O nome de Cornelius Van Til é inseparável da apologética reformada. Em razão da importância de seu pensamento e da apologética em geral, pretendo apresentar, neste breve artigo, algumas observações sobre sua trajetória e seu pensamento fundamental, bem como um resumo da apologética.
Cornelius Van Til nasceu em 3 de maio de 1895, nos Países Baixos, sendo o sexto filho de pais piedosos. Foi criado em um lar calvinista de disciplina rigorosa, mas permeado por profundo afeto. Em 1905, a família Van Til imigrou para Highland, no estado de Indiana, nos Estados Unidos, onde passou a trabalhar na agricultura em uma região mais próspera.
Ainda na adolescência, Van Til sentiu o solene chamado de Deus para o serviço cristão. Pouco depois, ingressou no Calvin College, em Grand Rapids, Michigan, onde se dedicou intensamente ao estudo da filosofia. Após concluir o bacharelado (A.B.) no Calvin College, mudou-se para Princeton, em Nova Jersey, onde permaneceu por mais cinco anos de estudos. Obteve o grau de Mestre em Teologia (Th.M.) pelo Princeton Theological Seminary e o doutorado (Ph.D.) pela Princeton University. Sua tese de doutorado recebeu o título “Deus e o Absoluto”.
Após um breve pastorado na Spring Lake Church, em Muskegon, Michigan (1927–1928), Van Til lecionou apologética durante um ano no Princeton Theological Seminary (1928–1929). Em seguida, o Conselho Diretor da instituição o elegeu professor de apologética. Contudo, sua nomeação não foi confirmada pela Assembleia Geral de 1929, em razão da decisão desse concílio de autorizar a reorganização do Seminário de Princeton segundo diretrizes mais liberais.
Van Til retornou para Spring Lake, decidido a recusar qualquer convite para lecionar tanto em Princeton quanto no recém-organizado Westminster Theological Seminary, que tinha como propósito dar continuidade à tradição da “Velha Princeton” sob a competente liderança do Dr. J. Gresham Machen. Entretanto, acabou sendo convencido a integrar o corpo docente de Westminster pelos Drs. Machen e Allis, que viajaram até Michigan para convidá-lo pessoalmente.
Desde a fundação do Westminster Theological Seminary, em 1929, até sua aposentadoria, em 1972, o Dr. Van Til lecionou apologética reformada e disciplinas correlatas, desenvolvendo seu ensino a partir de uma perspectiva distintamente bíblica e dentro dos limites da teologia reformada clássica.
O pensamento de Van Til sobre apologética reformada, filosofia e teologia exerceu uma influência cada vez maior sobre muitos estudantes de pós-graduação e evangélicos reformados conservadores em diversas partes do mundo. Ainda hoje, suas ideias continuam sendo desenvolvidas por alguns de seus discípulos e permanecem objeto de frequentes debates entre teólogos e apologistas reformados comprometidos com a ortodoxia.
Ao longo de sua carreira docente, Van Til publicou mais de vinte livros, além de cerca de trinta apostilas de aula inéditas, amplamente distribuídas e que continuam sendo valorizadas. Seu falecimento, em 1987, aos noventa e um anos de idade, marcou o fim de uma era tanto para o Westminster Theological Seminary quanto para a apologética reformada. Para um relato mais detalhado de sua vida, consulte a biografia autorizada escrita por William White Jr., Van Til: Defender of the Faith (1979).
Teologia e Filosofia
Duas áreas de estudo intimamente relacionadas moldaram a pessoa e a obra de Cornelius Van Til: a teologia e a filosofia. Do ponto de vista teológico, ele sempre foi inequivocamente reformado, tanto em seus princípios quanto em sua prática. Além das Escrituras, nenhum autor exerceu maior influência sobre sua formação do que João Calvino. O Catecismo de Heidelberg, por meio de sua criação na tradição reformada holandesa, e a Confissão de Fé de Westminster, juntamente com seus Catecismos, em razão de sua ligação com o presbiterianismo conservador em Princeton e Westminster, marcaram profundamente sua teologia. Além disso, suas convicções teológicas foram significativamente influenciadas por diversos teólogos holandeses.
