sábado , 7 março 2026

Beleza, Tradição e Fidelidade

Nos últimos anos, tem-se observado um aumento perceptível no número de convertidos tanto ao Catolicismo Romano quanto à Ortodoxia Oriental provenientes de um contexto protestante. Um estudo publicado em 2024 mostrou que, nos dez anos anteriores, mais de 65% dos convertidos à Ortodoxia Oriental eram ex-protestantes. Também houve algumas conversões de grande repercussão ao Catolicismo Romano, o que impulsionou um interesse crescente pela tradição entre evangélicos. Por que as pessoas estão deixando a fé protestante?

Muitos se cansaram do modelo do pastor-celebridade que se tornou popular no evangelicalismo. Outros têm se sentido espiritualmente desnutridos e mal alimentados por um ensino raso e por cultos triviais. Há ainda aqueles que se tornaram desiludidos com as aparentemente intermináveis facções dentro do protestantismo, que levam à formação de um número cada vez maior de denominações. Embora o Catolicismo Romano e a Ortodoxia Oriental possuam diferenças significativas entre si, ambos oferecem um apelo semelhante. Àqueles que adoeceram com a exaltação de personalidades humanas, essas tradições apresentam algo transcendente. Àqueles que se afastam do entretenimento, oferecem algo sério. Àqueles entristecidos pelas divisões, aparentam oferecer estabilidade. Essas são algumas das principais razões que explicam o aumento de convertidos protestantes a essas tradições — e talvez você conheça alguém que esteja pensando em se tornar um deles.

Se o que foi dito acima de fato descreve alguém que você conhece, permita-me dizer, antes de tudo, que simpatizo com essa frustração. Há muitas igrejas que hasteiam a bandeira protestante e, ainda assim, ficaram muito aquém dos objetivos estabelecidos por seus antepassados reformadores. Muitos foram decepcionados, frustrados ou até mesmo enganados por tais igrejas. Além disso, o desejo de encontrar algo mais significativo — algo que ofereça renovação espiritual e um fundamento sólido para a fé — é inteiramente louvável. Tal desejo pode indicar que a pessoa leva sua fé a sério e demonstra preocupação com o seu bem-estar espiritual (e possivelmente o de sua família). Talvez alguém que você conheça esteja sentindo que aquilo que essas outras tradições oferecem é exatamente o que ele precisa para reacender sua ligação com Deus e alimentar uma alma que definha. Contudo, é preciso adverti-lo de que, ao abandonar a fé protestante, ele pode estar abrindo mão justamente daquilo que procura, daquilo mesmo que pode sustentá-lo e nutri-lo. Por isso, exorto você a levá-lo a considerar três coisas que ele deixará para trás.

Em primeiro lugar está a doutrina da suficiência das Escrituras. Conforme definida na Confissão de Fé de Westminster 1.6, essa doutrina ensina que “todas as coisas necessárias para a sua própria glória, para a salvação do homem, para a fé e para a vida, ou são expressamente declaradas na Escritura, ou podem ser dela deduzidas por boa e necessária consequência”. Em outras palavras, tudo aquilo de que precisamos para fortalecer nossa caminhada espiritual ou para desfrutar de uma comunhão mais rica com Deus encontra-se na Bíblia. Isso se dá porque Deus infundiu a sua Palavra com poder para restaurar a nossa alma (Sl 19.7). O caminho para a verdadeira bem-aventurança é meditar na lei do Senhor e nela ter prazer de dia e de noite (Sl 1.1–2). Considere a forma vívida com que Jeremias ensina essa verdade: “Achando-se as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria do coração” (Jr 15.16). Se você deseja manter o coração alegre e santo, então deve mantê-lo na Palavra de Deus. O puritano John Flavel expressa isso da seguinte maneira: “Guarda a Palavra, e a Palavra te guardará. […] Nunca perdemos o coração, senão depois que ele perde a impressão eficaz e poderosa da Palavra”.

Não concedo que o culto católico-romano ou o da Ortodoxia Oriental seja profundo. O sistema sacramental e as venerações icônicas conduzem as pessoas para mais longe de Deus, não para mais perto.

Embora tanto a Igreja Católica Romana quanto a Ortodoxa Oriental afirmem respeitar a Bíblia, ambas acabam por rebaixar a sua autoridade e dificultar o acesso a ela ao elevarem outras instâncias — como as tradições eclesiásticas — ao seu lado. O resultado é que justamente aquilo de que o povo de Deus mais necessita — a exposição clara e a aplicação fiel da Palavra de Deus — recua para as sombras no culto e no ministério. Em vez de oferecer aconselhamento exclusivamente a partir das Escrituras, os pastores passam a assistir paroquianos aflitos prescrevendo orações mecânicas e exercícios penitenciais destituídos de sentido espiritual. O remédio para almas adoecidas pelo pecado fica trancado no porão, em vez de ser ministrado pronta, livre e abundantemente. Leitor: se você se encontra espiritualmente enfraquecido, o recurso de que necessita para renovação e restauração não é outro senão a Palavra de Deus. Ela é “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça”, a fim de que sejamos “perfeitos e perfeitamente habilitados para toda boa obra” (2Tm 3.16–17). Se não quisermos definhar, precisamos ser regados — e é a Palavra de Deus, livremente pregada e promovida nas igrejas protestantes fiéis, que por si só é suficiente para nos tornar como uma árvore sempre frutífera, prosperando em tudo quanto fazemos (Sl 1.3).

