segunda-feira , 8 junho 2026

A Eucaristia é um Sacrifício? Uma análise Bíblica e Patrística

A Igreja Católica Romana ensina que o sacrifício da missa é um sacrifício propiciatório, no qual Cristo é oferecido ao Pai como vítima imolada no altar, renovando, de forma incruenta, segundo a terminologia romana, o sacrifício da cruz. Esse ensino, porém, além de teologicamente problemático, é historicamente insustentável. É comum vermos afirmarem que tal doutrina teria sido ensinada pelos Padres da Igreja e remontaria à fé primitiva. Mas, quando se faz uma leitura honesta das fontes patrísticas, especialmente de Agostinho, o que encontramos é um entendimento completamente diferente do ensino defendido por Roma. Em vez de uma vítima propiciatória apresentada no altar, o que encontramos é a ideia de um culto espiritual, em que a Igreja, como corpo de Cristo, oferece a si mesma em sacrifício de louvor e gratidão.

Antes de analisarmos o ensino de Santo Agostinho, é imprescindível estabelecer o fundamento escriturístico da questão, dado nas Escrituras, pois nenhuma doutrina tem legitimidade se não for coerente com a revelação inspirada. O testemunho do apóstolo Paulo estabelece uma doutrina que difere em gênero e grau, de natureza espiritual e eclesiológica, e absolutamente inconciliável com os pressupostos romanistas. Ao escrever aos coríntios, Paulo diz: “Como há somente um pão, nós, que somos muitos, somos um só corpo, pois todos participamos de um único pão” (1Co 10.17). Ora, tomemos a frase com o rigor teológico necessário: se o pão é símbolo da unidade do corpo de Cristo, e não o corpo literal de Cristo, então o texto exige, por uma necessidade lógica, que interpretemos a linguagem em termos sacramentais e representativos. Não somos transubstanciados em pão, nem Cristo é refeito em corpo carnal na eucaristia. A metáfora paulina vincula o sinal (o pão) à realidade espiritual (a unidade dos membros no corpo de Cristo), e não a uma realidade substancial e sacrificial que se reproduz ad infinitum em cada missa. John Breckinridge, em resposta a teólogos papistas, afirmou o seguinte:

“Aqui, veja, não há necessidade de tomar as palavras literalmente. Você admite que há figuras usadas na Bíblia. Por que, então, tomar estas literalmente? Quando o apóstolo nos diz (Ef 5.30): ‘Somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos’ e chama isso de ‘grande mistério’, é literal ou figurativo? Certamente ele não quer dizer que os ossos e a carne de Cristo estão substancialmente em cada crente! Quando os cristãos são ditos (Hb 6.4) ‘terem sido feitos participantes do Espírito Santo’, devemos entender que eles foram deificados? Ou (1Co 10.17): ‘Sendo muitos, somos um pão e um corpo’. Isso significa que todos os cristãos são primeiro fundidos em um só corpo e, depois, esse corpo é transmutado em um grande pão? No entanto, se tomado literalmente, deve ser assim”.1

A força do argumento aqui não está apenas na ironia de Breckinridge, mas na irrefutabilidade lógica que provém de uma leitura coerente do texto bíblico. Além disso, o mesmo apóstolo que fala do pão como símbolo da comunhão fala do sacrifício como sendo a consagração da própria vida do crente: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1). Aqui não há mediação sacerdotal além de Cristo, não há imolação; há sim entrega espiritual, consagração e santidade de vida. Este é o culto racional λογική λατρεία (logikē latreia),2 oposto ao culto carnal, ritualístico e repetitivo da economia antiga, que Roma, em sua obstinação, reincorpora sob aparência cristã.

Portanto, a exegese honesta de Paulo não apenas refuta a teologia do sacrifício eucarístico romano, como também estabelece, com clareza, que o único sacrifício restante na nova aliança é o da vida do crente, e isso em resposta ao sacrifício perfeito, completo, irrepetível e absolutamente suficiente de Cristo. O altar do Novo Testamento não é de pedra, mas espiritual; o sacerdote não é humano, mas o próprio Cristo; e a vítima não é novamente oferecida, mas lembrada, proclamada e recebida em fé. Este é o culto cristão.