Van Til enfatizava que Deus é absolutamente soberano sobre toda a criação; por isso, toda a vida possui um caráter inevitavelmente religioso, seja em submissão a Deus, seja em rebelião contra Ele. Consequentemente, todo conhecimento deve ser compreendido a partir de uma perspectiva cristã. Ele jamais abandonou sua tese central de que:
“O cristianismo apresentado na Bíblia é a única religião revelada por Deus, e o calvinismo é a expressão mais clara e consistente dessa religião, tanto em seu conteúdo quanto em sua visão da vida e do mundo.” (White, p. 35)
No campo da filosofia, os princípios do calvinismo exerceram profunda influência sobre a corrente conhecida como Filosofia de Amsterdã, que, por sua vez, influenciou Van Til, especialmente durante seus primeiros anos no Westminster Theological Seminary. Essa tradição filosófica surgiu a partir dos escritos e do ensino de Herman Dooyeweerd (1894–1977) e D. H. Th. Vollenhoven (1892–1978), cunhados que lecionavam na Universidade Livre de Amsterdã. Dooyeweerd procurou construir seu sistema filosófico sobre o fundamento do motivo básico cristão da criação, queda e redenção.
Nas últimas décadas de sua vida, contudo, Van Til passou a criticar diversos aspectos da Filosofia de Amsterdã, embora reconhecesse sua dívida intelectual para com ela. Entre suas objeções estava a convicção de que Dooyeweerd demonstrava excessiva disposição para acomodar, ou pelo menos dialogar de forma demasiadamente cordial, com formas de pensamento não cristãs. Sobre essa controvérsia, veja-se o debate entre Dooyeweerd e Van Til publicado na obra Jerusalem and Athens, organizada por Edward R. Geehan.
Apologética
Foi nesse contexto que Van Til desenvolveu sua “nova apologética”, cujo propósito era defender a “antiga verdade”. Embora fosse, acima de tudo, um pregador da Palavra, tornou-se amplamente conhecido por seu trabalho pioneiro no campo da apologética.
A apologética é um ramo da teologia que procura oferecer uma defesa consistente do cristianismo diante de toda forma de ataque proveniente dos não cristãos. O próprio Van Til a definiu como “a defesa da filosofia cristã da vida contra as diversas formas da filosofia não cristã da vida” (Apologetics, p. 1).
Alguns cristãos, movidos por boas intenções, entendem que não possuem a obrigação de expor e defender sua fé diante de um mundo hostil. Essa ideia, porém, não encontra apoio nas Escrituras. Jesus defendeu sua reivindicação de ser o Messias (Mt 22), e o apóstolo Paulo repetidamente defendeu sua autoridade apostólica (Gl 1–2; 1Co 9; At 22–26). Da mesma forma, a conhecida exortação de Pedro pressupõe claramente que a fé cristã pode ser racionalmente defendida:
“Antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, porém, com mansidão e temor.” (1Pe 3.15)
O ensino das Escrituras é claro: a fé cristã deve ser defendida. Entretanto, o método pelo qual essa defesa deve ser realizada tem sido, ao longo da história, objeto de intenso debate e continua sendo até hoje. Entre as diversas propostas, três métodos apologéticos alcançaram ampla aceitação.
Pressuposicionalismo
Em primeiro lugar, há a escola pressuposicionalista, cujo lema é: “Creio para compreender”. Ela parte do pressuposto de que a revelação sobrenatural da Palavra de Deus fornece o único fundamento para todo o empreendimento teológico. Robert Reymond resume essa posição da seguinte maneira: “As características desse grupo são as seguintes convicções: (1) a fé em Deus precede a compreensão de todas as demais coisas (cf. Hb 11.3); (2) a explicação do sistema da verdade vem após a fé; (3) a experiência religiosa deve estar fundamentada na Palavra objetiva de Deus e na obra objetiva de Cristo; (4) a depravação humana tornou a razão autônoma incapaz de fundamentar satisfatoriamente suas reivindicações de verdade em qualquer certeza objetiva; e (5) um ato especial de regeneração do Espírito Santo é indispensável para a fé cristã e para a verdadeira iluminação” (The Justification of Knowledge, p. 8). Essa escola é representada pela tradição reformada em sua expressão mais consistente, da qual Van Til faz parte.
