Argumento 1 — Na Epístola aos Hebreus, o autor argumenta em favor da superioridade do sacerdócio de Cristo sobre o sacerdócio levítico ao afirmar o seguinte: “Ora, aqueles são feitos sacerdotes em maior número, porque pela morte foram impedidos de permanecer; este, no entanto, porque permanece para sempre, tem o seu sacerdócio imutável” (Hebreus 7:23–24).
Portanto, não há sacerdotes, propriamente falando, que estejam agora presentes sobre a terra, visto que Cristo detém o seu sacerdócio para sempre. E, no entanto, Roma possui muitos chamados sacerdotes espalhados por todo o mundo, os quais realizam repetidas vezes o rito da missa em sua liturgia, sendo isso o requisito prévio para a própria oferta da missa. Assim, Roma está em desacordo com o que a Epístola aos Hebreus ensina.
Roberto Belarmino responde dizendo o seguinte:
“Nenhum católico afirma que os sacerdotes que estão na Igreja sucedem a Cristo… Paulo, de fato, exclui sacerdotes da mesma ordem e dignidade, mas não sacerdotes inferiores que, em relação a Cristo, são verdadeiramente ministros. Ninguém, com efeito, pode suceder a Cristo na mesma ordem, porque ele vive para sempre; mas nada impede que outros sejam instituídos sob ele como seus vigários e servos; de modo que, embora Cristo seja o nosso único Pastor e Mestre (Mt 23:8), ainda assim pode haver outros mestres e pastores inferiores sem detrimento para ele”.1
Essa sua resposta, contudo, em nada resolve a questão. Pois, se o raciocínio de Belarmino acerca dos sacerdotes papistas como “vigários” de Cristo ou como “participantes” de seu sacerdócio fosse válido, ele estaria em desacordo com a tipologia bíblica entre Melquisedeque e Cristo, desenvolvida em Hebreus 7.
Isso porque Melquisedeque não teve tais vigários ou “representantes” em seu sacerdócio durante o período do Antigo Testamento. É precisamente esse ponto que o apóstolo utiliza para demonstrar a superioridade de Cristo.
Alguém poderia responder dizendo que, visto que o antítipo é maior do que o tipo — o que, de fato, é verdadeiro per se —, Cristo poderia possuir elementos não presentes em Melquisedeque. Todavia, isso se dá em aspectos específicos, como, por exemplo, a preexistência real de Cristo (em relação à declaração apostólica de que Melquisedeque é “sem pai, sem mãe e sem genealogia”.
Em nenhum lugar da Escritura lemos que Cristo é superior a Melquisedeque no sentido de supostamente possuir vigários e participantes em seu ofício como Sumo Sacerdote supremo de seu povo, a Igreja.
Além disso, é melhor não haver participantes nem sucessores no sacerdócio, sendo essa precisamente uma das características que torna o sacerdócio de Cristo superior ao dos sacerdotes levíticos do Antigo Testamento.
[2]. Quanto à linha de raciocínio de Belarmino, segundo a qual, assim como Cristo é o Profeta e Supremo Mestre da Igreja, sem que isso impeça a existência de mestres secundários, assim também isso não impediria a existência de “sacerdotes secundários”, permanecendo Cristo no ofício supremo de Sumo Sacerdote, cumpre dizer o seguinte:
a) O ofício sacerdotal de Cristo é evidentemente distinto e diverso, embora certamente em perfeita harmonia, de seu ofício profético. Como disse François Turretini a respeito dos raciocínios de Belarmino: “Um profeta, que trata com os homens em nome de Deus, difere de um sacerdote, que trata com Deus em nome dos homens”.
Visto que Cristo já não está corporalmente presente sobre a terra, é fácil compreender por que ele concedeu apóstolos, mestres e ministros. Entretanto, ele agora exerce o seu ofício de Sumo Sacerdote no céu, não requerendo, portanto, quaisquer ministros secundários nesse sentido.
b) Cristo de fato instituiu apóstolos e evangelistas (Efésios 4:11), mas em lugar algum ele institui um ofício propriamente sacerdotal para a Nova Aliança.
c) Pastores inferiores sob Cristo não causam qualquer dano teológico à tipologia entre Cristo e Melquisedeque (ou, mais especificamente, no caso do ofício profético, à tipologia entre Cristo e Moisés), ao passo que a concepção católico-romana de “sacerdotes secundários” certamente o faz, como demonstramos acima.
d) Toda a liturgia da missa romana é realizada pelo sacerdote na terra. Assim, pareceria que ele é mais do que um mero “representante” de Cristo, mas antes quase um sucessor, por assim dizer. Para colocá-lo de modo mais direto: afirmam os papistas que o próprio Cristo, por meio do sacerdote, está pronunciando as palavras da missa contidas no Missal Romano?