Santo Agostinho caminha exatamente nessa mesma direção. Longe de ensinar que Cristo é imolado no altar, Agostinho desenvolve uma doutrina de sacrifício que tem como centro a união do homem com Deus. Ele afirma: “O verdadeiro sacrifício é toda obra realizada com o fim de sermos unidos a Deus em santa comunhão, e que se refere àquele bem supremo e fim último no qual unicamente podemos ser verdadeiramente bem-aventurados”.3 Para ele, não é sacrifício qualquer obra, ainda que pareça piedosa, se não for realizada por amor de Deus. E, mais, o próprio homem, quando consagrado a Deus, “é um sacrifício, na medida em que morre para o mundo a fim de viver para Deus”.4 O que Deus requer, portanto, não é o rito pelo rito, mas a consagração da vida.

Agostinho continua, afirmando que nosso corpo é sacrifício quando o submetemos à temperança, e o fazemos “por amor de Deus, para que não entreguemos nossos membros como instrumentos de injustiça para o pecado, mas como instrumentos de justiça para Deus”.5 Ele cita diretamente a exortação paulina como referência clara daquilo que constitui sacrifício agradável a Deus. O que importa, para Agostinho, não é o que se realiza exteriormente, mas o que se entrega interiormente. E justamente por isso, ele rejeita com veemência qualquer ideia de que Deus necessite de nossas ofertas, afirmando com todas as letras que “Deus não tem necessidade do nosso bem”,6 e que os sacrifícios do Antigo Testamento só existiram para apontar para as realidades espirituais que agora vivemos. Eram sombras, sinais visíveis de sacrifícios invisíveis.

A definição de sacrifício que Agostinho oferece é claríssima: “Um sacrifício, portanto, é o sacramento visível, ou sinal sagrado, de um sacrifício invisível”.7 O que Deus deseja é um espírito quebrantado, um coração contrito. E os sacrifícios exteriores só foram ordenados como símbolos transitórios do culto interior, destinado a permanecer. “Se Tu desejasses sacrifício, eu o daria; Tu não te comprazes em holocaustos. O sacrifício para Deus é um espírito quebrantado”,8 diz ele, citando os salmos.

Tudo isso colide diretamente com a estrutura teológica da missa romana. Para Agostinho, a Eucaristia é memória, é símbolo, é sacramento, mas nunca uma repetição literal, nem tampouco uma oferta propiciatória. Quando Agostinho afirma que “este é o sacrifício que a Igreja continuamente celebra no sacramento do altar […] no qual ela ensina que ela mesma é oferecida na oblação que faz a Deus”,9 ele não está dizendo que Cristo é imolado, mas que a própria Igreja, o corpo místico, é quem se entrega a Deus, em adoração, ação de graças e serviço. O sacrifício é da Igreja, e não de Cristo novamente. É o povo de Deus, unido a Cristo, que é apresentado. E isso se dá espiritualmente, não carnalmente.

Essa é a razão pela qual Agostinho vincula essa realidade eucarística ao sacerdócio de Melquisedeque, cuja oferta foi de pão e vinho, não de sangue derramado. O culto segundo Melquisedeque não é uma repetição de expiação, mas uma celebração de comunhão. Pão e vinho são os sinais visíveis dessa comunhão com Cristo, o verdadeiro Sacerdote. E a Igreja, nesse ato, não oferece o sacrifício da cruz, mas participa dos frutos dele, enquanto se entrega espiritualmente ao Deus vivo.

Toda a teologia sacrificial de Agostinho, portanto, repousa sobre três pilares: (1) o sacrifício interior e racional da vida consagrada a Deus; (2) a Igreja como corpo unido a Cristo, sendo ela mesma oferecida em louvor; e (3) os elementos sacramentais como sinais visíveis. Qualquer doutrina que ultrapasse esses limites cai no mesmo erro que Agostinho combateu ao longo de sua obra, o erro de pensar que Deus se compraz em ritos externos, quando o que ele requer é a entrega do coração.