Uma segunda realidade que alguém que considera abandonar o protestantismo talvez não perceba estar deixando para trás é a beleza do culto. Isso pode soar estranho a alguns leitores, uma vez que, com frequência, o aspecto mais sedutor das tradições católica romana e ortodoxa oriental tem sido justamente a sua estética cultual visualmente impressionante. Todos deveriam concordar que aquilo que torna o culto verdadeiramente belo é o fato de nele encontrarmos um Deus belo; a questão, porém, é: como nós o encontramos? A resposta é: pela fé — e a fé é alimentada pela Palavra de Deus, não por relíquias, ícones ou ritualismo (Rm 10.17). Portanto, um culto no qual a Palavra não ocupa o centro é um culto no qual Deus não ocupa o centro, por mais mística que seja a atmosfera. A beleza do culto protestante reside no fato de que, por meio de seu compromisso com a Palavra, ele de fato nos aproxima de Deus (cf. CFW 7.6).

É claro que há muitas igrejas, no amplo espectro evangélico, que obscureceram a Palavra de Deus — ou a perderam por completo — por meio de artifícios fabricados pelo homem e moldados pela cultura. Contudo, essas igrejas abandonaram aquilo que sua própria tradição representa e são protestantes apenas de nome. Embora eu não discorde de que tal culto seja raso, não concedo que o culto católico-romano ou o da Ortodoxia Oriental seja profundo. O sistema sacramental e as venerações icônicas conduzem as pessoas para mais longe de Deus, não para mais perto. Em muitos aspectos, esses métodos não diferem em nada das ferramentas ridículas empregadas por algumas igrejas evangélicas. O tom é diferente, mas o resultado é o mesmo: a glória de Deus é obscurecida, e o homem permanece privado do encontro vivificante para a alma que o culto foi destinado a proporcionar (cf. Sl 63; 73; 84).

É por isso que, durante o período da Reforma Protestante, houve um esforço deliberado para retornar ao culto ordinário das igrejas apostólicas e primitivas (por exemplo, At 2.42). Um princípio central do culto público para os Reformadores era a simplicidade. Não havia necessidade de ornamentação, seja no edifício, seja na liturgia, pois, por meio da Palavra e dos sacramentos, os adoradores contemplavam a verdadeira Beleza: o próprio Deus. John Cotton resume essa tradição ao afirmar que “nosso principal cuidado e desejo é administrar […] as ordenanças do próprio Cristo […] em sua pureza e simplicidade nativas, sem qualquer adorno ou pintura de invenções humanas”. Mais do que experiências místicas, o que eles buscavam era o esplendor da santidade (Sl 29.2), pois é isso que mais nos beneficia e que mais glorifica a Deus. Pode parecer ordinário (porque de fato o é), mas a tradição protestante procura encontrar Deus nos lugares e nos meios em que Ele prometeu manifestar-se. Não deixe de encontrá-lo.

Por fim, quem considera afastar-se da fé protestante precisa estar ciente de que fazê-lo pode significar, possivelmente, afastar-se também da certeza da salvação. Uma das maiores recuperações promovidas pela Reforma Protestante foi a doutrina bíblica da justificação somente pela fé. Somos declarados justos diante de Deus — nossos pecados são perdoados, nossa dívida é quitada, nossa justiça é obtida e o céu nos é aberto — não por qualquer mérito próprio, mas pela obra consumada de Cristo em nosso favor (Fp 3.9). Tudo o que nos é requerido é arrepender-nos e crer. Nada sufoca tanto a certeza quanto viver perguntando se estamos em paz com Deus, se fizemos o suficiente ou se realmente somos salvos. Mas a mensagem do evangelho, que constitui o próprio pulsar da fé protestante, não permite esse tipo de incerteza. Pelo contrário, somos assegurados de que “justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1). Se alguém procura algo que console e fortaleça a sua alma, é isto. Se, em vez disso, alguém ingressa nas tradições romana ou oriental, entra em um sistema intricado que coloca a paz com Deus no final de um labirinto impossível de justiça pelas obras. O evangelho é doce demais e o que está em jogo é alto demais para que se abandone essa verdade. Portanto, permaneça onde Cristo é pregado e a certeza da salvação é promovida.

Como já mencionei, nem todas as igrejas protestantes fazem jus ao nome que ostentam. Ainda assim, a tradição preserva alguns dos tesouros mais preciosos deste lado do céu, e não podemos nos dar ao luxo de abandoná-los. Se estamos definhando espiritualmente, devemos ter cautela em depositar nossa esperança simplesmente em uma mudança. Nossa esperança deve estar sempre no Senhor; por isso, busque uma igreja fiel que o conduza a ele. Arrisco dizer que isso não significará abandonar a tradição protestante, mas muito provavelmente deixar uma igreja que apenas se diz protestante por outra que o seja de fato.

Sobre Jonathan Landry Cruse

O Rev. Jonathan Landry Cruse é pastor da Community Presbyterian Church em Kalamazoo, Michigan, onde vive com sua esposa e filhos. É autor de mais de cinquenta hinos e de diversos livros, entre eles The Christian’s True Identity, The Character of Christ e Paradox People: Learning to Live the Beatitudes.

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