Argumento 2 — Este é talvez o mais conhecido dos argumentos apresentados pela Igreja Reformada acerca deste tema, a saber, que a missa causa grave ofensa ao sacrifício de Cristo, realizado uma vez por todas na cruz.
Esse argumento se fundamenta em diversas afirmações da Epístola aos Hebreus:
“Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, diante de Deus; nem ainda para a si mesmo se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote cada ano entra no Santo dos Santos com sangue alheio; doutra sorte, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; agora, porém, ao se cumprirem os tempos, se manifestou uma vez por todas, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo. E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação”. (Hebreus 9:24–28)
E ainda:
“Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas. Ora, todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que jamais podem remover pecados; Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus”. (Hebreus 10:10–12)
A resposta católico-romana a esse argumento é bem conhecida, a saber, que o sacrifício da missa é o mesmo sacrifício daquele realizado no Calvário. O sacrifício da missa seria, portanto, uma representação ou aplicação desse único sacrifício. É precisamente nessa distinção que eles se apoiam para tentar escapar às palavras do apóstolo em Hebreus 9 e 10. Todavia, essa distinção por eles forjada, neste caso, não lhes será de auxílio por diversas razões:
[1] Essa distinção é, em si mesma, uma contradição de termos. Há uma diferença crucial entre a coisa em si e a representação dessa coisa. A representação de algo é realizada — no caso da missa — no presente, ao passo que a própria coisa pertence ao passado. Assim, a missa seria, ao mesmo tempo, a representação do sacrifício da cruz e o próprio sacrifício da cruz em si mesmo (quanto à substância, como eles ensinam). Tal formulação incorre em evidente incoerência conceitual.
[2] Há muitas coisas que demonstram uma diferença substancial entre o sacrifício da missa e o sacrifício da cruz, dentre as quais se podem mencionar as seguintes:
a) Se a missa é o mesmo sacrifício da cruz, então ela deve ser ou uma continuação ou uma repetição do que foi realizado no Calvário. Mas ambas as hipóteses implicam imperfeição no sacrifício da cruz, porque, se algo precisa ser continuado até alcançar perfeição, isso implica, por definição, que ainda não era perfeito. Se, por outro lado, a missa é uma repetição do sacrifício da cruz, isso igualmente revela imperfeição na obra do Calvário, como o apóstolo claramente afirma em Hebreus 7:26–27.
b) O sacrifício da cruz e o sacrifício da missa diferem substancialmente também quanto ao lugar: o primeiro ocorreu no Calvário, em Israel; o outro é realizado diariamente em toda parte do mundo.
[3] A aplicação de uma oferta e a própria oferta são coisas distintas. Esta última realiza a ação; a primeira pressupõe que a ação já tenha sido realizada. Portanto, se a missa é meramente uma aplicação do sacrifício do Calvário, segue-se, pelo raciocínio exposto, que ambas diferem em substância. E, se diferem em substância, então, por definição, não são o mesmo sacrifício — e, assim, a construção teológica da missa fica demolida.
Argumento 3 — Pertence à própria natureza do sacrifício que a coisa sacrificada seja destruída ou imolada. É por isso que, em hebraico, זֶבַח (“sacrifício”) está semanticamente ligado a זָבַח (“abater”, “imolar”, “matar”). O mesmo se verifica em grego com os termos θυσία e θύω. Portanto, se a missa é verdadeiramente um sacrifício no qual Cristo é oferecido, então deve-se concluir que Cristo é destruído ou imolado nessa oferta — o que constitui uma blasfêmia execrável, algo que nenhum papista em seu perfeito juízo admitiria.
Referências:
- Belarmino, Sobre o Santíssimo Sacrifício da Missa, Livro I, Capítulo 25 ↩︎
Centro Cultural João Calvino