Van Til desenvolveu o pressuposicionalismo em moldes reformados de maneira mais abrangente do que qualquer outro pensador antes dele. Ele construiu uma apologética pressuposicional baseada em duas afirmações fundamentais: primeiro, a distinção entre Criador e criatura, que exige que o ser humano pressuponha o Deus triúno, que autentica a Si mesmo, em todo o seu pensamento; segundo, a realidade de que os incrédulos resistem a essa obrigação em todos os aspectos da vida e do pensamento. Por isso, Van Til se opôs à autonomia, isto é, à tentativa de pensar e viver segundo qualquer critério de verdade que não seja a Palavra de Deus (Dictionary of Christianity in America, org. Daniel G. Reid, pp. 1211–1212).
Evidencialismo
Em segundo lugar, há a escola evidencialista, que pode ser representada pelo lema: “Compreendo e creio”. O evidencialismo enfatiza alguma forma de teologia natural como o ponto de partida da apologética. Como resume Reymond: “As características desse grupo são as seguintes: (1) uma genuína confiança na capacidade e na confiabilidade da razão humana em sua busca pelo conhecimento religioso; (2) o esforço de fundamentar a fé em fatos empíricos e/ou historicamente verificáveis; e (3) a convicção de que as proposições religiosas devem ser submetidas ao mesmo tipo de verificação — isto é, demonstração — exigido das afirmações científicas. A tradição tomista da Igreja Católica Romana, as tradições reformadas evidencialistas (embora inconsistentes) e a tradição arminiana são representativas desse grupo” (The Justification of Knowledge, p. 9).
Van Til realizou um trabalho pioneiro ao expor as falácias dessa metodologia. Ele demonstrou que essa abordagem deixa de considerar os efeitos radicais da Queda, pois sustenta que a razão humana foi apenas enfraquecida, mas não incapacitada pelo pecado. Van Til dirigiu críticas frequentes a dois dos principais representantes do evidencialismo: Tomás de Aquino, o mais importante teólogo medieval do catolicismo romano, e o bispo Joseph Butler, teólogo anglicano do século XVIII. Tomás de Aquino procurou estabelecer um terreno comum entre religião e filosofia ao defender que a existência de Deus, revelada nas Escrituras, também poderia ser demonstrada pela razão. Seu objetivo era sintetizar o pensamento natural e o sobrenatural, conciliando o cristianismo com a filosofia de Aristóteles. Van Til argumentava que essa abordagem tomista, ao acompanhar parcialmente o homem natural para depois conduzi-lo à verdade sobrenatural, compromete toda a estrutura bíblica da verdade como um sistema único e coerente. Da mesma forma, Van Til procurou demonstrar a insuficiência da obra de Butler, The Analogy of Religion (1736), que defendia a veracidade do cristianismo com base em argumentos de probabilidade.
Experiencialismo
Em terceiro lugar, há uma abordagem apologética denominada experiencialismo, cujo lema é: “Creio porque é absurdo”. O experiencialismo enfatiza a experiência religiosa interior como fundamento de toda a teologia. Essa perspectiva destaca o caráter paradoxal do ensino cristão a tal ponto que afirma que a verdade cristã não pode ser submetida a uma análise racional. Um exemplo típico dessa corrente é a tradição barthiana, que ressalta a alteridade, a transcendência e o ocultamento de Deus, em detrimento de sua revelação concreta da verdade nas Escrituras. Van Til também realizou um extenso trabalho ao demonstrar as falácias presentes no pensamento de Karl Barth, de seus seguidores e de outros autores que defendem a experiência subjetiva como independente da autoridade objetiva das Escrituras, ou até mesmo superior a ela, na determinação da verdade. A experiência, evidentemente, é absolutamente necessária, mas jamais constitui o fundamento da verdade ou da teologia.
Van Til desempenhou um papel de grande importância ao identificar métodos e pressupostos não pressuposicionalistas tanto em pensadores não reformados quanto em autores que, embora se identificassem como reformados, não permaneceram plenamente fiéis aos princípios da teologia reformada. Seu trabalho foi notável na apresentação de uma apologética reformada verdadeiramente consistente e fundamentada nas Escrituras, bem como na eliminação de elementos apologéticos não reformados que haviam penetrado na teologia reformada. Além disso, lançou os fundamentos de uma ontologia, de uma epistemologia e de uma ética autenticamente reformadas. Para aqueles que desejam compreender mais profundamente as Escrituras e progredir no conhecimento da verdade reformada e da apologética reformada, recomenda-se especialmente a leitura de The Defense of the Faith e de An Introduction to Systematic Theology.
Centro Cultural João Calvino