O ensino de Agostinho, lido em seu próprio contexto e não por recortes isolados, não apenas refuta a teologia sacrificial da missa romana, mas fornece uma base robusta para a compreensão reformada do culto. O sacrifício de Cristo é único, completo, definitivo. A ceia é memorial, sinal, proclamação. A Igreja, como corpo, se oferece espiritualmente a Deus, em resposta ao sacrifício consumado, e não para repeti-lo.

Referências:

  1. BRECKINRIDGE, John. Controversy Between the Rev. John Hughes, of the Roman Catholic Church, and the Rev. John Breckinridge, of the Presbyterian Church, Relative to the Existing Differences in the Roman Catholic and Protestant Religions. Correspondence #30. Philadelphia, 22 ago. 1833. p. 242-248. Disponível em: https://purelypresbyterian.com/2021/01/25/transubstantiation-unbiblical-ahistorical-and-unreasonable/. Acesso em: 30 jun. 2025. ↩︎
  2. λογική λατρεία (logikḗ latreía), em Romanos 12:1, significa “culto racional”. Refere-se ao culto que nasce da mente renovada pelo Espírito Santo, contrapondo-se ao culto externo e carnal. Na teologia reformada, expressa o princípio de que o verdadeiro sacrifício a Deus é espiritual e racional, rejeitando qualquer ideia de sacrifício propiciatório humano, afirmando a suficiência do sacrifício único de Cristo. ↩︎
  3. AGOSTINHO, Santo. De Civitate Dei contra Paganos libri XXII. In: S. Aurelii Augustini Opera Omnia. Editio latina. Patrologia Latina, vol. 41, livro 10, cap. 6. Disponível em: https://www.augustinus.it/latino/cdd/index2.htm. Acesso em: 30 jun. 2025. Tradução minha. ↩︎
  4. Ibidem: “Unde ipse homo Dei nomine consecratus et Deo votus, in quantum mundo moritur ut Deo vivat, sacrificium est”. ↩︎
  5. Ibidem: “Corpus etiam nostrum cum temperantia castigamus, si hoc, quem ad modum debemus, propter Deum facimus, ut non exhibeamus membra nostra arma iniquitatis peccato, sed arma iustitiae Deo, sacrificium est”. ↩︎
  6. Ibidem: “Dixi Domino: Deus meus es tu, quoniam bonorum meorum non eges”. ↩︎
  7. Ibidem: “Sacrificium ergo visibile invisibilis sacrificii sacramentum, id est sacrum signum est”. ↩︎
  8. Ibidem: “Si voluisses, inquit, sacrificium, dedissem utique; holocaustis non delectaberis. Sacrificium Deo spiritus contritus; cor contritum et humiliatum Deus non spernet”. ↩︎
  9. Idibem: “Hoc est sacrificium Christianorum: Multi unum corpus in Christo. Quod etiam sacramento altaris fidelibus noto frequentat Ecclesia, ubi ei demonstratur, quod in ea re, quam offert, ipsa offeratur”. ↩︎

Sobre Frankle Brunno

Frankle Brunno é evangelista presbiteriano, tradutor e pesquisador em teologia reformada, com interesse na patrística, na escolástica e na tradição puritana. Fundador do Centro Cultural João Calvino, também é fundador e editor-chefe da João Calvino Publicações, apresentador do CalvinCast Podcast e diretor do Instituto Beza, dedicando-se ao ensino, à tradução e à publicação de obras fiéis à fé cristã confessional. É graduado em Teologia pela Faculdade de Teologia Integrada (FATIN) e pós-graduado em Docência do Ensino Superior, em Ciências da Religião, em Didática e Metodologia para o Ensino de Filosofia e em Didática e Metodologia para o Ensino de História, pela Faculdade IMES. Atualmente, é graduando em Bacharelado em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição (JMC) e pelo Instituto Reformado Santo Evangelho (IRSE), e pós-graduando em Teologia Filosófica pelo Centro de Pós-Graduação Jonathan Edwards.

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