelhados, suscetíveis de variar conforme o local específico e as condições ambientais. Assim, é provável que haja variação nos casos em que se considera que microorganismos sejam a causa de certos eventos miraculosos. Em nosso estudo, o agente causal foi identificado como um crescimento fúngico, Epicoccum sp., muito provavelmente Epicoccum nigrum, amplamente presente em todo o mundo. À semelhança do que foi descrito para diversas hóstias tidas como miraculosas, constatamos que a água na qual as hóstias eram colocadas não se tingia com o tempo. Se sangue verdadeiro estivesse de fato escorrendo, tratar-se-ia de uma propriedade bastante estranha, pois o sangue deveria dissolver-se facilmente. Com efeito, como mostrado em nossos estudos, sangue fresco ou sangue recentemente seco sobre hóstias dissolvia-se relativamente rápido na água, como era de se esperar. Observamos que apenas cerca de 15% das hóstias não consagradas cultivadas em água desenvolviam áreas avermelhadas semelhantes a sangue, o que corrobora a ideia de que os relatos de milagres são relativamente raros e não ocorrem todas as vezes que hóstias deixadas de lado são descartadas segundo o protocolo eclesial. Embora nossos estudos não tenham identificado Serratia marcescens como agente causal, é compreensível que esse microrganismo — comumente encontrado em produtos panificados — possa produzir a aparência de uma hóstia sangrando. Vários testes simples mostraram-se capazes de distinguir facilmente um crescimento de Serratia de sangue verdadeiro, incluindo a coloração de Wright e a espectroscopia. Tentamos realizar testes semelhantes em crescimentos avermelhados de origem fúngica, mas estes não se solubilizavam facilmente em uma variedade de detergentes ou solventes […]. Estudos de biologia molecular sobre hóstias milagrosas já foram tentados, em particular a análise das repetições curtas em tandem (STR), que não produziu qualquer resultado e foi atribuída à natureza enigmática e “divina” do ADN envolvido. Como demonstrado no presente relatório, a prevalência de ADN de outras espécies (vegetal, bacteriana, fúngica) em hóstias não consagradas oferece uma alternativa plausível às conclusões de investigações anteriores sobre milagres eucarísticos. Seriam necessárias análises adicionais de ADN utilizando sequências tanto específicas ao ser humano quanto variáveis entre indivíduos, para fortalecer a afirmação de que o ADN humano presente em vários milagres eucarísticos teria uma origem comum (ver abaixo). A validação científica de que diversos milagres eucarísticos compartilham uma origem comum exige, no mínimo, a demonstração de que identificadores específicos estão presentes em todos eles. Os antígenos leucocitários humanos (HLA) constituem os sistemas proteicos e genéticos mais polimórficos da espécie humana e oferecem uma oportunidade singular para verificar se proteínas teciduais e/ou ADN provêm realmente da mesma fonte. No caso de o ADN proveniente de hóstias milagrosas ser problemático em razão da contaminação por múltiplos indivíduos, a análise das proteínas HLA por métodos de imunohistoquímica poderia fornecer uma solução alternativa. Uma das propriedades mais intrigantes dos relatos de milagres eucarísticos é a apresentação de cortes histológicos que corresponderiam a tecido cardíaco. Se tal conversão for realmente válida, a expressão dos HLA deveria acompanhar essa transformação. Métodos multiplex de imunohistoquímica demonstraram que é possível uma avaliação simultânea de múltiplos biomarcadores numa única lâmina de tecido, o que poderia ser útil em estudos desse tipo. A avaliação de marcadores HLA também fornece uma verificação crucial contra a apresentação de amostras fraudulentas: um perfil idêntico deveria ser obtido em todos os casos, ao redor do mundo, se a alegação de uma origem única for legítima. Isto é de importância fundamental. Por fim, os autores desejam esclarecer que o objetivo deste artigo não é sugerir que todos os chamados milagres eucarísticos devam ser considerados fraudulentos; antes, a intenção é destacar que práticas científicas rigorosas precisam ser empregadas na avaliação desses eventos, a fim de que uma apreciação verdadeira seja possível. Fé e ciência não precisam entrar em contradição; contudo, um dos problemas centrais relacionados aos milagres eucarísticos é a inexistência de um protocolo científico padrão para examiná-los. Com esse propósito, descreve-se acima um procedimento mínimo sugerido, destinado a enriquecer toda investigação futura e servir como ponto de partida para a padronização da avaliação científica desses fenômenos. Também se considera que critérios adicionais possam ser incluídos, contribuindo para melhorar a reprodutibilidade e a confiabilidade dos resultados.
Conclusão
Este artigo está longe de pretender oferecer um tratamento exaustivo sobre a questão dos milagres eucarísticos; limita-se a responder apenas a uma pergunta: por que essas amostras retornam com resultados semelhantes ao sangue do tipo “AB”? A resposta apresentada por diversos pesquisadores — inclusive os dois médicos católicos mencionados neste estudo — é a de que há contaminação bacteriana nas amostras. Em outros artigos, avaliaremos separadamente os supostos milagres eucarísticos, começando pelo de Lanciano; depois, ofereceremos algumas considerações gerais sobre esses eventos, com base nas conclusões alcançadas para cada um dos casos examinados.
Referências:
- Zugibe, Frederick T., The Crucifixion of Jesus: A Forensic Inquiry, Second Edition, 2005. ↩︎
- Kearse, K.P. The relics of Jesus and Eucharistic miracles: scientific analysis of shared AB blood type. Forensic Sci Med Pathol 21, 1507–1510 (2025). ↩︎
- Kearse K, Ligaj F., Scientific Analysis of Eucharistic Miracles: Importance of a Standardization in Evaluation. J Forensic Sci Res. 2024; 8(1): 078-088. ↩︎
Centro Cultural João Calvino